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sexta-feira, agosto 27, 2004

As Olímpíadas de Coubertain e o podium americano 

"Qual é o sentido da comparação de resultados desportivos, ou outros, usando como critério a nacionalidade do atleta? Será descabida a expressão atleta do mundo num tempo em que se agitam bandeiras após feitos ímpares nas diversas áreas de actividade social?" - Foram as perguntas do autor do blogue Aragem, o Miguel Pinto, deixadas no último post do Knopfli. Aqui fica o meu comentário ao seu comentário. A requerer, obviamente, outro comentário...

O desporto de alto rendimento é a continuação da política externa de um país por outros meios. Tal como acontece sempre que um estado organiza e realiza um grande acontecimento de escala mundial - e não vejo que isso seja mau em si mesmo. Nesse sentido a subida ao podium de três atletas norte-americanos, nos 200 metros, esta noite, é uma ostentação do domínio de uma potência mundial através do atletismo - e não vejo que volta haverá a dar. As comparações no plano desportivo (gostamos especialmente de rankings) deslizam sempre, inevitavelmente, para o plano geo-político. Se não é assim, como interpreta a emergência da China também aqui, na luta pelas medalhas, como uma grande potência desportiva? Há um continuum de leitura de um plano a outro, é o que me parece.
Quanto à interpretação dos resultados a partir da nacionalidade do atleta: por um lado permite uma leitura fácil e estável (difícil seria ler os resultados em função da religião, da língua ou da cultura); por outro lado toda a "tecnologia" da preparação para as olimpíadas é paga e montada no terreno pelos países que patrocinam os atletas - quase sempre os países de origem, de nascimento dos próprios atletas. Logo... é natural que reclamem esse tipo de leitura dos resultados. Por isso o podium inteiramente americano nos 200 metros permite uma leitura evidente, como evidente, mas de sentido inverso, é a leitura da grande fragilidade da representação portuguesa. É fácil de perceber que um halterofilista Búlgaro adopte a nacionalidade turca, que um velocista nigeriano assuma a nacionalidade portuguesa (apesar de um vasto leque de outros países com melhores condições) ou que muitos atletas sonhem, pelo menos, em preparar a sua carreira nos Estados Unidos. O inverso é que seria bizarro.
Quanto à expressão atleta do mundo parece-me tão pertinente como a expressão "atleta de Pretória", de "Odivelas", de "Toulose" ou de "Baucau". Enquanto o desporto for encarado como uma modalidade das relações exteriores dos estados na cena internacional, as Olímpíadas de Coubertain serão assim e não uma competição idealista baseada numa concepção romântica da condição e da convivência humanas. Mas é o mundo que é assim, em primeiro lugar, não as Olimpíadas.

Comments:
Concordo consigo essencialmente na leitura que faz da dimensão política do desporto moderno. Na verdade, o desporto pode ser usado como poder e contra-poder. A história dos jogos olímpicos está recheada de episódios que demonstram esta dupla face da dimensão política do desporto, nomeadamente, nos casos mais badalados (jogos olímpicos da Alemanha, Canadá, ex-URSS, EUA, etc.) Mais importante do que dizer as coisas são como são aceitando deterministicamente a transição de paradigma societal, a meu ver, há que apontar caminhos. A concepção romântica da condição e da convivência humana a que o Gustavo se referiu pode ser a alternativa ao poder hegemónico que atenta em muitos casos a violação da dignidade humana. Essa ideia romântica (também lhe poderia chamar de utópica) assenta na reiteração do desporto plural de motivos, interesses, formas e práticas; na metamorfose dos modelos de prática piramidais em modelos inclusivos; na valorização da profissionalidade do desportista.
 
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