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quinta-feira, julho 22, 2004

Tonterias 

  Arturo Pérez-Reverte é um escritor excepcional. Basta ler El maestro de Esgrima (Alfaguara, 1988) para confirmá-lo como um nome da literatura espanhola actual. É um ex-jornalista que alia a seriedade do escritor de estilo próprio e inconfundível à imagem de um homem de acção, um homem do seu tempo. As suas prestações televisivas são fortes e incisivas. Es hombre de buen talante, há que admiti-lo. Mas ontem assisti a um momemto deplorável, no Andalucia. A noite de quarta-feira é noite de Jesus Quintero, de Ratones Coloraos. Não segui o programa de fio a pavio (mas não perdi o Risitas, no final), vi quase tudo. Teve momentos, com Quintero no seu melhor. Aquilo que recordo de Pérez-Reverte foi o seu pior. Parece um homem profundamente amargurado com o triste espetáculo do mundo, provavelmente terá visto demais. Eu ainda não vi nada. E disse duas ou três coisas que obscurecem sem retorno toda a entrevista. Pequenas coisas, grandes coisas... Quintero perguntou-lhe por que coisas mataria. Pérez-Reverte dispara à queima roupa: "Por un montón de cosas. Por mi sobrevivencia, para defender los mios, por un perro. Mataria un hombre para defender un perro..." E depois, revelando grande irritação pelo uso abusivo do termo terrorrista (Pérez-Reverte, creio, esteve no Iraque recentemente) afirmou que ninguém é terrorista quando combate na sua própria terra. Joder... que me perdoem. Mas não é possível ouvir afirmações destas sem perder o norte. Então o terrorismo não é uma questão de métodos, é uma mera questão geográfica. Terá tido tempo para pensar que assim legitimou todo o terrorismo do País Basco? Os atentados da Córsega perpretados por verdadeiros grupos mafiosos? O terrorismo do IRA, já sem o romantismo de Boby Sands que morreu em greve de fome... E os atentados que matam todos os dias no Iraque sobretudo cidadãos iraquianos, numa orgia de sangue que não parece ter fim? São uma das faces da dura luta de libertação, ceifando na lógica cínica da guerra, cidadãos inocentes? As consequências desta afirmação são demasiado complexas para as discutir num programa de televisão, mesmo como aquele. Um escritor tem o direito de dizer as suas frases. Da entrevista de ontem ao grande escritor só vou recordar, dentro de anos, estes disparates ditos com a maior naturalidade.

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