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segunda-feira, julho 05, 2004

A Rosa (azul?) do Mundo 

O Público de hoje reserva-nos a última página do caderno principal para uma notícia muito singular. Uma empresa japonesa afirma ter criado a primeira rosa azul... que parece afinal um pouco violeta. Mas que importa, se geneticamente a rosa azul foi concebida através da transferência de um gene de amor-perfeito, o gene que comanda a síntese do pigmnento de cor azul?! As pétalas da rosa geneticamente modificada (escrito assim lá se vai a magia toda do milagre) possuem quase 100% de delfinidina, substância responsável pela cor azul. Outras equipas já perseguiam há anos o mesmo objectivo, mas a rosa final sempre acabava a vencer a obstinação dos homens, com desvios para o cor de rosa. O tom azul do céu ainda não foi obtido, mas dentro de quatro anos já será possível comercializar uma estranha flor de pétalas azuladas devidamente adaptada ao meio envolvente.
Lembrei-me então da rosa de Hiroshima.
Lembrei-me também da rosa amarela (é a minha cor preferida, quando ofereço uma rosa), o magnífico conto-poema de Jorge Luís Borges, publicado em El Hacedor: "Ni aquella tarde ni la otra murió el ilustre Giambattista Marino, que las bocas unánimes de la fama (para usar una imagen que le fue cara) proclamaron el nuevo Homero y el nuevo Dante, pero el hecho inmóvil y silencioso que entonces ocurrió fue en verdad el último de su vida." Marino, a despeito de uma obra poética que fala do mundo e quase inclui o mundo que denomina, só no final da vida viu a "rosa", uma "rosa amarela". Mas aquela visão da rosa foi igual à que Adão terá tido no Paraíso, antes da palavra que a denomina ter sido inventada para aludir e ocultar. Foi uma revelação, que talvez Homero e Dante também tenham alcançado.
Lembrei-me de outra rosa misteriosa, também de Borges. Uma rara variedade de rosa perpétua do Indostão em cujas pétalas se podem ler versículos do Corão ("No hay otro dios como el Dios. Muhámmad es el Apóstol de Dios") e que 'desabrocha' inesperadamente numa discussão entre sábios que disfrutam os prazeres da sombra e do doce fim de tarde em Córdova. Averroes trabalha na tradução de Aristóteles e é desafiado por este enigma, a que responde com subtileza. É no conto La busca de Averroes, publicado en El Aleph.
Lembrei-me (porque a palavra rosa desencadeia um processo mnemónico difícil de parar) na magnífica antologia da Assírio & Alvim, Rosa do Mundo, que reune 2001 poemas de outros tantos poetas. Foi a última obra de Manuel Hermínio Monteiro, que morreu de cancro pouco depois da publicação (ou pouco antes) e é, à vista, ao tacto, um livro-contecimento. Foi publicado em 2001, no âmbito do Porto 2001 - capital europeia da cultura. O nome não poderia ser mais apropriado, até porque a rosa é uma metáfora poética recorrente. E a obra, volumosa e delicadamente densa, como uma rosa de pétalas revolvidas, é também ela uma rosa de poesia, uma oferta aos leitores ávidos do odor oculto em cada poema que desconhecem.
Abri o livro à procura de um poema da rosa, dos muitos, mas resolvi-me por um poema de Luiza Neto Jorge que fala de uma magnólia. Tanto faz, o mistério é o mesmo. Intenso e tumultuoso, como uma revelação.

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu reslendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Comments:
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