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sábado, agosto 21, 2004

Cenas da vida privada em Mérida 



Está a terminar (mais um indício do fim do Verão) o Festival de Teatro de Mérida, que tem lugar naquela cidade extremenha durante os meses de Julho e Agosto. Para mim tem sido apenas um festival à distância, a curta distância. O festival tem o seu modelo. Durante cerca de dois meses sucedem-se os espetáculos de teatro e ballet, que ficam em cena durante alguns dias, até serem substituídos pelo seguinte. Não é, portanto, um festival para estar, mas um festival a que se vai e volta, apesar de um programa de actividades paralelas para fixar público. Na quinta-feira, 19 de Agosto, estreou o último espetáculo do festival - a "Orestiada", com direcção de Mario Gas - que terá uma primeira carreira até ao próximo dia 22, domingo (amanhã) e uma segunda entre 26 e 29 de Agosto.
A "Orestiada" teve a estreia com mais público desta Lª edição do festival, registando um total de 2 189 espectadores. A organização rejubila com a qualidade do programa e eleva o acontecimento às alturas dos grandes festivais de Edimburgo e de Avignon. Este ano passaram por Mérida 6 grandes montagens teatrais (à excepção da apresentação de Dario Fo, concerteza), um espetáculo de dança e um espetáculo de ópera. Para além, naturalmente de exposições e outras actividades complementares. "Yo, Claudio", a abrir logo no início de Julho, "Medea, la extranjera", "Proserpina. Perséfone en Mérida", "Prometeo, del fuego a la luz" e a "Orestiada", constituiram a substância do festival. A 28 de julho teve lugar a entrega do Premio "Scaena" a Dario Fo e a Franca Rame, seguida da peça "Rosa fresca altísima y otras juglarías" com os dois artistas.
Entre 12 e 14 de Agosto subiu ao palco do teatro romano "La clemenza di Tito", uma ópera de Wolfgang Amadeus Mozart, protagonizada pelo Helikon Opera Theatre e com direcção de Dmitry A. Bertman.
A 6 e 7 de julho foi a vez do espetáculo de dança "El sueño de una noche de verano" da Companhia Nacional de Dança de Portugal.


Anfitrión de Plauto, con Rafael Alvarez "el Brujo" (1996)

Há 8 festivais atrás - em Agosto de 1996 - reservámos por telefone bilhetes para duas grandes produções. "Anfitrião" de Plauto e "Romeu e Julieta". Entre uma e outra andámos por Cáceres e Trujillo, planeando mais uma fuga a Sevilla que não se viria a concretizar. O Miguel ainda não tinha um ano e provavelmente acreditava que os efeitos especiais da peça de Plauto eram tão terríveis como pareciam. O teatro romano estava cheio na estreia e a expectativa era máxima. Rafael Alvarez "el brujo" desceu as escadas, passando junto de mim, e foi como se um deus tivesse descido áquela cidade romana, numa agradável noite de Verão. O artista exercia, então, tal influência no seu público, que durante toda a representação me senti (também eu, tal como os outros) mergulhado num estado de intensa felicidade, suspenso das suas palavras, dos seus gestos, dos esgares. Anfitrião é uma obra singular, entre tragédia e comédia, elevando ao mais alto grau as qualidades da comédia de enganos. Rafael Alvarez tornou-a ainda mais dramática, mais trágica, mais paródica, densificou-a até à vertigem dos equívocos da identidade. Para mim foi uma representação simplesmente histórica, para a história do festival que cumpriu este ano a 50ª edição, não sei.

Veio tudo isto a propósito (?) de um escândalo que faz o seu curso na opinião venal da cidade extremenha. Li ontem no jornal uma notícia que me deixou em choque. Nem vale a pena perder muito tempo... que o post já vai longo. Espalharam-se pela cidade, depois pelos cafés, de mão em mão, depois de chegarem à internet, umas fotos muito comprometedoras de uma figura pública local. Fotos explícitas, está tudo dito. Parece que a vereadora do Tesouro e Turismo do Ayuntamiento de Mérida (nas mãos do PP) aparece nas tais fotos "explícitas" com uma "popular apresentadora da televião local", a TeleMérida. Sabemos que as fantasias lésbicas são um must do imaginário masculino, o que é circunstancialmente confirmado pelo facto das fotos terem sido feitas por uma figura masculina presente nos cenários, ocasionalmente participante. As fotos foram roubadas de um computador do irmão do presidente e divulgadas amplamente, prenunciando uma verdadeira batalha partidária na cidade. Para quem não gosta de teatro clássico, com o seu cortejo de deuses adúlteros e venais, nada melhor do que um bom drama envolvendo a devassa da vida íntima de dois ou três humanos desocupados. Vivemos um tempo de moralidade e de virtudes públicas verdadeiramente difícies de suportar. Não parece uma tragédia... mas é. Qualquer dia ainda proibem a pornografia...

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