<$BlogRSDURL$>

quinta-feira, agosto 26, 2004

"Não há em Portugal ninguém que se possa gabar de ser branco!" 

Falávamos das olimpíadas e puxei a conversa. Não é que nos entusiasme muito mas o Knopfli não deixa passar uma. Estranhava eu os pruridos e um debate de baixa intensidade que foi desencadeado pela medalha de prata de Obikuelo nas olimpíadas e pelas suas boas prestações. O homem a correr em Atenas, a correr febrilmente (quer dizer, com febre), a fazer um brilharete entre americanos e sei lá que mais, e em Portugal a levantar-se brandamente, timidamente quase, um debate sobre a identidade nacional. A blogosfera também repercutiu essas inquietações identitárias. Já não falo das hostes nacionalistas que facilmente dão o pior de si, irrelevantes, ressentidas e timoratas. Falo, por exemplo, do blogue do Francisco José Viegas, o Aviz, onde tenho lido algumas reflexões ponderadas e que dão um sentido à discussão. Mas nada disto interessa ao Knopfli. Ele está noutra e não resiste a entrar na discussão à sua maneira: "- O Lobato - e era um homem de direita - dizia: "Depois do século XVII, não há em Portugal ninguém que se possa gabar de ser branco!" Ia-se buscar o pretinho - não havia racismo, o racismo é uma invenção do século XIX, do mapa cor de rosa, desculpe que lhe diga, mas é. Não perceberam os intelectuais, ainda hoje: era um objecto de encantamento, esse pretinho, porque era um objecto diferente."
O Knopfli já me tinha vindo com esta no outro dia, que não vê a cor da pele. Ele próprio reconhece que é difícil perceber: "- As pessoas não percebem, não é possível explicar que a cor da pele, para o europeu que, deslumbrado, descobre um ser que é diferente, não tem para mim significado. Não vejo a cor da pele." E depois volta à carga, diz que é daltónico e eu gosto desta ideia tão fraterna: "- É essa mesma consciência, que lhe tenho estado a dar aqui, de me descobrir, depois dessa tal transparência em que não há cor, porque as cores são todas iguais e eu sou clour-blind, eu sou daltónico, em sentido racial." E depois saiu sem me dar tempo para responder. Mas que resposta poderia eu dar? Fiquei a pensar: se o Knopfli fosse às olimpíadas por que bandeira desfilaria, por que país escreveria os seus versos? Portugal? Moçambique? Ou levaria o seu fascínio pela poesia inglesa a ponto de mudar de camisola? Então não foi ele que me disse no outro dia, entre wiskies, que "sou um escritor português, sou, mas não posso recusar que Moçambique, da minha obra, se aproprie daquilo que entenda pertencer-lhe"? E pensando melhor, o que é que isto interessa? Que se lixe...

Comments:
A propósito desse daltonismo em que vivo considero necessário prolongar essa discussão. Procuro responder a duas questões (lancei o assunto por diversas vezes no outro olhar e rareou a discussão):
Qual é o sentido da comparação de resultados desportivos, ou outros, usando como critério a nacionalidade do atleta?
Será descabida a expressão atleta do mundo num tempo em que se agitam bandeiras após feitos ímpares nas diversas áreas de actividade social?
 
Enviar um comentário