<$BlogRSDURL$>

terça-feira, julho 13, 2004

Para que não digam 



Neftalí Ricardo Reyes, aliás Pablo Neruda. Nasceu no Chile, Parral, a 12 de Julho de 2004 e morreu em Santiago em 1973. Evitei-o durante meses, talvez anos. Encontrava-o sempre no mesmo sítio, parecia acessível mas nunca fui além do olhar. Parecia-me um pouco frívolo, a puxar ao sentimento. Até que um dia venci essa resistência, esse pudor de levar para casa mais um livro que não merece o pó das nossas estantes. Rapidamente me dei conta de que a autobiografia de Pablo Neruda - Confesso que vivi - pertence àquela classe de livros que não começam senão depois de folheadas algumas páginas. A capa não lhe pertence, é apenas um acidente editorial, serve de embrulho. A edição da Europa-América é de Março de 1976, da colecção Estudos e Documentos. Comprei o livro numa banca sob a arcadas da Praça do Comércio, em Lisboa, à vista do Martinho. Talvez em meados da década de 80, a preço de estudante. Li-o depois com deslumbramento, e com o prazer de surpreender um poeta na intimidade da sua memória, apesar dele escrever que "as memórias do memorialista não são as memórias do poeta".
Só outra vez tive a mesma emoção ao ler um livro de memórias. Foi quando finalmente li O Passado Remoto de Giovanni Papini numa edição histórica dos livros RTP. Nossa senhora... Estava então na universidade e precisava urgentemente de uma forte indução de biografia, porque considerava que não tinha nenhuma de que me pudesse sequer recordar mais tarde. A leitura do Passado Remoto de Papini (que figura tão estranha e tão sedutora) e, algum tempo depois do Confesso que vivi, constituiram para mim um tónico de energia e de vida de que fui alimentando durante anos a minha imaginação faminta.
A autobiografia de Neruda é um livro muito belo em que desfilam não tanto uma época como os personagens que a habitaram com a sua energia transbordante. As histórias contadas por Neruda têm sempre alguma coisa de misteriosamente poético, de espantosamente anedótico. Mas são histórias cheias de seriedade, de gravidade algumas. Estão lá Miguel Hernández, Federico, Alberti e a geração de 27, para além de muitos outros. Está a Espanha republicana mas também estão os tempos de cónsul do Chile em Ceilão, os tempos de exílio, o México e Paris, o Perú e a Argentina, a visita à China e a Rússia incontornável, o Prémio Nobel e Gabriela Mistral, Vicente Huidobro, Fidel e Estaline, Éluard, a sua amada mulher Matilde Urrutia, Vallejo, Allende e uma vasta galeria de outras figuras. Tal como aconteceu após a leitura de Papini, fiquei com a convicção de que o poeta Pablo Neruda, que nas suas próprias palavras, viveu mais do que o memorialista Neftalí Ricardo Reyes, teve afinal uma biografia mais ampla e numerosa que a sua própria vida: "Vivi, talvez, a vida dos outros".
Pablo Neruda está na rede, por todo o lado. É só ir ao Google e pedir um conselho. A resposta virá. Recolhi do Volume I de Poesía, da editora Clásicos Hispánicos - Noguer, de que foi director Damaso Alonso, um excerto de uma das suas Nuevas Odas Elementales. Trata-se de uns versos de Oda a la Tipografia que me seduziu pela franqueza (um poeta publicado deve amar o prelo como a si mesmo), pelo visualismo arrojado e pela curva sinuosa que os seus versos vertiginosos descrevem quando parecem que caiem para cada vez mais alto.

[ODA A LA TIPOGRAFIA]

Pero,
tipografía,
déjame
celebrarte
en la pureza
de tus
puros perfiles,
en la redoma
de la letra
O,
en el fresco
florero
de la
Y
griega,
en la
Q
de Quevedo,
(cómo puedo pasar
mi poesía
frente a esa letra
sin sentir el antiguo escalofrío
del sabio moribundo?),
a la azucena
multi
multiplicada
de la
E
escalonada para subir al cielo,
en la Z
con su rostro de rayo,
en la P
anaranjada.

Amor,
amo
las letras
de tu pelo,
la
U
de tu mirada,
las S
de tu talle.

En las hojas
de la joven primavera
relumbra el alfabeto
diamantino,
las esmeraldas
escriben tu nombre
con iniciales frescas de rocío.
Mi amor,
tu cabellera
profunda
como selva p dicionario
me cubre
con su totalidad
de idioma
rojo.

Comments: Enviar um comentário