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sábado, agosto 28, 2004

"Não há facilities lá!" 

Afinal parece que este bom tempo, de sol cheio, pouco vento e temperatura amena, ainda torna mais penoso o fim do Verão. Para mim, o Verão termina psicologicamente com o fim de Agosto. E não há nada a fazer quando se trata de psicologia. O Outono começará mais tarde e pode ser uma estação moderada mas o sentimento de perda mantem-se muito para lá do fim de Agosto. Este ano será diferente porque o meu Verão se verá prolongado artificialmente. E depois, se tudo correr como espero, o regresso, quase um ano depois. O que é que mudou... Estava mergulhado nestes pensamentos quando chega o Knopfli à esplanada. As nossas conversas, em que parece que só ele é que fala, provavelmente porque sabe ser tão rotundo e definitivo no que afirma, sem perder um profundo sentido de ironia e de auto-ironia (pois claro), são retomadas dias após dia como se nunca tivessem sido interrompidas. Na verdade nem sempre sei se ironiza se fala com sinceridade, ou será que a sua ironia é sempre sincera? Enquanto se senta na cadeira de plástico: "- Esta coisa é óptima porque eu estou convencido que estou a participar, aqui, de uma tertúlia, que estamos a trocar impressões!" Fico sem saber que dizer uma vez mais. Depois de uns preâmbulos - vinha para falar da Ilha de Moçambique e da quantidade de emoções que o tema lhe trás à memória - lá vem ele com esta: "- A gente sabe, Camões andou ali - roubaram-lhe ali uns versos -, foi cagar - como diz o Sena, quando lhe expliquei: o gajo vinha cagar aqui, onde eles cagam com o rabo virado para o mar e limpam-se com água, não há facilities lá! Roubaram-lhe os versos, sofreu ali, intensamente, lá ia dar a sua cavacada numa daquelas pretas - um gajo como o gajo dava e acertava bem porque tinha um olho fechado, de maneira que fazia melhor a pontaria!" Não lhe perguntei como raio é que ele sabia disso, parecia-me uma pergunta tola. A memória da ilha é uma memória sagrada. Um livro inteiro com versos solenes, reflectindo o sol na cal dos muros e das casas, prova a sua devoção à ilha. Mas há outras coisas que lhe merecem a mesma atenção, a mesma devoção comedida: "- Eu não troco a catedral de Chartres por nada neste mundo! Deve ser a coisa, pelo disparate, a coisa mais bonita que o génio humano empreendeu para lá das obras do Mozart, a pintura de Velázquez, a catedral de Chartres, Mozart, Shakespeare, pouco mais, Camões... mas isso é um vício privado." Eu também acho que o sagrado, ou seja, o disparate extremo sem retorno, está na música de Mozart e de Bach (claro), na voz humana, na pintura de Velázquez e de El Greco, para não falar do Goya que pintou o outro lado, em Cervantes que é o sagrado que ri de si mesmo, em Gaudi e em tantos outros. Enfim, a cada um o seu panteão.

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