<$BlogRSDURL$>

quarta-feira, agosto 18, 2004

"A Noémia foi esbofeteada " 

Estive quase duas semanas a antecipar o prazer de estar distraído, ou de fingir que estou distraído, como um agente duplo, a uma mesa do Rafael. Do café que se vê aqui de casa. Esperei esse momento como um regresso, foi um regresso ao vento. Lá veio de novo o Knopfli com as suas coisas. Vinha com a ideia da África do Sul: "- Sim, era o vestígio da democracia parlamentar... E porque havia uma coisa chamada Randam books e outra chamada Vanguard booksellers, onde você encontrava autores marxistas." Apesar de tudo era a África do Sul, ao pé de um Portugal tristinho e saloio. "Porque a África do Sul conservava, e conservou sempre, uma herança tipicamente britânica que é a do parlamentarismo; de maneira que havia umas certas liberdades formais que tinham que ser concedidas." Fala desse tempo com gosto, com visível nostalgia. E depois a poesia inglesa, que é a melhor do mundo... Eu não posso formalmente concordar mas aceito a sentença definitiva. É o Knopfli que diz: "- É que a poesia inglesa - como dizia um cronista brasileiro, é como uma rosa esquisita que desabrocha nas entranhas da noite."
Depois falou dos tempos em que foi incomodado, em que chegou a ser detido pela polícia política, por ninharias. O humor de Knopfli mudou bruscamente. Lembrou-se de uma vez em que foram surpreendidos, ele e os amigos, numa actividade clandestina. Comoveu-se com a recordação. Já me contou a história muitas vezes, mas nota-se que o marcou para sempre e por isso repete-a frequentemente: "A Noémia foi esbofeteada ao pé de mim e eu não fui, porque era branco - e isso também marca, OK?"
Depois voltou a rir quando me falou do Eduardo Lourenço (deve ter tido algum problema com ele quando era mais novo). Ainda parecia divertido quando se levantou e saiu: "Eu estou pronto a que me acusem de ser – como aliás, e muito bem, disse o Lourenço, que eu era - "um excelente poeta do nosso ex-império, das suas contradições e perplexidades..."

Comments: Enviar um comentário