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terça-feira, agosto 31, 2004

Diferença e repetição 


(Dessin: Raymond Moretti)

Cruzei-me há alguns anos com uma obra de Gilles Deleuze - ou dito de forma menos solene: há alguns anos atrás, no frenesi de um modesto trabalho de licenciatura sobre a indução em David Hume, li apressadamente alguns parágrafos de um livro singular do filósofo francês Gilles Deleuze... em fotocópias soltas. Tratava-se do Différence et répétition, livro publicado pelas P.U.F., com a sua primeira edição datada de 1968. Deleuze reinterpreta o pensamento de Nietzsche, de Kierkegaard, de Hume, entre outros à luz dos conceitos de "diferença" e de "repetição".
Recordo-me de bem pouco daquelas páginas lidas em sobressalto e com surpresa. Ler acerca do estatuto epistemológico da "différence" e da "repétition", reinterpretando o lugar da indução na construção do conhecimento, ajudou-me a pensar a importância desses conceitos na nossa percepção da vida corrente. Retive aquela que me pareceu constituir a tese central de um dos seus capítulos: a repetição engendra, pela contínua afecção da sensibilidade do sujeito, uma diferença não esperada por ele - ou seja, na indução e nos mecanismos dos hábito que regulam frequentemente a nossa vida comum, a repetição gera a diferença. E essa diferença constitui na economia vital uma elaboração decisiva, que ajuda a conformar a nossa visão do mundo e da realidade.
Diabolizar a rotina e a repetição constitui um lugar comum do pensamento corrente; é preciso distinguir meticulosamente entre a rotina que encapsula e oprime o desejo de expressão, da rotina que liberta o indivíduo da reiterada construção de mecanismos de resposta a exigências mundanas. A rotina e o hábito libertam, precisamente até ao momento em que deixamos que as respostas automáticas que eles induzem, tomem conta do nosso comportamento e contaminem a nossa visão do mundo. É certo que a repetição e a rotina nos aproximam da miragem de um mundo seguro e sem surpresas que, sabemos bem, é coisa que não existe. Deslendo Deleuze, 'a repetição é a prova de que podemos confiar na natureza', o sinal segredado ao ouvido de um homem em sobressalto para quem as rotinas são uma promessa de estabilidade e de suspensão da entropia do mundo.
A minha experiência recente resulta de uma entrega total às rotinas (dito assim parece uma confissão com o seu quê de passional)... a repetição aproxima-nos mais da ideia que fazemos de sobreviver contra as adversidades. Mas no polo oposto de tudo isto há a diferença, o inesperado, a novidade, a aventura. Tal como Alexandre O'Neil escreveu no mais belo poema de amor e melancolia: "(...) tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso". (Um Adeus Português) Percebemos facilmente que as rotinas e as repetições nos ajudam na luta contra o caos. Mas que a entrega a ambas pode também levar à perdição.

Lembrei-me deste episódio académico, sem consequências, quando revia mentalmente, ontem à tarde, a minha progressão na leitura do Quijote. Leitura demorada, minuciosa, pausada também. Obediente ao aparato erudito de notas filológicas, de apartes e de perplexidades críticas. Pensava sobretudo no capítulo XX - "De la jamás vista ni oída aventura que con más poco peligro fué acabada de Famoso Caballero en el mundo, como la que acabó el valeroso Don Quijote de la Mancha". Na minha primeira leitura não deixou marcas. Agora parece-me constituir um dos mais bem construídos e arquitectados de todos quanto li até ao momento.
Don Quixote e o seu escudeiro acabam de sair da aventura do defunto, quando a noite os surpreende numa espécie de vergel, em pleno deserto de Castilla. Ambos ficam paralisados pelo ruído que ali chega: o troar de uma tumultuosa queda de água, marcada por um estrondo sincopado e não menos terrível. As trevas apenas adensam o mistério. Depois de um delicioso diálogo entre amo e escudeiro, ambos se resignam a esperar que amanheça. É então que, a pedido de Don Quixote, Sancho lhe conta uma história. E saiu assim a história:


(Scott Gustafson)

- Pero, con todo eso, yo me esforzaré á decir una historia, que, si la acierto á contar y no me van a la mano, es la mejor de las historias; y estéme vuestra merced atento, que ya comienzo. Érase que se era, el bien que viniere para todos sea, y el mal, para quien lo fuere a buscar... Y advierta vuestra merced, señor mío, que el principio que los antiguos dieron á sus consejas no fue así como quiera, que fué una sentencia de Catón Zonzorino, romano, que dice: "y el mal, para quien le fuere á buscar", que viene aquí como anillo al dedo, para que vuestra merced se esté quedo, y no vaya a buscar el mal á ninguna parte, sino que nos volvamos por otro camino, pues nadie nos fuerza á que sigamos éste, donde tantos miedos nos sobresaltan.

- Sigue tu cuento, Sancho - dijo don Quijote -, y del camino que hemos de seguir déjame á mí el cuidado.

- Digo, pues - prosiguió Sancho -, que en un lugar de Extremadura había un pastor cabrerizo, quiero decir, que guardaba cabras, el cual pastor ó cabrerizo, como digo de mi cuento, se llamaba Lope Ruiz; y este Lope Ruiz andaba enamorado de una pastora que se llamaba Torralba; la cual pastora llamada Torralba era hija de un ganadero rico; y este ganadero rico...

- Si desa manera cuentas tu cuento, Sancho - dijo don Quijote -, repitiendo dos veces lo que vas diciendo, no acabaras en dos días; dilo seguidamente, y cuéntalo como hombre de entendimiento, y si no, no digas nada.

- De la misma manera que yo lo cuento - respondió Sancho - se cuentan en mi tierra todas las consejas, y yo no sé contarlo de otra, ni es bien que vuestra merced me pida que haga usos nuevos.

- Di como quisieres - respondió don Quijote -; y, pues la suerte quiere que no pueda dejar de escucharte, prosigue.


Também no discurso precisamos do consolo da repetição, da segurança da confirmação, da redundância e do lugar comum. Toda a insistência fortalece, toda a repetição enfatiza e densifica. Por isso não basta dizer uma vez, é preciso ouvir e ouvir o eco do que foi dito. Não basta dizer, é preciso repetir. Peçam um café e verão.

segunda-feira, agosto 30, 2004

Uma conversa de café vertida em texto... 


Não resisti a comprar ontem o livro de bolso de Rebecca Blood que, aliás, já conhecia de o ter folheado demoradamente numa Feira do Livro de Almada. Depois da leitura preambular do livro da Porto Editora (ver post anterior) este verdadeiro guia do weblog é o passo a dar para quem quiser progredir com segurança na blogosfera. Deixarei para mais tarde uma recensão circunstanciada da obra, mas desde as primeiras leituras rasantes percebemos que temos na mão um livro escrito com uma sensibilidade rara aos novos fenómenos da comunicação e da cultura on line. A autora revela uma subtileza e um bom gosto que, em meu entender, são pouco frequentes nestas obras da cultura on line. Isso lê-se logo a abrir o o primeiro capítulo - O que é um weblogue? - quando encontramos em epígrafe uma autocitação da autora: "Um weblogue é uma conversa de café vertida em texto, com referências, como se exige."

domingo, agosto 29, 2004

Diário de Bordo 










A Porto Editora tem uma nova colecção sobre Comunicação. Publicou recentemente, seguindo o espírito do tempo, um livrinho sobre a concepção de Weblogs. Os autores, Elisabete Barbosa e António Granado, são professores e jornalistas de comunicação e produziram um pequeno manual de iniciação. Para além das generalidades iniciais acerca do tema, e nomeadamente acerca da manutenção de um blogue e das opções que o seu autor terá de equacionar, o livro reserva capítulos breves sobre os weblogs no campo do jornalismo, nas Empresas e nos Negócios, no Ensino. A criação de comunidades e de públicos, a interacção com os leitores também merecem atenção. Os últimos capítulos são reservados a conselhos práticos de que já aproveitei, sobretudo no que concerne ao tratamento das imagens editadas. O livro ajuda também a criar um discurso e a ganhar uma consciência mais apurada sobre os weblogs e tudo o que eles representam hoje na net.
Li com mais agrado que proveito o livro que vale apenas como uma iniciação à blogosfera e que não substitui a experiência de quem constrói o seu espaço a partir do zero. Dei especial atenção aos parágrafos dedicados aos blogues colectivos e aos edublogs. Escrevem os autores: "Se há uma área onde os weblogs podem ser utilizados como ferramenta de comunicação e de troca de experiências com excelentes resultados, essa área é, sem dúvida, a da educação. Da simples afixação de textos do professor a um local priveligiado para a publicação de trabalhos dos alunos, os weblogs educativos (edublogs) constituem já uma área muito considerável deste fenómeno, com milhares de páginas dedicadas a ela em todo o mundo." (p. 69)
Os autores defendem que os blogues podem ajudar a diminuir a distância entre escolas isoladas, aproximando professores, alunos e turmas: "Numa escola, os weblogs podem ajudar alunos e professores a comunicar mais e melhor, sem necessidade de grandes recursos tecnológicos ou financeiros, bastando apenas uma ligação à Internet." (p. 69) Terminada a leitura do Diário de Bordo... fica a faltar mais. Talvez a leitura do livro de Rebecca Blood, em que este parcialmente se inspirou.

Weblogs - Diário de Bordo, Elisabete Barbosa e António Granado, Porto Editora, Colecção Comunicação, Porto, 2004.

sábado, agosto 28, 2004

"Não há facilities lá!" 

Afinal parece que este bom tempo, de sol cheio, pouco vento e temperatura amena, ainda torna mais penoso o fim do Verão. Para mim, o Verão termina psicologicamente com o fim de Agosto. E não há nada a fazer quando se trata de psicologia. O Outono começará mais tarde e pode ser uma estação moderada mas o sentimento de perda mantem-se muito para lá do fim de Agosto. Este ano será diferente porque o meu Verão se verá prolongado artificialmente. E depois, se tudo correr como espero, o regresso, quase um ano depois. O que é que mudou... Estava mergulhado nestes pensamentos quando chega o Knopfli à esplanada. As nossas conversas, em que parece que só ele é que fala, provavelmente porque sabe ser tão rotundo e definitivo no que afirma, sem perder um profundo sentido de ironia e de auto-ironia (pois claro), são retomadas dias após dia como se nunca tivessem sido interrompidas. Na verdade nem sempre sei se ironiza se fala com sinceridade, ou será que a sua ironia é sempre sincera? Enquanto se senta na cadeira de plástico: "- Esta coisa é óptima porque eu estou convencido que estou a participar, aqui, de uma tertúlia, que estamos a trocar impressões!" Fico sem saber que dizer uma vez mais. Depois de uns preâmbulos - vinha para falar da Ilha de Moçambique e da quantidade de emoções que o tema lhe trás à memória - lá vem ele com esta: "- A gente sabe, Camões andou ali - roubaram-lhe ali uns versos -, foi cagar - como diz o Sena, quando lhe expliquei: o gajo vinha cagar aqui, onde eles cagam com o rabo virado para o mar e limpam-se com água, não há facilities lá! Roubaram-lhe os versos, sofreu ali, intensamente, lá ia dar a sua cavacada numa daquelas pretas - um gajo como o gajo dava e acertava bem porque tinha um olho fechado, de maneira que fazia melhor a pontaria!" Não lhe perguntei como raio é que ele sabia disso, parecia-me uma pergunta tola. A memória da ilha é uma memória sagrada. Um livro inteiro com versos solenes, reflectindo o sol na cal dos muros e das casas, prova a sua devoção à ilha. Mas há outras coisas que lhe merecem a mesma atenção, a mesma devoção comedida: "- Eu não troco a catedral de Chartres por nada neste mundo! Deve ser a coisa, pelo disparate, a coisa mais bonita que o génio humano empreendeu para lá das obras do Mozart, a pintura de Velázquez, a catedral de Chartres, Mozart, Shakespeare, pouco mais, Camões... mas isso é um vício privado." Eu também acho que o sagrado, ou seja, o disparate extremo sem retorno, está na música de Mozart e de Bach (claro), na voz humana, na pintura de Velázquez e de El Greco, para não falar do Goya que pintou o outro lado, em Cervantes que é o sagrado que ri de si mesmo, em Gaudi e em tantos outros. Enfim, a cada um o seu panteão.

"living in a place" 

Num mundo em que as fronteiras políticas não dizem a verdade toda - porque há povos divididos entre estados, povos sem nação, nações sem estado e entidades territoriais acolhendo criticamente diversos povos culturalmente distantes - fala-se também de "Bioregião" e de "Bioregionalismo". Encontrei casualmente estes conceitos fracturantes - ou será que a leitura política é precipitada? - no famoso blogue de Rebecca Blood,em Rebecca's Pocket. Explica-se aí que "a bioregion is a land and water territory whose limits are defined not by political boundaries, but by the geographical limits of human communities and ecological systems". E mais: "A bioregion is an area that shares similar topography, plant and animal life, and human culture. Bioregions are often organized around watersheds, and they can be nested within each other. Bioregional boundaries are usually not rigid, and often differ from political borders around counties, states, provinces and nations. Ideally, bioregions are places that could be largely self-sufficient in terms of food, products and services, and would have a sustainable impact on the environment."
É ler...

sexta-feira, agosto 27, 2004

As Palavras e as Coisas 

Não tirei da estante o livro de Michel Foucault para o ler na íntegra. Les Mots et les Choses é um daqueles livros que nunca li por recear que a sua leitura me reclamasse um talento de leitor que afinal não tenho. O receio de não estar à altura é uma das fraquezas do leitor timorato. Hoje parece-me apenas um disparate. Mas desta vez decidi apenas reler um dos breves parágrafos do III capítulo. Noutras alturas li e reli as belíssimas e reveladoras páginas sobre o famoso quadro de Velázquez - Las Meninas - que constituem o primeiro capítulo.
A obra de Foucault é complexa e marcou uma época. Talvez por isso a releitura das páginas sobre o Quixote pareceu-me agora um pouco menos inspiradora que antes. O cavaleiro da Mancha serve a Foucault para reflectir uma mudança de paradigma na construção do saber e na organização do conhecimento. A mudança que marcou decisivamente a fractura com o saber medieval, com a emergência da ciência moderna a ocupar o lugar deixado vago por essa mundividência fundada nas semelhanças e na substancialidade dos signos. Quixote é, nas palavras e na tessitura conceptual deste autor, "o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude". "Ora, a sua própria figura" - acrescenta Foucault - "consubstancia a semelhança dos signos. O seu longo e esgalgado grafismo, como o de uma letra, parece ter saltado direitinho do bocejo dos livro."
D. Quixote procura confirmar a semelhança entre os signos e as coisas, num momento em que essa distância já revela uma ruptura. Os signos já não são semelhantes aos seres, as palavras já não pressupõem as coisas. Por isso D. Quixote é um tonto que passeia pelo mundo, surpreendendo a cada passo aqueles que o ouvem discursar - porque o seu discurso é de uma coerência assombrosa, apesar de se revelar completamente inconsistente com o próprio mundo. Citando de novo Michel Foucault: "D. Quixote desenha o negativo do mundo da Renascença; a escrita cessou de ser a prosa do mundo; as semelhanças e os signos romperam a sua antiga aliança; as similitudes desiludem, descambam em visão e delírio; as coisas permanecem obstinadamente na sua identidade irónica: já não são senão o que são; as palavras erram ao acaso, sem conteúdo, sem semelhanças que as preencham; já não marcam as coisas; dormem entre as folhas dos livros, no meio da poeira."
Michel Foucault reserva a esta decifração da errância do Quixote, tão estranha que só pode resultar de uma paranóia obsessiva, não mais de quatro páginas. As pistas que ele lança são estimulantes, sobretudo quando evoca a moderniddae do personagem e a originalidade da obra de Cervantes. Nomeadamente quando afirma: "D. Quixote é a primeira das obras modernas, pois nela se vê a razão cruel das identidades e das diferenças zombar incessantemente dos signos e das similitudes; pois a sua linguagem rompe a velha intimidade com as coisas, para entrar nessa soberania solitária de ser abrupto, donde só sairá convertida em literatura."

As Palavras e as Coisas - uma arqueologia das ciências humanas, Michel Foucault, edições 70, trad. António Ramos Rosa, Lisboa, 1988

A rota de Azorín nos campos de Castilla 

La ruta de Don Quijote de Azorín é um pequeno livrinho da CATEDRA, colecção de Letras Hispánicas. O meu exemplar ainda exibe o autocolante da FNAC do Callao, em Madrid, o "preço mínimo garantido" de 618 pts e a data de compra, 22 de Junho de 1994. Li-o agora, nestes últimos dias, para acompanhar a difícil, exigente e demorada leitura do Quijote na edição muito comentada (talvez demasiado) do académico cervantista Francisco Rodríguez Marín.
A rota de Don Quixote pelos áridos campos planos de Castilla la Mancha desde há muito desafiam a imaginação dos seus leitores. A oferta turística em torno da obra de Cervantes é considerável. Em 1905, quando Espanha se preparava para comemorar o III Centenário da publicação da primeira parte do Quixote, ainda no rescaldo dos acontecimentos de 98, que dariam nome à geração de que se reclamava o próprio Azorín, a realidade seria um pouco diferente. O cervantismo ortodoxo - representado por Rodriguez Marín, entre outros - dominava a cena intelectual.
Azorín, aliás José Martínez Ruiz, conta apenas 32 anos em 1905, quando o director do jornal El Imparcial, de grande influência na vida pública da altura, lhe encomenda uma série de artigos acerca da rota de D. Quixote pela Mancha. Não se tratava de repetir penosa e docilmente todo o percurso caprichoso do senhor Quijano pelos planos de Montiel e arredores, mas de ensaiar uma breve saída a partir de Argamasilla de Alba. O breve percurso de Azorín, numa releitura muito pessoal, inclui, para além de Argamasilla, que lhe serve de centro e apoio, El Toboso, Puerto Lápiche, el Camino de Ruidera, a Cueva de Montesinos, os moinhos de vento de Criptana e, naturalmente, uma paisagem humana desolada e ruinosa, preenchida por personagens que nos confirmam o perfil psicológico entre sonhador e impenetrável do tipo manchego.
Azorín erra por estes santuários perdidos e abandonados durante pouco mais de uma semana, numa visita breve, porque o director de El Imparcial reclamava a presença do jovem escritor anarquista na Andalucia, onde uma revolta de camponeses ameaçava incendiar aquela província. O resultado desta saída são 15 artigos de curta extensão, publicados ao ritmo da remessa do correio, enviados para Madrid do próprio lugar onde são escritos. Publicados em primeira página, à excepção de um, teriam saída em livro pouco tempo depois. Azorín cumpre um percurso estilizado, de pousada em pousada, escrevendo em "cuartillos" as impressões de viagem, ainda mal refeito do esforço e da exaustão de muitas horas no terreno. O que impressiona é a segurança e a nitidez do seu traço, da narrativa ao diálogo, vivamente impregnado do tempo, da profunda ausência que se sofre em Castilla, do silêncio da vida diária, da monotonia das formas. A escrita é muito ágil, marcada por diálogos muito vivos, e rapidamente nos damos conta de que Azorín nos poupará à minúcia costumbrista de outros autores do seu tempo. A rota de Azorín pode parecer pouco cervantina, pecado por que foi atacado pelo cervantismo ortodoxo. Mas a imagem que nos deixa, sobretudo da paisagem humana, dos académicos de Argamasilla, dos Sanchos de Criptana, da Xantipa, da fidalguia decadente, das moças castellanas, sempre tão misteriosas e refractárias à curiosidade do jovem escritor, é irrepetível. Vale a pena parar de seguir, por uns dias, a cansativa rota do Quixote e acompanhar Azorín nas suas saídas pelos Campos de Montiel.

As Olímpíadas de Coubertain e o podium americano 

"Qual é o sentido da comparação de resultados desportivos, ou outros, usando como critério a nacionalidade do atleta? Será descabida a expressão atleta do mundo num tempo em que se agitam bandeiras após feitos ímpares nas diversas áreas de actividade social?" - Foram as perguntas do autor do blogue Aragem, o Miguel Pinto, deixadas no último post do Knopfli. Aqui fica o meu comentário ao seu comentário. A requerer, obviamente, outro comentário...

O desporto de alto rendimento é a continuação da política externa de um país por outros meios. Tal como acontece sempre que um estado organiza e realiza um grande acontecimento de escala mundial - e não vejo que isso seja mau em si mesmo. Nesse sentido a subida ao podium de três atletas norte-americanos, nos 200 metros, esta noite, é uma ostentação do domínio de uma potência mundial através do atletismo - e não vejo que volta haverá a dar. As comparações no plano desportivo (gostamos especialmente de rankings) deslizam sempre, inevitavelmente, para o plano geo-político. Se não é assim, como interpreta a emergência da China também aqui, na luta pelas medalhas, como uma grande potência desportiva? Há um continuum de leitura de um plano a outro, é o que me parece.
Quanto à interpretação dos resultados a partir da nacionalidade do atleta: por um lado permite uma leitura fácil e estável (difícil seria ler os resultados em função da religião, da língua ou da cultura); por outro lado toda a "tecnologia" da preparação para as olimpíadas é paga e montada no terreno pelos países que patrocinam os atletas - quase sempre os países de origem, de nascimento dos próprios atletas. Logo... é natural que reclamem esse tipo de leitura dos resultados. Por isso o podium inteiramente americano nos 200 metros permite uma leitura evidente, como evidente, mas de sentido inverso, é a leitura da grande fragilidade da representação portuguesa. É fácil de perceber que um halterofilista Búlgaro adopte a nacionalidade turca, que um velocista nigeriano assuma a nacionalidade portuguesa (apesar de um vasto leque de outros países com melhores condições) ou que muitos atletas sonhem, pelo menos, em preparar a sua carreira nos Estados Unidos. O inverso é que seria bizarro.
Quanto à expressão atleta do mundo parece-me tão pertinente como a expressão "atleta de Pretória", de "Odivelas", de "Toulose" ou de "Baucau". Enquanto o desporto for encarado como uma modalidade das relações exteriores dos estados na cena internacional, as Olímpíadas de Coubertain serão assim e não uma competição idealista baseada numa concepção romântica da condição e da convivência humanas. Mas é o mundo que é assim, em primeiro lugar, não as Olimpíadas.

quinta-feira, agosto 26, 2004

"Não há em Portugal ninguém que se possa gabar de ser branco!" 

Falávamos das olimpíadas e puxei a conversa. Não é que nos entusiasme muito mas o Knopfli não deixa passar uma. Estranhava eu os pruridos e um debate de baixa intensidade que foi desencadeado pela medalha de prata de Obikuelo nas olimpíadas e pelas suas boas prestações. O homem a correr em Atenas, a correr febrilmente (quer dizer, com febre), a fazer um brilharete entre americanos e sei lá que mais, e em Portugal a levantar-se brandamente, timidamente quase, um debate sobre a identidade nacional. A blogosfera também repercutiu essas inquietações identitárias. Já não falo das hostes nacionalistas que facilmente dão o pior de si, irrelevantes, ressentidas e timoratas. Falo, por exemplo, do blogue do Francisco José Viegas, o Aviz, onde tenho lido algumas reflexões ponderadas e que dão um sentido à discussão. Mas nada disto interessa ao Knopfli. Ele está noutra e não resiste a entrar na discussão à sua maneira: "- O Lobato - e era um homem de direita - dizia: "Depois do século XVII, não há em Portugal ninguém que se possa gabar de ser branco!" Ia-se buscar o pretinho - não havia racismo, o racismo é uma invenção do século XIX, do mapa cor de rosa, desculpe que lhe diga, mas é. Não perceberam os intelectuais, ainda hoje: era um objecto de encantamento, esse pretinho, porque era um objecto diferente."
O Knopfli já me tinha vindo com esta no outro dia, que não vê a cor da pele. Ele próprio reconhece que é difícil perceber: "- As pessoas não percebem, não é possível explicar que a cor da pele, para o europeu que, deslumbrado, descobre um ser que é diferente, não tem para mim significado. Não vejo a cor da pele." E depois volta à carga, diz que é daltónico e eu gosto desta ideia tão fraterna: "- É essa mesma consciência, que lhe tenho estado a dar aqui, de me descobrir, depois dessa tal transparência em que não há cor, porque as cores são todas iguais e eu sou clour-blind, eu sou daltónico, em sentido racial." E depois saiu sem me dar tempo para responder. Mas que resposta poderia eu dar? Fiquei a pensar: se o Knopfli fosse às olimpíadas por que bandeira desfilaria, por que país escreveria os seus versos? Portugal? Moçambique? Ou levaria o seu fascínio pela poesia inglesa a ponto de mudar de camisola? Então não foi ele que me disse no outro dia, entre wiskies, que "sou um escritor português, sou, mas não posso recusar que Moçambique, da minha obra, se aproprie daquilo que entenda pertencer-lhe"? E pensando melhor, o que é que isto interessa? Que se lixe...

quarta-feira, agosto 25, 2004

paixão da educação 

É um projecto já com meses mas só agora lhe dei forma. Trata-se de um blog colectivo sobre educação, sobre o ensino e as aprendizagens, sobre a escola em geral e em particular. Chama-se paixão da educação e apresenta-se ainda como uma mera hipótese, como se pode comprovar facilmente pela visita ao sítio. Se tudo correr como espero teremos blog com publicação regular e diária a partir de 30 de setembro. Até lá estou "em negociações" e a fazer experiências para encontrar o formato mais adequado. Agradeço sugestões. Mais notícias aqui e no sítio.

Indícios do fim do Verão 



"Agosto, está-se a acabar..."

Há poucos anos (mas sempre mais alguns do que começamos timidamente por calcular) a RTP abriu o mês de Agosto com um filme de culto realizado por Jorge Silva Melo, com data de 1988. É uma produção franco/ portuguesa com a duração de 97 minutos, assinada por Patrick Saudain e Paulo Branco. O argumento é de Jorge Silva Melo e de Philippe Arnaud. A música é de José Mário Branco. Alexandra Lencastre dá a voz à personagem Alda, e João Pedro Gomes ao personagem Carlos. Christian Patey, Ana Bustorff, Diogo Dória, Glicínia Quartin, Isabel Ruth, Rita Blanco, Vítor Norte e Egito Gonçalves, entre muitos outros, constituem um extenso elenco de personagens que gravitam em torno do mês de Agosto e das suas promessas de plenitude. O filme chama-se Agosto e as primeiras imagens são acompanhadas por um tema em que uma voz nos segreda "Agosto está-se a acabar..." Este tema marca o ritmo do filme que é uma adaptação de um conto do italiano Cesare Pavese. Enquanto decorre, muito longe, a guerra de África, Carlos, um violoncelista, passa as férias de verão, na praia, com um grupo de amigos. Tudo parece distante, o mundo parece uma coisa remota e sem importância. Só restam para dar alguma realidade aos nossos gestos os rituais da amizade e da solidão. Ficam deste filme o azul do mar e a sombra interior dos quartos e uma palpitação que parece notificar-nos de que todos os meses têm um fim. Mas nenhum fim é tão funesto e tão melancólico como o fim de Agosto. Nesse ano (já não sei quando) a RTP passou o filme que nos lembra que Agosto já está a terminar.... no dia 1 de Agosto.
Na altura pareceu-me um requinte de mau gosto, hoje já não penso assim. Mas Agosto representa para mim - como provavelmente para muitos de nós - um mês em que ainda não desisti de encontar uma espécie de eternidade. A palavra é solene, como tudo o que perdura para além de nós, simplesmente não encontro outra. Chega o mês de Agosto e imagino que vou ficar parado no meio do Verão. Agosto é o mês mais indicado para adiar o que não nos apetece, porque parece eterno. É o mês em que podemos imaginar, sem dano, que todos os pequenos prazeres nos darão uma ilimitada felicidade. A marcha dos dias, quando levamos Agosto a sério, não nos afecta, porque imaginamos que ela não muda nada de essencial no tempo que nos foi dado viver em pleno Verão. Um tempo pleno e cheio, sem condições, onde cada gesto finalmente parece liberto de uma ruinosa economia de sobrevivência que nos tolhe durante o resto do ano. Um mês em que nada do que faço ou imagino terá consequências porque é um mês consagrado à ficção de toda a realidade. Assim é o mês de Agosto para quem crê e eu creio todos os anos que será assim.

Mas há indícios do fim do Verão, do fim de Agosto. Aprendemos a lê-los com o tempo, contravontade. O tempo vulgar, esse inimigo do mês de Agosto, essa inconveniência que nos vem lembrar que existe precisamente quando imaginamos que quase somos felizes. Há muitos indícios.
Os nossos gestos e os nossos pensamentos começam por ganhar um peso, uma gravidade, que antes não tinham. Um clic acontece em nós e estão à vista os dias de outro mês, as datas de outro calendário. A pele reage mais à temperatura ambiente, digamos que na defensiva. O tempo muda e isso é fatal. Ouvimos aqui e ali algumas palavras que não são do Verão. Pertencem a outro mês, ao seguinte. Agosto esboroa-se, fica irreconhecível. Não podemos fazer nada a não ser resignarmo-nos e esperar cá muito no fundo, apesar de, a partir de então, parecermos sempre muito ocupados.
Outro indício do fim do Verão e do fim de Agosto é, naturalmente, este post. Mas ainda faltam 6 dias...

segunda-feira, agosto 23, 2004

"Somos já só memória!" 

Mais de metade das crianças japonesas em idade escolar não viram ainda o põr-do-sol nem o nascer do sol. Diz o The Guardian, interpretando um inquérito que realizou entre 900 crianças desse país. O que é a infância sem estas coisas que nunca se esquecem? Afinal, nas palavras definitivas de um poeta inglês ("a melhor poesia do mundo") não é verdade que "a criança é o pai do homem"? Estava eu nestes pensamentos quando chegou o Knopfli à mesa do café de onde frequentemente vejo o sol a declinar por entre as empenas dos prédios de design suburbano. Vinha talvez a pensar no mesmo. Na infância e na literatura que se faz depois, com a infância às costas. "- Porque o mundo da infância - como você sabe - prevalece nos meus livros." Não duvido, é o autor das suas obras quem o diz. Os extremos tocam-se. Quanto mais velhos mais nos agarramos ao que ficou da infância muitas vezes evocada. O lugar das recordações da infância não regride, não diminui, ao contrário disso, parece que aumenta. Diz-me ele, visivelmente entusiasmado: "- O problema linguístico é curioso. Não sei se é da idade - você sabe que é um processo estar-me a lembrar disto... Se calhar, se você tivesse vindo há dez anos falar comigo sobre isto, nada me acudiria à memória... mas a memória dos velhos acorre à infância! Dizem-me os meus pais que eu, em miúdo, falava - não digo fluentemente -, mas que me entendia perfeitamente à vontade com eles."
A memória é, frequentemente, o sítio onde nos sentimos melhor. O único problema é que o excesso de memória quase sempre nos brinda com algo de melancolia. Enfim. Remata o Knopfli, hoje parco em palavras: "- Embora estejamos vivos, somos já só memória."

domingo, agosto 22, 2004

Roubaram o Grito 

Roubaram o Grito de Edvard Munch. Foi retirado do Museu norueguês por um grupo de ladrões armados. Voltará a aparecer em breve porque não é possível guardar por muito tempo uma obra prima tão estridente.
Leio no Público uma nota sobre o famoso quadro de Munch com um texto breve (que já conhecia) onde se explica (?) o grito do Grito. O quadro é de 1893, a explicação é, naturalmente, posterior: "Estava a passear cá fora com dois amigos, e o sol começava a pôr-se - de repente, o céu ficou vermelho, cor de sangue. Parei, sentia-me exausto e apoiei-me a uma cerca - havia sangue e linhas de fogo por cima do fiorde azul-escuro e da cidade -, os meus amigos continuaram a andar e eu ali fiquei, de pé, a tremer de medo - e senti um grito infindável a atravessar a natureza."

Espírito olímpico 

O meu maior sonho era ter corrido a maratona, ser um maratonista de trazer por casa, porque para mais não daria. Nunca corri a distância mas durante um certo período de tempo obedeci diariamente aos planos de treino de um actual treinador olímpico, ex-atleta consagrado. Foi o mais perto que estive das olimpíadas, não contando com as longas horas de televisão das transmissões de atletismo (corridas de fundo e meio-fundo), da canoagem, da ginástica e de um pouco de tudo o resto. Acordei para o espírito olímpico televisivo com as olimpíadas de Montreal, se não me engano. Ainda me lembro do hino dos jogos em francês. Hoje sigo as imagens das provas com menos interesse (cortei entretanto afectivamente com o atletismo), talvez à excepção da maratona que continua a seduzir-me misteriosamente. É a prova, pela desproporção do esforço exigido, onde os homens mais se confundem com os deuses. E um maratonista é sempre uma criatura obcecada. Basta ver a máscara de esforço e determinação e tudo para cruzar uma linha de meta.
O Nelson Évora e o treinador, João Ganço, tiveram a sua manhã olímpica. Mas o Nelson não conseguiu qualificar-se para o concurso do triplo salto. É preciso ver que o rapaz há um ano ainda andava fora da alta roda do atletismo mundial... Não os vi, andei a fazer a minha ronda clínica nessa manhã. Espero por eles nas próximas olimpíadas, em 2008. Nem sei onde.

sábado, agosto 21, 2004

Vítimas da ideologia 

Uns dizem que negar a ideologia é ainda uma atitude ideológica e de direita. Outros não pensam sem chavões ideológicos excessivamente óbvios, notam-se à distância. A ideologia é uma inversão espelhar da realidade, uma mundividência truncada por limites de representação a que nos acomodamos. Há quem pense assim. O Knopfli não se conforma. Chega e dispara, como quem estivesse uma hora à espera de oportunidade: "- As pessoas são vítimas da ideologia, tolhem a sua grandeza." Não me atrevo a replicar, tal é a fundura das suas convicções e a luminosidade com que faz estas afirmações. Parecem blagues que disputam com os goles de wiskie para sair cá para fora. Mas não. Knopfli não recua perante uma boa discussão, eu sei. Aliás, a quem o ouve hoje, parece que andava sempre a discutir com toda a gente quando era mais novo. É um homem livre, um poeta sem dono: "- Eu nunca fui discípulo de ninguém, de maneira que as nossas pegas vinham daí."

Cenas da vida privada em Mérida 



Está a terminar (mais um indício do fim do Verão) o Festival de Teatro de Mérida, que tem lugar naquela cidade extremenha durante os meses de Julho e Agosto. Para mim tem sido apenas um festival à distância, a curta distância. O festival tem o seu modelo. Durante cerca de dois meses sucedem-se os espetáculos de teatro e ballet, que ficam em cena durante alguns dias, até serem substituídos pelo seguinte. Não é, portanto, um festival para estar, mas um festival a que se vai e volta, apesar de um programa de actividades paralelas para fixar público. Na quinta-feira, 19 de Agosto, estreou o último espetáculo do festival - a "Orestiada", com direcção de Mario Gas - que terá uma primeira carreira até ao próximo dia 22, domingo (amanhã) e uma segunda entre 26 e 29 de Agosto.
A "Orestiada" teve a estreia com mais público desta Lª edição do festival, registando um total de 2 189 espectadores. A organização rejubila com a qualidade do programa e eleva o acontecimento às alturas dos grandes festivais de Edimburgo e de Avignon. Este ano passaram por Mérida 6 grandes montagens teatrais (à excepção da apresentação de Dario Fo, concerteza), um espetáculo de dança e um espetáculo de ópera. Para além, naturalmente de exposições e outras actividades complementares. "Yo, Claudio", a abrir logo no início de Julho, "Medea, la extranjera", "Proserpina. Perséfone en Mérida", "Prometeo, del fuego a la luz" e a "Orestiada", constituiram a substância do festival. A 28 de julho teve lugar a entrega do Premio "Scaena" a Dario Fo e a Franca Rame, seguida da peça "Rosa fresca altísima y otras juglarías" com os dois artistas.
Entre 12 e 14 de Agosto subiu ao palco do teatro romano "La clemenza di Tito", uma ópera de Wolfgang Amadeus Mozart, protagonizada pelo Helikon Opera Theatre e com direcção de Dmitry A. Bertman.
A 6 e 7 de julho foi a vez do espetáculo de dança "El sueño de una noche de verano" da Companhia Nacional de Dança de Portugal.


Anfitrión de Plauto, con Rafael Alvarez "el Brujo" (1996)

Há 8 festivais atrás - em Agosto de 1996 - reservámos por telefone bilhetes para duas grandes produções. "Anfitrião" de Plauto e "Romeu e Julieta". Entre uma e outra andámos por Cáceres e Trujillo, planeando mais uma fuga a Sevilla que não se viria a concretizar. O Miguel ainda não tinha um ano e provavelmente acreditava que os efeitos especiais da peça de Plauto eram tão terríveis como pareciam. O teatro romano estava cheio na estreia e a expectativa era máxima. Rafael Alvarez "el brujo" desceu as escadas, passando junto de mim, e foi como se um deus tivesse descido áquela cidade romana, numa agradável noite de Verão. O artista exercia, então, tal influência no seu público, que durante toda a representação me senti (também eu, tal como os outros) mergulhado num estado de intensa felicidade, suspenso das suas palavras, dos seus gestos, dos esgares. Anfitrião é uma obra singular, entre tragédia e comédia, elevando ao mais alto grau as qualidades da comédia de enganos. Rafael Alvarez tornou-a ainda mais dramática, mais trágica, mais paródica, densificou-a até à vertigem dos equívocos da identidade. Para mim foi uma representação simplesmente histórica, para a história do festival que cumpriu este ano a 50ª edição, não sei.

Veio tudo isto a propósito (?) de um escândalo que faz o seu curso na opinião venal da cidade extremenha. Li ontem no jornal uma notícia que me deixou em choque. Nem vale a pena perder muito tempo... que o post já vai longo. Espalharam-se pela cidade, depois pelos cafés, de mão em mão, depois de chegarem à internet, umas fotos muito comprometedoras de uma figura pública local. Fotos explícitas, está tudo dito. Parece que a vereadora do Tesouro e Turismo do Ayuntamiento de Mérida (nas mãos do PP) aparece nas tais fotos "explícitas" com uma "popular apresentadora da televião local", a TeleMérida. Sabemos que as fantasias lésbicas são um must do imaginário masculino, o que é circunstancialmente confirmado pelo facto das fotos terem sido feitas por uma figura masculina presente nos cenários, ocasionalmente participante. As fotos foram roubadas de um computador do irmão do presidente e divulgadas amplamente, prenunciando uma verdadeira batalha partidária na cidade. Para quem não gosta de teatro clássico, com o seu cortejo de deuses adúlteros e venais, nada melhor do que um bom drama envolvendo a devassa da vida íntima de dois ou três humanos desocupados. Vivemos um tempo de moralidade e de virtudes públicas verdadeiramente difícies de suportar. Não parece uma tragédia... mas é. Qualquer dia ainda proibem a pornografia...

sexta-feira, agosto 20, 2004

"Um caracol com travões" 

Chegou com o riso a despontar, passe a imagem de gosto duvidoso. Vinha com vontade de se meter, de contar uma anedota. Lembrou-se da Jangada de Pedra do Saramago e arremeteu sem piedade: "- Para já, não tenho jangadas de pedra - vão ao fundo! E se realmente a intenção de metáfora dele é essa: é a metáfora mais desgraçada para título..., mais pesada ou, como dizia ali aquele meu ilustre amigo: você sabe qual é o símbolo da tecnologia adoptado no Alentejo? É um caracol com travões: A jangada de pedra é um caracol com travões!"
Ficámos assim. Depois veio a questão da poesia e da originalidade. Vivia obcecado. Alguns poemas de Knopfli tratam por tu essa questão da influência e da originalidade do poeta. Contou-me uma história com o Eugénio Lisboa, de que foi muito próximo, envolvendo outros amigos; o Kavafi, o Steiner, o Apolo e Mársias... Nem queria acreditar: "- Foi esfolado, como você diz e muito bem! E porque é que foi esfolado? Porque o Apolo, como era deus: agora vira a flauta ao contrário e toca no cu! E o Mársias não conseguia tocar no cu: aquilo não sopra de fora para dentro - sopra de dentro para fora! E o Apolo tocou. Esfolou o gajo e amarrou o gajo à árvore. Porquê? Porque o poeta desafia os deuses. Eh pá, isto ficou cá em cultura - como quando um gajo pôs os micróbios em cultura -, a germinar, a sedimentar, e um dia eu escrevi aquele poema. E, quando estava a preparar as provas do livro, mostrei ao Lisboa. Sei perfeitamente o que está roubado ao Kavafi, etc. E diz o Lisboa, o gajo é um leitor afinadíssimo: "- Você esteve a ler o Steiner ultimamente? - Não. Anda sempre comigo, mas não li... - Mas, porra! Isto não tem a ver com o Language and Silence?" Eu cheguei a casa e... "Eh pá! Isto é copiado do gajo!" Diz o Lisboa: "Ainda bem, porra, deixe estar..." Há frases quase iguais!..."
Era, claramente, um nominalista. Evitava as generalizações, que como alguém disse uma vez são sinal de hipocrisia ou de bajulação. Antes de sair ainda deixou uma advertência: "- Eu é mais humilde do que dizer nós, ou falar em nome da humanidade."

quinta-feira, agosto 19, 2004

Palavras Andarilhas "de passagem" por Beja 

São três dias inteiros de histórias, de leituras e de descobertas. Chama-se "Palavras Andarilhas - Encontro de Aprendizes do Contar", realiza-se entre 23 e 25 de Setembro em Beja e reune desde 1999 largas dezenas de pessoas interessadas na leitura, no trabalho da palavra falada, dita e escrita. O encontro, que é promovido pela dinâmica Biblioteca Municipal de Beja e pela Associação de Defesa do Património Cultural da Região de Beja, procura reunir todos os que trabalham com a palavra e com os livros - bibliotecários, técnicos adjuntos de bibliotecas, contadores, animadores, agentes educativos e pais, criar estratégias para a criação de novos leitores, valorizar a tradição oral enquanto expressão da memória e da cultura de um povo, acentuar o papel do prazer do leitor na relação com o livro e com a leitura (do programa).
Segundo a organização o encontro do ano passado envolveu mais de 200 participantes, tendo contado a iniciativa paralela que é desencadeada durante estes dias - a estafeta de contos - com a participação de 60 bibliotecas portuguesas. Nas palavras de Cristina Taquelim, da organização do evento, "de ano para ano temos tentado que a programação induza novas práticas no quotidiano de todos aqueles que trabalham com a palavra, facilitando a troca de saberes e experiências e criando um espaço de reflexão sobre a promoção da leitura e narração no seio das mesmas."
O Programa é extenso mas deixo-o aqui para consulta. É como segue:

PROGRAMA
(Cartaz do ano anterior)

23 de Setembro - "Formação de Leitores"
10.00h- Sessão de abertura
10.30h- LANÇAMENTO DA ESTAFETA - com Luzia do Rosário, Cristina Taquelim e Manolo Patón
11.00h- "O que guardo na caixinha" - Maurício Leite (Brasil)
12.00h- "... ajuda-me a olhar!" - conversas à roda do lume com Maurício Leite e Cristina Taquelim.

15.00H/ 17.00H - OFICINAS

18.00h- "2 Olhares sobre a leitura" - conversas à volta da mesa com Xavier Puente DoCampo (Espanha) e Ana Cristina Silva (Portugal).
19.30h- "Palavras com ternura dentro" - um abraço a Maria Rosa Colaço por Ana Margarida Ramos, Horácio Santos, Cristina Taquelim e Fátima Silva.
20.30h- Jantar colectivo (mediante inscrição e pagamento prévio)
23.00h- "Auto da Criação do Mundo" - Bonecos de Santo Aleixo pelo Centro Dramático de Évora
24.00h- Noite dos Andarilhos.

24 de Setembro - "Conto Tradicional"
11.00h- "... se não me falha a memória..." - conversas à porta de casa com António Caeiro, José Craveiro, Ana Santos (Portugal).

15.00H/ 17.00H - OFICINAS

18.00h- "Ecos e memória" - conversas na cave com José Manuel Pedrosa - (Espanha) e João David Pinto Correia - ( Portugal)
19.30h- Apresentação do Livro "Do Fruto à Raiz" de Fátima Medeiros.

Festival de Narração - 24 de Setembro
"Eu conto para que tu Sonhes"


22.00h- Ana Santos (Portugal), Marina Colassanti (Brasil), Horácio Santos (Cabo Verde)
23.00h- Paula Carballeira (Espanha), Luís Carmelo (Portugal)
24.00h- Piratas de Alexandria (Espanha)

25 de Setembro - "Conto de Autor"
11.00h- "Conto como conto" - Carles Garcia Domingos (Espanha)
12.00h- "Contares e recontares" - conversas ao fumeiro com Carles Garcia Domingos (Espanha) e António Fontinha (Portugal)

15.00H/ 17.00H– OFICINAS

18.00h- "O lugar onde moram as palavras" - conversas de sala entre Marina Colassanti (Brasil) e José Jorge Letria (Portugal)
19.30h- Apresentação do livro "Um Espinho de Marfim e outras histórias" de Marina Colassanti- ed. Figueirinhas.

Festival de Narração- 25 de Setembro
"Eu conto para que tu Sonhes"


22.00h- José Craveiro (Portugal), Bia Quintela (Brasil)
23.00h- Carlos Garcia Domingos (Espanha), António Fontinha (Portugal)
24.00h- Novelo de Contos... um magnífico segredo!

OFICINAS- 15.00H/ 17.00H (inscrições no próprio dia - secretariado do encontro)
O Contador de Histórias - 24 de Setembro
"O mito, o conto e a lenda como géneros literários" - José Manuel Pedrosa - 25 de Setembro
"Da leitura à construção de sentido nos contos de Hans Cristian Andersen" - Fátima Medeiros - 25 de Setembro
Miguel Horta - 23, 24 , 25 de Setembro
"Os caminhos das histórias" - Paula Carballeira - 23 e 25 de Setembro
Piratas de Alexandria - 23, 24, 25 de Setembro
Carlos Garcia Domingos - 23 e 24 de Setembro
Ana Margarida Ramos - 23, 24 de Setembro
"Literatura Infantil & Midia" - Maurício Leite - 24 e 25 de Setembro
Leopoldina Almeida - 23, 24, 25 de Setembro
Xavier Puente Docampo - 23 de Setembro
Teresa Meireles - 23, 24, 25 de Setembro

ACTIVIDADES PARALELAS (23/ 24/ 25 de Setembro)

"Páginas Ilustradas" - exposição de originais de Teresa Lima e André Letria

O Pátio dos Contos - espaço de conversa e divulgação de livros.

Mercado do Livro

Manolo Patón - Titereiro - intervenções com titeres ao longo do encontro.

"Era uma vez... nas EB2,3" - Sessões de contos nas Bibliotecas escolares das Escolas EB2,3 do Concelho.
23 e 24 de Setembro- (António Fontinha/ Horácio Santos) ( Nuno Coelho/ José Craveiro ) (Luís Carmelo/ Patricia Pereira) ( António Fontinha/ Horácio Santos) (Patricia Amaral/ O contador de Histórias) ( Helena Faria/ José Craveiro)

"Contos sem parar" - Sessões de contos nas traseiras da BMB - das 10.00h às 17.00h - dirigido a grupo escolares e sujeito a marcação - através do Centro de Recursos Pedagógicos - Telf: 284 311 900

23 de Setembro - Helena Faria/ O Contador de Histórias/ Patrícia Amaral/ Patrícia Pereira/ Nuno Coelho/ Luís Carmelo/ O Contador de Histórias

24 de Setembro - Luís Carmelo/ Nuno Coelho/ Ana Santos/ Patrícia Pereira/ Patrícia Amaral/ Helena Faria

"Os Papa Contos" - Sessões de contos para pais e filhos nas traseiras da BMB.
23 de Setembro- 18.30h - O contador de Histórias
24 de Setembro- 18.30h - Bia Quintela
25 de Setembro- 17.00h/ 19.00h - Manolo Patón/ Maurício Leite/ Paula Carballeira

Inscrições
Valor da inscrição- 40 €; Nº limite de inscritos- 200
Prazo limite de inscrição e pagamento- 10 de Setembro
Forma da pagamento- cheque emitido à ordem de: Associação de Defesa do Património Cultural da Região de Beja, nº contribuinte 502054808
Endereço para envio das inscrições e pagamento: Biblioteca Municipal de Beja - Centro de Recursos Pedagógicos
Rua Luis de Camões, 7800-508 Beja
Técnicos a contactar: Cristina Taquelim, Jorge Serafim, Fernanda Silva
palavrasandarilhasbmbeja@hotmail.com

quarta-feira, agosto 18, 2004

"A Noémia foi esbofeteada " 

Estive quase duas semanas a antecipar o prazer de estar distraído, ou de fingir que estou distraído, como um agente duplo, a uma mesa do Rafael. Do café que se vê aqui de casa. Esperei esse momento como um regresso, foi um regresso ao vento. Lá veio de novo o Knopfli com as suas coisas. Vinha com a ideia da África do Sul: "- Sim, era o vestígio da democracia parlamentar... E porque havia uma coisa chamada Randam books e outra chamada Vanguard booksellers, onde você encontrava autores marxistas." Apesar de tudo era a África do Sul, ao pé de um Portugal tristinho e saloio. "Porque a África do Sul conservava, e conservou sempre, uma herança tipicamente britânica que é a do parlamentarismo; de maneira que havia umas certas liberdades formais que tinham que ser concedidas." Fala desse tempo com gosto, com visível nostalgia. E depois a poesia inglesa, que é a melhor do mundo... Eu não posso formalmente concordar mas aceito a sentença definitiva. É o Knopfli que diz: "- É que a poesia inglesa - como dizia um cronista brasileiro, é como uma rosa esquisita que desabrocha nas entranhas da noite."
Depois falou dos tempos em que foi incomodado, em que chegou a ser detido pela polícia política, por ninharias. O humor de Knopfli mudou bruscamente. Lembrou-se de uma vez em que foram surpreendidos, ele e os amigos, numa actividade clandestina. Comoveu-se com a recordação. Já me contou a história muitas vezes, mas nota-se que o marcou para sempre e por isso repete-a frequentemente: "A Noémia foi esbofeteada ao pé de mim e eu não fui, porque era branco - e isso também marca, OK?"
Depois voltou a rir quando me falou do Eduardo Lourenço (deve ter tido algum problema com ele quando era mais novo). Ainda parecia divertido quando se levantou e saiu: "Eu estou pronto a que me acusem de ser – como aliás, e muito bem, disse o Lourenço, que eu era - "um excelente poeta do nosso ex-império, das suas contradições e perplexidades..."

Viciado em anestesias 

O sono é a antecâmara da morte, na dramática e perturbadora fórmula latina. O sono anestésico é a doce experiência química da morte breve, de que se regressa sempre que é o caso. Entra-se no bloco como quem se submete a uma experiência de limites, mas entra-se serenamente, porque cremos que merecemos aquele momento. À nossa volta, trocando uma linguagem incompreensível com vocábulos que designam provavelmente agentes químicos que em breve nos percorrerão o corpo até agir no cérebro, oficiam algumas vagas presenças. Há um momento para esquecer tudo, em que falamos de nós e rimos com gosto como se a conversa fosse durar a noite toda. Depois sentimos os primeiros sinais de abandono. Primeiro parecem-se com o deslizamento provocado pela desatenção, um ligeiro alívio da realidade. Começa a deriva. Por vezes sentimos náuseas, nas piores experiências, como quem hesita a queda. Nas melhores sentimos que caminhamos em direcção a um lugar rodeado de ar por todos os lados, pleno de ar, onde nada nos detém mas onde também nada nos pode tocar. O corpo esquece-se e por um momento concentramo-nos na nossa própria respiração como a única evidência física, como uma voz que nos fala. É a promessa de que nada correrá mal. Então já tudo está longe, como se olhássemos para outro lado, longe da realidade, ainda ouvimos vozes mas já não há resposta possível. Não há propriamente um durante. O prazer e a experiência dessa 'petit mort' já acabou. Durou segundos, ao contrário da morte a sério que vale para sempre, segundo consta. Depois acordamos para contar.

quinta-feira, agosto 05, 2004

Todos ao Coliseu 

O programa passou no canal 1 na noite de segunda-feira. Apanhei-o enquanto fazia o meu zapping diário (outros farão jogging) mas vi praticamente tudo. Uma homenagem a José Afonso, no dia (presumo) em que faria 75 anos se fosse vivo. Morreu há vinte anos ou perto disso; recebi a notícia quando estava mergulhado na escrita penosa de mais um trabalho para a faculdade. À mão, como eu fazia na altura, antes de o passar à letra redonda da Oliveti. Mas é outra história.
O programa - JOSÉ AFONSO AO VIVO NO COLISEU - é um espetáculo gravado a 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Seria o seu último espetáculo e também o primeiro em muitos anos na capital. Foi um acontecimento na altura.
Convenci os meus amigos a ir ao concerto, o Branco e o Rui. Passei pelas bilheteiras com antecedência mas os bilhetes esgotaram num instante e noutros muitos postos de venda. Nada feito. Resolvemos então tentar a sorte. No dia do espetáculo fomos para a entrada dos artistas e convidados, ao fim de uma rampa de paralelepípedos, onde já se encontravam dezenas de borlistas ou de infelizes como nós. A polícia, do outro lado do portão, não dava hipótese. Alguns mais atrevidos pediam para deixar entrar. Mas só entravam os convidados, furando por entre uma pequena multidão, à frente da qual nos encontravamos. O portão de ferro agitava-se sempre que o entusiasmo subia de nível, mas nada mais. Ouvimos um longo aplauso vindo do interior da sala, a anunciar o início do espetáculo, a entrada em palco de José Afonso. A multidão agitou-se nervosamente. Minutos depois, muito poucos, o portão foi aberto de novo para dar entrada a mais convidados e aí alguém tratou de o travar ao mesmo tempo que eramos atirados contra a polícia, empurrado por dezenas de pessoas. Não havia nada a fazer, a tímida resistência policial deu de si e lá entrámos todos (ou a maior parte, até que foi possível travar de novo a corrente). Lembro-me de estar ali, entre gente atónita como eu e com o objectivo de entrar no Coliseu a todo o custo. Mas entre nós e a sala havia uma alta porta de madeira fechada. Dava de si mas não abria para dar passagem. Até que o Branco se lembrou de meter a mão por dentro, aproveitando a folga, e procurar um ferrolho. Puxou e a porta abriu-se num ápice. Entrámos de rompante e em segundos estávamos no interior da sala, numa das entradas periféricas, aquela que se situa precisamente de frente para o palco. Parecia um milagre. Aí ficámos os três a ver o espetáculo. Acho que me vi no programa, lá muito ao fundo, mas isso é improvável e pode não passar de fantasia. Ainda ouvimos José Afonso a cantar o fado de Coimbra: "Águas do rio correndo..."

O Knopfli seguinte 

De novo à conversa com o escritor na esplanada. Knopfli veio com uma história espantosa de uns italianos que apareceram lá em casa: "- Depois deste italiano já encontrei mais cinco! Só digo aos gajos: "Ah! I knew your father!" Os gajos arrancam... Mas comprei, da primeira vez..., à minha custa! Os gajos são sensacionais, os truques são sensacionais. Será máfia? O último era assim: "Vous parlez français?" E, com um mapa na mão: "- Pouvez-vous me dire où est King’s Road? –Vais por aqui, vais por ali... " Então o gajo vem-me com a história e eu disse-lhe: "Come on! Je connais déjà cette histoire... – Ah! Vous connaissez?" Arrancou e, em vez de ir para King’s Road, virou à esquerda para apanhar o Knopfli seguinte! Nem se deu ao trabalho de disfarçar – está farto de conhecer, conhece Londres melhor do que eu!"
Depois a conversa derivou para a poesia que se faz, para a obscuridade procurada por alguns poetas do nosso tempo, enfim do tempo dele que também é o nosso. E o Knopfli não tem papas na língua quando fala dos contemporêneos. Sobretudo desses. "- Ou é um grande poema ou não é. E pode ser um grande poema veiculado por uma indignação de carácter social. Mas tem que ser um grande poema, porque só a indignação de carácter social não chega para fazer um grande poema, não é? Eu estou convencido que o melhor da nossa poesia - nossa, não é portuguesa, é ocidental! – é obra daquilo que, em português, se chama a dor de corno! Você percebe isto, não é? É o amor desapontado, traído, a jalousie, não sei que mais. E em matéria de arte, a discriminação racial, a ofensa, é uma espécie de dor de corno."
Nem o "pobre" do José Gomes Ferreira, que Knopfli aprecia como pessoa, escapou. E vendo bem, nem eu que sou um leitor benévolo me deixo arrebatar por aquela poesia tão cheia de boas intenções e metáforas intensas. Tudo demasiado correcto, para não dizer politicamente... Mas cada época escolhe os seus poetas-bandeira, o seu temário. Dizia o Knopfli: "(...) poemas sobre a fome e a miséria: lembro-me perfeitamente quando se batia num poema bacocamente ridículo desse excelente ser humano, mas paupérrimo poeta que é o José Gomes Ferreira, que é: "sofro noite/ não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas (...)", e que depois vem falar na velhinha miserável que sofre a metafísica da fome nos degraus da soleira da porta... Porra! E o violino na lama... Coitado do marrequinho da esquina a vender cautelas! Só em Portugal é que se consegue que esta poesia seja alcandorada às asas da fama!"
Mas foi e a intensidade humana do poeta, a sua magnífica imagem romântica (lembro-me do José Carlos de Vasconcelos elogiar frequentemente a sua "bela cabeça") chegou e sobrou para fazer o prestígio da sua poesia. O problema, dizia o Knopfli é o pessoal ser muito literal: " - Quando o Diderot disse: "Poetas, sede obscuros...", os gajos perceberam que o gajo estava a dizer: sejam opacos, ninguém vos entenda... De maneira que desataram a escrever palavras."
Fez-me lembrar o Herberto Helder num texto dos "Passos em Volta da Poesia" .

terça-feira, agosto 03, 2004

Impasses - It´s hard to live in interesting times 

Impasses seguido de Coisas Vistas, Coisas Ouvidas, Fernando Gil, Paulo Tunhas e Danièle Cohn, Publicações EUROPA-AMÉRICA, 2ª Edição de 2003, Biblioteca das Ideias

Trata-se do livro Impasses, escrito por dois filósofos, e relativamente ignorado pela imprensa que tem mais que fazer do que pensar. O livro, de que já li o diário de Danièle Cohn que encerra o volume, e que já comentei aqui há dias, levanta imensas questões. Deixarei as minhas reflexões para outros posts. Para já, enquanto avanço pela leitura (terminei há minutos o segundo capítulo), deixo aqui um excerto de uma entrevista de José Gabriel Viegas a Fernando Gil para a revista "Actual" do Expresso, quando do lançamento do livro. Encontrei-o no largo do rato, a cujo autor agradeço desde já... pela pilhagem.

- Logo na primeira linha do livro diz-se que Impasses teria sido escrito "sem prazer". Porquê?

- É por certo um livro triste, que traduz uma decepção. Não provoca alegria intelectual analisar uma colecção de diferendos sem solução visível. Em geral escreve-se para mostrar que há escolhas e aberturas, cada livro de ideias é suposto trazer alguma coisa nova. Aqui tudo parece fechado. Dizemos também nesse prefácio que ficaríamos aliviados se as nossas conjecturas estivessem erradas. Pois, se o não estão, a situação que descrevemos é então pelo menos problemática. Tentamos mostrar - com muitos outros – que o Ocidente, conceito que tem um sentido que definimos explicitamente, é alvo de uma "jihad" global actuando em muitas frentes, da finança internacional ao terrorismo. Os seus agentes são inúmeros e diversificados – Al-Qaeda é só o mais importante – e dispõe de uma reserva potencial de milhões de pessoas. Ora, o Ocidente está dividido face a ele, e não parece saber o que quer: em primeiro lugar porque muitos governantes e intelectuais não admitem sequer a existência de um ataque, preferindo crer que uma política de bons ofícios conseguirá conter meros "riscos" sem realidade duradoura. Quer-se acreditar que só os Estados Unidos e os seus aliados correm verdadeiro perigo e que no fundo a prioridade consiste em deles nos dissociarmos. A comparação com a atitude da Europa em relação a Hitler impõe-se por si mesma. O ressurgir, que se acelera, do anti-semitismo lembra também a Europa dos anos 30. O Ocidente está também dividido dentro de si próprio: não é ainda motivo de alegria um leque de opiniões, da extrema-esquerda à direita fascista – Haider, Le Pen, etc. – com a sanha anti-americana por denominador comum. É um dos temas de Impasses, a propósito da guerra do Iraque. Escolhemos tratá-lo num modo irónico. Mas a falsificação despudorada dos factos, o insulto e a desqualificação automática de quem pensa diferentemente, a precipitação dos juízos – sempre no mesmo sentido – as argumentações e as previsões delirantes, a vontade de crer no que conforta e de ignorar o que não convém – nada disto, de que damos dúzias de exemplos, dá vontade de rir. Porquê tal e tanta "má-fé"? Não estamos certos de ter sabido responder. O conceito de má-fé e a sua "viscosidade", que Sartre determinou admiravelmente, é o nosso principal instrumento crítico. Essa má-fé é sobretudo europeia e sul-americana – Não falando do mundo árabe e muçulmano. Comparem-se os nossos "media" com jornais como o New York Times ou o International Herald Tribune , ambos hostis à administração americana e exprimindo muitas objecções à condução da guerra do Iraque. Só excepcionalmente se encontrará neles deformação dos factos ou menosprezo pelas pessoas. É possível defender uma posição sem sobranceria, discordar sem amesquinhar, criticar sem troçar e pretender intimidar.

- O modo como questionam os chamados pensamentos únicos, quanto ao anti-americanismo, o anti-sionismo, o islamismo é bastante vivo...

- Tudo isso "faz sistema" – é o que mostramos, desculpe remetê-lo para o livro, que se lê depressa. Não seria capaz de o resumir aqui. Tentámos descobrir o que subjaz aos comportamentos, assinalar a cegueira voluntária e as posturas da boa consciência que não são outras do que as da má-fé.O livro não é de polémica mas toma partido pelo Ocidente e particularmente pelos Estados Unidos e por Israel. Mas isso não nos impede, claro está, de fazer as críticas que a política americana merece, quer se trate dos seus erros, no Iraque, quer, sobretudo, da sua política internacional em geral e do seu egoísmo comercial.

- Precisamente: continua a considerar que a intervenção no Iraque era inevitável?

- No que escrevemos sobre o Iraque, não nos pusemos na posição de estrategos que não somos, nem de previsionistas, que não queremos ser, nem sequer de observadores capazes de julgar acerca da política mundial, para o que nos falta competência. Quisemos simplesmente evidenciar, com a minúcia requerida, que perante o comportamento do Iraque tal como é historiado na resolução 1441 e no "Relatório Blix" - lidos por inteiro – havia todas as razões – digo bem, todas – para presumir que essas armas existiam, e que o ónus da prova da sua inexistência cabia ao Iraque. O erro dos Estados Unidos, compreensível mas fatal, foi aceitar – indevidamente – a inversão do ónus e ter na prática feito como se lhes coubesse, a eles, provar que as armas existiam. O Iraque recusou-se a fornecer a prova que lhe era pedida – contudo fácil de produzir, parece, se as armas não existiam. Isso bastava para motivar a guerra, tanto mais que o anúncio prévio de um veto pela França e pela Rússia acarretou uma autêntica suspensão do direito internacional da ONU. Acresce que os contactos entre a Al-Qaeda, desde o fim da I Guerra do Golfo, parecem hoje fora de dúvida. Sobre o pós-guerra, muito haveria a dizer e antes do mais que a "reconstrução" do Iraque é de facto uma construção. Leia, por exemplo, "The Economist" de 1 de Novembro, vale a pena. Não saberá talvez que, entre vários – muitos – outros aspectos dessa construção – reparou que se deixou de falar da penúria, etc.? – Bassorá, dispõe hoje de um excedente de electricidade enquanto que antes da guerra não tinha mais que 2-4 horas diárias de luz. Quanto à situação militar, no momento em que conversamos ela é por certo péssima no centro do país – mas caberia analisar em pormenor porquê. Convém, no entanto, lembrar que até ao momento em que falo, 16 de Novembro, a coligação perdeu 422 soldados. Entendo que é um sinal admirável que um número tão baixo seja já considerado insuportável: na guerra do Vietname morreram 60 mil americanos. Isso significa que – ao contrário da glória terrorista na morte – para a consciência ocidental dos nossos dias a vida humana não tem preço. Não posso estender-me aqui a este respeito – deixe-me de novo remeter para o livro a propósito de Israel – nem ainda a respeito da falta de apoio internacional à coligação, que é um erro tragicamente míope, mesmo se se pensa que era preferível manter o regime de Saddam. Goste-se ou não de Bush, parece haver vantagem, é o menos que se pode dizer, em que todos contribuam sem reservas para o sucesso da democratização do Iraque. Ou não? Preferir-se-á o regresso de Saddam? Ou um regime islamista? Que pretendia a França quando, ainda há pouco, exigia a "transferência da soberania" em três meses?

- Estará em curso o tal "choque de civilizações"? Acha que o pensamento europeu está a ficar dominado por um novo niilismo?

- O mais terrível aspecto desse niilismo é o Ocidente parecer fascinado pelo niilismo assassino do terrorismo. Não sei o que o "choque de civilizações" significa ao certo: o problema é antes que o Ocidente, ou uma sua parte, se vê cada vez menos a si próprio como uma civilização. (...)


segunda-feira, agosto 02, 2004

À volta da mesa do Rafael com o Knopfli 

Andei "com" o Knopfli durante semanas e semanas. Levava-o para o café, às vezes nem falávamos. Era só para ter companhia. Habituei-me à sua maneira desgarrada, ao desassombro quase desbocado, às coisas que dizia, e que coisas, sem pestanejar (é uma figura de estilo). Mas é sempre divertido, mesmo quando parece que insulta. Fala de toda a gente com inteira liberdade, sente-se livre e poeta, é livre. Por vezes não podia deixar de rir com a lata dele, a latosa... Sentava-me à mesa com ele, na ventosa esplanada do Rafael, quase sempre, e lá vinha o Knopfli com as opiniões mais inesperadas: "- O colonialista sempre se pôs na colonizada! A menos que em sociedades como a sul-africana, em que isso constitui crime! Também não serve... Mas acho que um tipo que se deita com uma mulher doutra cor não pode ser racista e vice versa. Talvez aqui esteja errado – não sei -, não sou nem psicólogo, nem psicanalista. Se o ser é tão desprezível... Não sei, aqui estou um bocadinho perplexo, confesso."
E às vezes falava dos moçambicanos, seus patrícios de outra raça, com visível deslumbramento, não podia esconder: "- Seja lá qual for o regime, aquilo é a melhor gente do mundo. Aquela gente com que convivi no Sul é mais civilizada do que nós. A maneira como tratam os animais e as crianças, esse aspecto de encobrimento, de que eu lhe falava há bocado, das faltas das crianças... Os tipos detestam ver o castigo corporal aplicado a uma criança."
E a civilização para um lado, a civilização para o outro, as conversas do costume. Dizia-me ele, segurando um copo da bebida dourada etc e tal: "- Civilização é pólvora e dar tiros uns aos outros - isso foi o que nós descobrimos."

Perder tudo 

A jornalista falava com o homem em registo de balanço. Tinha visto arder tudo à volta, menos a casa, felizmente. Mas "o" tudo à volta é o que dá sentido à sua vida. As árvores, os animais, a horta, o cantar dos passarinhos (sic). Até que lhe perguntou: "- E o que é que perdeu?" O homem respondeu a chorar: "- Perdi tudo. Uma porca e quatro bácoros..." Não conseguimos conter o riso durante minutos. Há momentos em que o riso se impõe sobre as convenções, sobre o porte, sobre o nosso sentido de humanidade.