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quinta-feira, julho 01, 2004

Todos a Belém, por SMS (Manif espontânea) 

Ainda não sabíamos, mas agora já sabemos todos que SMS significa Spontaneous Manif System. A manifestação espontânea de Domingo, convocada desde sexta ou sábado, por SMS e por correio electrónico, para a frente do palácio de Belém, é todo um fenómeno de agit-prop que inicia uma nova era. No início as manifestações eram convocadas da forma que sabemos, recorrendo a processos industriais pesados e pouco ecológicos, nomeadamente à impressão, distribuição e colagem de cartazes; lançando mão de procedimentos burocráticos, como era o caso do anúncio partidário lido ou distribuído, amplificado pela notícia de jornal ou pelo anúncio pago, depois. Para já não falar dos graffitis intemporais que clamavam em cada muro, em cada parede, convocando "todos ao Rossio", com caracter de urgência. Já fazem parte da iconografia da revolução, deviam ser protegidos como as gravuras de Foz Coa.

Mas hoje o SMS permite potenciar na difusão em rede as vantagens matemáticas da verdadeira progressão geométrica. Cada um de nós é um ponto de chegada das mensagens espontâneas, mas também um ponto de partida, um nó da rede. Rapida e silenciosamente, espontaneamente, a convocatória vai-se espalhando por um vasto auditório particularmente receptivo, que age no segredo. Imaginem a utilidade do SMS no quadro das lutas estudantis dos anos 60, em Portugal e no mundo. Como teria sido útil nos tempos mais duros da repressão, nos tempos da clandestinidade? Mas a História nem sempre fornece, em cada época, aos seus agentes, os instrumentos mais adequados para a resolução dos problemas que se colocam. Uma certa astúcia parece garantir em cada momento da História um grau razoável de complicação e inadequação entre os problemas e os instrumentos para a sua resolução. O telefone portátil e o SMS teriam certamente acelerado a chegada da Revolução. Visto por este prisma o telefone portátil é um instrumento óbvio da clandestinidade, que permite a comunicação por voz e imagem entre dois ou mais foragidos. Por isso a Manif de domingo, em frente ao Palácio de Belém, é um curioso fenómeno de estudo, que cruza as novas tecnologias com as práticas julgadas já perdidas da mais pura e dura clandestinidade, como num delírio retro em que corajosamente se recuperam as marcas essenciais de uma moda passada. Até as palavras de ordem são visivelmente do tipo de mensagens que as pessoas enviam secretamente por telemóvel; simples e breves, poupando o mais possível no número de caracteres, com sentido de humor a dar para o nonsense, por vezes até um pouco enigmáticas.

Até eu recebi (só li depois) uma mensagem de correio electrónico a convocar-me para Belém, no novo estilo da linguagem telegráfica e informal: "Manifestação em frente ao Palácio de Belém, este domingo, às 19h00" - sem mais, por exemplo, sem explicar quem convoca nem para quê. Claro que não fui, não iria, se a tivesse visto antes da coisa espontânea de domingo. Nunca fui alegremente a nenhuma festa para a qual recebesse um duvidoso convite anónimo, ainda para mais espontâneo.

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