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terça-feira, agosto 31, 2004

Diferença e repetição 


(Dessin: Raymond Moretti)

Cruzei-me há alguns anos com uma obra de Gilles Deleuze - ou dito de forma menos solene: há alguns anos atrás, no frenesi de um modesto trabalho de licenciatura sobre a indução em David Hume, li apressadamente alguns parágrafos de um livro singular do filósofo francês Gilles Deleuze... em fotocópias soltas. Tratava-se do Différence et répétition, livro publicado pelas P.U.F., com a sua primeira edição datada de 1968. Deleuze reinterpreta o pensamento de Nietzsche, de Kierkegaard, de Hume, entre outros à luz dos conceitos de "diferença" e de "repetição".
Recordo-me de bem pouco daquelas páginas lidas em sobressalto e com surpresa. Ler acerca do estatuto epistemológico da "différence" e da "repétition", reinterpretando o lugar da indução na construção do conhecimento, ajudou-me a pensar a importância desses conceitos na nossa percepção da vida corrente. Retive aquela que me pareceu constituir a tese central de um dos seus capítulos: a repetição engendra, pela contínua afecção da sensibilidade do sujeito, uma diferença não esperada por ele - ou seja, na indução e nos mecanismos dos hábito que regulam frequentemente a nossa vida comum, a repetição gera a diferença. E essa diferença constitui na economia vital uma elaboração decisiva, que ajuda a conformar a nossa visão do mundo e da realidade.
Diabolizar a rotina e a repetição constitui um lugar comum do pensamento corrente; é preciso distinguir meticulosamente entre a rotina que encapsula e oprime o desejo de expressão, da rotina que liberta o indivíduo da reiterada construção de mecanismos de resposta a exigências mundanas. A rotina e o hábito libertam, precisamente até ao momento em que deixamos que as respostas automáticas que eles induzem, tomem conta do nosso comportamento e contaminem a nossa visão do mundo. É certo que a repetição e a rotina nos aproximam da miragem de um mundo seguro e sem surpresas que, sabemos bem, é coisa que não existe. Deslendo Deleuze, 'a repetição é a prova de que podemos confiar na natureza', o sinal segredado ao ouvido de um homem em sobressalto para quem as rotinas são uma promessa de estabilidade e de suspensão da entropia do mundo.
A minha experiência recente resulta de uma entrega total às rotinas (dito assim parece uma confissão com o seu quê de passional)... a repetição aproxima-nos mais da ideia que fazemos de sobreviver contra as adversidades. Mas no polo oposto de tudo isto há a diferença, o inesperado, a novidade, a aventura. Tal como Alexandre O'Neil escreveu no mais belo poema de amor e melancolia: "(...) tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso". (Um Adeus Português) Percebemos facilmente que as rotinas e as repetições nos ajudam na luta contra o caos. Mas que a entrega a ambas pode também levar à perdição.

Lembrei-me deste episódio académico, sem consequências, quando revia mentalmente, ontem à tarde, a minha progressão na leitura do Quijote. Leitura demorada, minuciosa, pausada também. Obediente ao aparato erudito de notas filológicas, de apartes e de perplexidades críticas. Pensava sobretudo no capítulo XX - "De la jamás vista ni oída aventura que con más poco peligro fué acabada de Famoso Caballero en el mundo, como la que acabó el valeroso Don Quijote de la Mancha". Na minha primeira leitura não deixou marcas. Agora parece-me constituir um dos mais bem construídos e arquitectados de todos quanto li até ao momento.
Don Quixote e o seu escudeiro acabam de sair da aventura do defunto, quando a noite os surpreende numa espécie de vergel, em pleno deserto de Castilla. Ambos ficam paralisados pelo ruído que ali chega: o troar de uma tumultuosa queda de água, marcada por um estrondo sincopado e não menos terrível. As trevas apenas adensam o mistério. Depois de um delicioso diálogo entre amo e escudeiro, ambos se resignam a esperar que amanheça. É então que, a pedido de Don Quixote, Sancho lhe conta uma história. E saiu assim a história:


(Scott Gustafson)

- Pero, con todo eso, yo me esforzaré á decir una historia, que, si la acierto á contar y no me van a la mano, es la mejor de las historias; y estéme vuestra merced atento, que ya comienzo. Érase que se era, el bien que viniere para todos sea, y el mal, para quien lo fuere a buscar... Y advierta vuestra merced, señor mío, que el principio que los antiguos dieron á sus consejas no fue así como quiera, que fué una sentencia de Catón Zonzorino, romano, que dice: "y el mal, para quien le fuere á buscar", que viene aquí como anillo al dedo, para que vuestra merced se esté quedo, y no vaya a buscar el mal á ninguna parte, sino que nos volvamos por otro camino, pues nadie nos fuerza á que sigamos éste, donde tantos miedos nos sobresaltan.

- Sigue tu cuento, Sancho - dijo don Quijote -, y del camino que hemos de seguir déjame á mí el cuidado.

- Digo, pues - prosiguió Sancho -, que en un lugar de Extremadura había un pastor cabrerizo, quiero decir, que guardaba cabras, el cual pastor ó cabrerizo, como digo de mi cuento, se llamaba Lope Ruiz; y este Lope Ruiz andaba enamorado de una pastora que se llamaba Torralba; la cual pastora llamada Torralba era hija de un ganadero rico; y este ganadero rico...

- Si desa manera cuentas tu cuento, Sancho - dijo don Quijote -, repitiendo dos veces lo que vas diciendo, no acabaras en dos días; dilo seguidamente, y cuéntalo como hombre de entendimiento, y si no, no digas nada.

- De la misma manera que yo lo cuento - respondió Sancho - se cuentan en mi tierra todas las consejas, y yo no sé contarlo de otra, ni es bien que vuestra merced me pida que haga usos nuevos.

- Di como quisieres - respondió don Quijote -; y, pues la suerte quiere que no pueda dejar de escucharte, prosigue.


Também no discurso precisamos do consolo da repetição, da segurança da confirmação, da redundância e do lugar comum. Toda a insistência fortalece, toda a repetição enfatiza e densifica. Por isso não basta dizer uma vez, é preciso ouvir e ouvir o eco do que foi dito. Não basta dizer, é preciso repetir. Peçam um café e verão.

Comments:
estranha inferência de plena incerteza da dedução como prova apodítica não verificada na diferença da não relação de alteridade em que temos dois pontos em duas rectas que se cruzam
 
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