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quinta-feira, julho 15, 2004

A outra margem, amor pela fronteira 

Sempre desejei viver junto da margem e da fronteira (eu gosto de fronteiras mas por motivos estéticos, não políticos) e poder passar para o outro lado sem nenhum motivo forte. Em fantasia cheguei a desejar que do outro lado do rio, no lugar de Lisboa, ficasse outra cidade de outro país. Outra língua, outra moeda, outra religião, outra literatura e outra actualidade política. Proibi a mim próprio esta fantasia concreta porque imaginar outra cidade no lugar de Lisboa é alguma coisa entre o sacrilégio e a incongruência lógica. Portanto, Kaput.

Já tive várias oportunidades de manifestar o meu amor pela fronteira e nem sempre evitando o ridículo. Uma vez em Monção decidi acrescentar um episódio a esta história inconfessável e fui em passo de corrida ao outro lado, cruzando a ponte para Salvaterra do Miño. Não guardo nenhuma recordação particularmente eloquente desse passeio em ritmo forçado a não ser o intenso calor do dia e o ambiente de suspensão, de paragem, de imobilidade, que encontrei do lado de lá. O tempo parecia ter parado porque nada se movia ali, a não ser eu mesmo, em ritmo de corrida aeróbica.
Em Vila Nova de Cerveira (vila arcádica) sempre me divertia muito a simples viagem de ferry para o outro lado e repetia-as tantas vezes quanto possível. O barco dava meia volta e manobrava para encostar e era tudo. A visita ao outro lado, a Goyan (que nem vem no mapa), não acrescentava nada. É uma localidade quase irrelevante, sem comparação com a delicadeza e requinte de Vila Nova de Cerveira. Mas estava lá a fronteira. Uma vez que fomos a la Guardia por dois dias e regressámos pelo longo caminho de Goyan até ao ferry, descobrimos que não havia barco. Por greve ou feriado, por outro motivo qualquer. Cerveira a poucas centenas de metros mas a fronteira estava lá, correndo lentamente até à foz atlântica, junto de Caminha. Anoitecia e não havia solução. Ainda pensámos roubar um barco a remos (por alguns minutos) e fazer a distância à custa da força de braços. Felizmente desistimos da ideia. Acabámos a negociar com um taxista sonolento (a quem acordámos em casa), dono de um café, o "Cantamañanas" (em português seria qualquer coisa como o "Fala Barato"), que nos levou numa viagem já de noite por uma estrada cosida com o rio, até Tuy. Aí cruzámos a ponte, ainda no táxi, que acabaria, de acordo com o combinado, por nos deixar no centro de Cerveira. Foi uma viagem de sombras e conversas sobre comércio de vinhos, pontuada pela voz de Juanito Valderrama, na rádio, que cantava para grande comoção minha o seu famoso hino à tragédia de cruzar uma fronteira política, que é "El Imigrante".
Outra vez, de visita solitária a la Guardia, perdi o barco para Caminha em Camposancos, apesar de ter feito todo o percurso (uma vez mais) a correr como um desalmado. Perdi o barco e perdi a ligação com os meus amigos que me esperavam do outro lado da fronteira.

Há anos saí de Santa Apolónia com um amigo cantor, no combóio correio que parava literalmente em todas as estações e apeadeiros. Viajámos toda a noite até que de manhã chegámos a Valença. Aí, depois de um café com leite, tomado ao som de petardos que rebentavam na praça, passámos a fronteira a pé, com o saco da roupa às costas. Fomos travados por alguns segundos junto a um casinhoto onde um polícia de fronteira folheou um livro de fólios enormes, cujas páginas cheias de números de Bilhete de Identidade, organizados em densas colunas, não revelaram nada de suspeito. Recebemos autorização para passar e lá fomos em paz até Tuy, percorrendo a ponte velha que liga uma à outra margem sobre as águas verdes do rio Minho que sepultam pequenas embarcações de madeira. As imagens de dolorosas representações de Cristo na cruz, esculpidas em madeira, também ficaram na minha memória. Tal como os recitais de Vigo e Pontevedra, mas isso é outra história.
Mas a mais comovente e esperada passagem de fronteira que vivi foi há... não sei quantos anos (era fácil verificar) e aconteceu nesta mesma ponte sobre o pai Miño, como lhe chamam os galegos. Foi pela escola e preparei-a durante mais de um ano. Iamos ao encontro de um grupo de professores e alunos de Vigo, dos quais só conheciamos um deles, a professora Esperanza. À boa maneira de qualquer filme de refugiados ou de perseguidos (essa é, talvez, a chave da minha preferência romântica pelas fronteiras) combinámos que nos encontraríamos à saída da ponte, em território galego. Marcámos esse momento ao minuto. Chegámos a Valença onde abandónamos o autocarro para seguir a pé. E lembro-me de tudo, porque essas ocorrências são encenadas para permanecer sempre na nossa memória. O nosso grupo percorreu o passeio pedonal da ponte de ferro em passo descontraído (nenhum de nós voltaria certamente a fazer nada parecido) e a meia distância vimos os amigos que nos esperavam, o Peter (a quem os seus alunos viam logo abaixo de Deus na hierarquia que ele próprio tinha estabelecido), os outros. Comovi-me com aquele reencontro de pessoas que se desconheciam, falando em português, em galego, numa das muitas variantes individuais que se fala na Galiza, mas tudo o que é galego me comove desde há muito. Não há fotografias desse encontro, por isso a nossa memória é tudo em que podemos confiar para acreditar que esse encontro aconteceu mesmo.
Por isso gosto da fronteira e da distância ilusória e romanesca que ela supõe. Porque de facto não há distância mas sobra espaço para toda a nossa imaginação. Só o que está em contacto e firmemente unido pode fazer fronteira. Não há fronteira com o que é remoto. E a multiplicação destes paradoxos constitui um dos encantos de qualquer ideia de fronteira. Gosto de imaginar que na outra margem tudo pode ser diferente, mesmo sem ser. Que se fala de outra maneira para dizer as mesmas coisas. Que um gesto pode ter outro significado.
Gostava (repito-me) de viver junto da margem de um rio onde chegasse depois de alguns minutos de caminhada a pé. Gostava de poder chegar a outro país, do outro lado de uma viagem de barco, breve e quase desnecessária. Faria de certeza essa viagem mesmo sem ter um bom motivo, como ir tratar de papéis ou ir comprar caramelos mais baratos. Iria ver as manchetes dos jornais, tomar um café na esplanada e ver as montras que anunciam rebajas. Voltaria pela rua da livraria para ver as novidades. Podia ser em Caminha ou em Vila Nova de Cerveira, em Monção, Valença ou noutro lugar. Podia ser em Vila Real de Santo António, junto ao Guadiana, em frente a Ayamonte. Foi lá, precisamente, que os meus pais acabaram de comprar, há uma semana, uma casa de férias. Perto do rio e do ferry, mesmo junto à fronteira.

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