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terça-feira, julho 13, 2004

Por outro lado...  

Um completo deslumbramento, pela imagem e pela expressividade afectuosa com que se apresenta aos outros para falar, com uma voz que explora todos os recursos da subtileza e da delicadeza de carácter. Alheio ao efeito fácil da palavra, que domina como um mestre mas sem pompa, aos vulgares pecadillos da personalidade, tão comuns em quem tem disso em excesso. Com uma memória afectiva de pessoas e situações que dá vontade de partilhar, como se podesse ser também a nossa, mas sem o pior da nostalgia. Alegria, profunda alegria de lembrar, como se revivesse um a um todos os acontecimentos gratos de uma vida cheia de música. Falo agora de António Cartaxo, o convidado de ontem de Ana Sousa Dias, nesse pequeno ofício milagroso que é o programa "Por Outro Lado".
Como sempre, encontrei-o por acaso. Passava das onze, talvez já da meia-noite, quando liguei a televisão e encalhei na 2: Soa aquela estranha música de um compositor contemporâneo (não apanhei o nome) e começa a entrevista. Demoraria algum tempo até eu perceber que já tinha ouvido, há um ou dois anos, uma explicação admirável de António Cartaxo acerca da banda sonora de "Reviver o passado em Brideshead", séria mítica da BBC adaptada do romance homónimo de Evelyn Waugh, encontrada casualmente no sítio da RDP. A música e a melopeia da voz compunham uma nova unidade e era isso que eu ouvia e repetia.
António Cartaxo fez parte da pequena equipa da secção portuguesa da BBC (com Manuel de Seabra, autor português que vive desde sempre em Barcelona onde publicou, primeiramente em catalão há imensos anos "Os exércitos de Paluzie", ("Els exèrcits de Paluzie" no original), e permaneceu em Londres 14 anos cheios de música, da grande música. Trabalha agora na RDP (depois de ter dado aulas em Letras) onde faz programas e apontamentos (como se diz nos canais de cultura) sobre música, desde uma profunda erudição e uma humanidade sem igual. Façam a prova clicando magicamente aqui.

Comments:
E que dizer do "Mosquito"? Do Alentejo e das memórias de criança? Sonhar, sonhar, sonhar cada vez mais. Foi um convidado que de facto deslumbrou, mas o desulumbre maior talvez tenha vindo da própria anfitriã que, quem sabe pelo encadeamento televisivo, e sem culpa alguma para o António Cartaxo,fez lembrar uma terna psicanalista, mas muito mais insinuante e segura, que momentos antes tinha escutado e, pela milésima vez, seduzido o mafioso Tony Soprano.
Por isso o monoteísmo nunca vencerá. Teremos sempre deusas da maternidade e do amor.
Assim descobrimos o nosso coração português. O mar dentro de nós. A compreensão. O outro.
 
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