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sexta-feira, agosto 27, 2004

As Palavras e as Coisas 

Não tirei da estante o livro de Michel Foucault para o ler na íntegra. Les Mots et les Choses é um daqueles livros que nunca li por recear que a sua leitura me reclamasse um talento de leitor que afinal não tenho. O receio de não estar à altura é uma das fraquezas do leitor timorato. Hoje parece-me apenas um disparate. Mas desta vez decidi apenas reler um dos breves parágrafos do III capítulo. Noutras alturas li e reli as belíssimas e reveladoras páginas sobre o famoso quadro de Velázquez - Las Meninas - que constituem o primeiro capítulo.
A obra de Foucault é complexa e marcou uma época. Talvez por isso a releitura das páginas sobre o Quixote pareceu-me agora um pouco menos inspiradora que antes. O cavaleiro da Mancha serve a Foucault para reflectir uma mudança de paradigma na construção do saber e na organização do conhecimento. A mudança que marcou decisivamente a fractura com o saber medieval, com a emergência da ciência moderna a ocupar o lugar deixado vago por essa mundividência fundada nas semelhanças e na substancialidade dos signos. Quixote é, nas palavras e na tessitura conceptual deste autor, "o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude". "Ora, a sua própria figura" - acrescenta Foucault - "consubstancia a semelhança dos signos. O seu longo e esgalgado grafismo, como o de uma letra, parece ter saltado direitinho do bocejo dos livro."
D. Quixote procura confirmar a semelhança entre os signos e as coisas, num momento em que essa distância já revela uma ruptura. Os signos já não são semelhantes aos seres, as palavras já não pressupõem as coisas. Por isso D. Quixote é um tonto que passeia pelo mundo, surpreendendo a cada passo aqueles que o ouvem discursar - porque o seu discurso é de uma coerência assombrosa, apesar de se revelar completamente inconsistente com o próprio mundo. Citando de novo Michel Foucault: "D. Quixote desenha o negativo do mundo da Renascença; a escrita cessou de ser a prosa do mundo; as semelhanças e os signos romperam a sua antiga aliança; as similitudes desiludem, descambam em visão e delírio; as coisas permanecem obstinadamente na sua identidade irónica: já não são senão o que são; as palavras erram ao acaso, sem conteúdo, sem semelhanças que as preencham; já não marcam as coisas; dormem entre as folhas dos livros, no meio da poeira."
Michel Foucault reserva a esta decifração da errância do Quixote, tão estranha que só pode resultar de uma paranóia obsessiva, não mais de quatro páginas. As pistas que ele lança são estimulantes, sobretudo quando evoca a moderniddae do personagem e a originalidade da obra de Cervantes. Nomeadamente quando afirma: "D. Quixote é a primeira das obras modernas, pois nela se vê a razão cruel das identidades e das diferenças zombar incessantemente dos signos e das similitudes; pois a sua linguagem rompe a velha intimidade com as coisas, para entrar nessa soberania solitária de ser abrupto, donde só sairá convertida em literatura."

As Palavras e as Coisas - uma arqueologia das ciências humanas, Michel Foucault, edições 70, trad. António Ramos Rosa, Lisboa, 1988

Comments:
a vida olha e o estranho...foucault sem estruturalismos que qualquer d. quixote o devolve sem eternidade...e que cuja vitalidade nunca existente e desaparecida nas meninas que não consegue suster o pão de cada dia para cada representação em desaparecimento da...vida é e não é feita de cobardias em maratonas ou em foucault por ofensivas, é feita pela presença de amar, ficando-se na paixão de o amar, no silêncio, na sua eterna referência...medieval
 
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