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quarta-feira, agosto 25, 2004

Indícios do fim do Verão 



"Agosto, está-se a acabar..."

Há poucos anos (mas sempre mais alguns do que começamos timidamente por calcular) a RTP abriu o mês de Agosto com um filme de culto realizado por Jorge Silva Melo, com data de 1988. É uma produção franco/ portuguesa com a duração de 97 minutos, assinada por Patrick Saudain e Paulo Branco. O argumento é de Jorge Silva Melo e de Philippe Arnaud. A música é de José Mário Branco. Alexandra Lencastre dá a voz à personagem Alda, e João Pedro Gomes ao personagem Carlos. Christian Patey, Ana Bustorff, Diogo Dória, Glicínia Quartin, Isabel Ruth, Rita Blanco, Vítor Norte e Egito Gonçalves, entre muitos outros, constituem um extenso elenco de personagens que gravitam em torno do mês de Agosto e das suas promessas de plenitude. O filme chama-se Agosto e as primeiras imagens são acompanhadas por um tema em que uma voz nos segreda "Agosto está-se a acabar..." Este tema marca o ritmo do filme que é uma adaptação de um conto do italiano Cesare Pavese. Enquanto decorre, muito longe, a guerra de África, Carlos, um violoncelista, passa as férias de verão, na praia, com um grupo de amigos. Tudo parece distante, o mundo parece uma coisa remota e sem importância. Só restam para dar alguma realidade aos nossos gestos os rituais da amizade e da solidão. Ficam deste filme o azul do mar e a sombra interior dos quartos e uma palpitação que parece notificar-nos de que todos os meses têm um fim. Mas nenhum fim é tão funesto e tão melancólico como o fim de Agosto. Nesse ano (já não sei quando) a RTP passou o filme que nos lembra que Agosto já está a terminar.... no dia 1 de Agosto.
Na altura pareceu-me um requinte de mau gosto, hoje já não penso assim. Mas Agosto representa para mim - como provavelmente para muitos de nós - um mês em que ainda não desisti de encontar uma espécie de eternidade. A palavra é solene, como tudo o que perdura para além de nós, simplesmente não encontro outra. Chega o mês de Agosto e imagino que vou ficar parado no meio do Verão. Agosto é o mês mais indicado para adiar o que não nos apetece, porque parece eterno. É o mês em que podemos imaginar, sem dano, que todos os pequenos prazeres nos darão uma ilimitada felicidade. A marcha dos dias, quando levamos Agosto a sério, não nos afecta, porque imaginamos que ela não muda nada de essencial no tempo que nos foi dado viver em pleno Verão. Um tempo pleno e cheio, sem condições, onde cada gesto finalmente parece liberto de uma ruinosa economia de sobrevivência que nos tolhe durante o resto do ano. Um mês em que nada do que faço ou imagino terá consequências porque é um mês consagrado à ficção de toda a realidade. Assim é o mês de Agosto para quem crê e eu creio todos os anos que será assim.

Mas há indícios do fim do Verão, do fim de Agosto. Aprendemos a lê-los com o tempo, contravontade. O tempo vulgar, esse inimigo do mês de Agosto, essa inconveniência que nos vem lembrar que existe precisamente quando imaginamos que quase somos felizes. Há muitos indícios.
Os nossos gestos e os nossos pensamentos começam por ganhar um peso, uma gravidade, que antes não tinham. Um clic acontece em nós e estão à vista os dias de outro mês, as datas de outro calendário. A pele reage mais à temperatura ambiente, digamos que na defensiva. O tempo muda e isso é fatal. Ouvimos aqui e ali algumas palavras que não são do Verão. Pertencem a outro mês, ao seguinte. Agosto esboroa-se, fica irreconhecível. Não podemos fazer nada a não ser resignarmo-nos e esperar cá muito no fundo, apesar de, a partir de então, parecermos sempre muito ocupados.
Outro indício do fim do Verão e do fim de Agosto é, naturalmente, este post. Mas ainda faltam 6 dias...

Comments:
inexplicavel-mente conheces esta personagem que tecla. Sem demência de colagem e nunca porventura em rótulos de avestruz, que em reduzido espaço engendra ofensas aos dias em que se labuta, todos, por uma sopa daquelas que não provamos, que nos enchem de calor nestes dias de frio em agosto.

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inexplicavel-mente conheço os dias sem meses e deleitava-me no prazer de me dedicar a todos vós como em todos os meses no encanto de escolher o agosto e o ruído de lisboa para passar este mês.
 
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