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segunda-feira, julho 26, 2004

O politicamente correcto e vice versa 

É um dos lugares comuns da cultura actual, da nossa. Acusar alguém de ser politicamente correcto ou apenas insinuar isso, para embaraçar mais. Prometer que se vai fazer uma declaração politicamente incorrecta, para garantir à partida um bom auditório e uma boa recepção. Declarar, como se fosse a primeira vez na História, que o politicamente incorrecto é que é, nos tempos que correm, politicamente correcto.

Pessoalmente, fico de fora desta guerrilha semântica, onde nada é o que parece ser. O politicamente correcto é uma cultura que teve o seu tempo, como tudo e cujo lugar na história das ideias e das representações está por fazer. Hoje restam apenas as ruínas de um léxico saturado e impenetrável que já nada representa. Provavelmente esse movimento e essa mundividência recuperam a herança cultural dos anos 60, pelo menos nalguns aspectos, invertendo os protocolos da moral sexual, por exemplo, reagindo paradoxalmente aos conservadores anos 80 do século passado. Tal como o concebo, o politicamente correcto consistiu numa cultura retórica fundada em tópicos do pensamento igualitário e culturalista, basista e hedonista, apesar do moralismo implícito, enquadrados pela cultura ambientalista e pelas políticas de género, sempre à margem da prova do contraditório. Libertário e pós-moderno em política, conservador na moral sexual. Com múltiplas contradicções nunca resolvidas, pelo meio.
A linguagem característica do politicamente correcto procura neutralizar a visão perspectiva que toda a linguagem veicula acerca da realidade, abusando inevitavelmente dos eufemismos. Apenas conseguiu, por via de uma hiper-regulamentação de todos os actos privados fundar uma nova mundividência, uma nova perspectiva identificável sobre o mundo das coisas e das relações humanas.
O pensamento politicamento correcto começa por não ser pensamento em sentido preciso, apesar da sua natureza profundamente assertiva e judicativa. Supõe um amplo consenso cultural, relativista, à partida, justamente aquilo que seria suposto apenas alcançar no termo do debate. Supõe um critério de correcção, de adequação a um modelo prévio ao pensamento, à discussão. É politico porque politiza todos os actos privados de cada um de nós, ou seja, torna-os da esfera pública sem qualquer apelo e expõe esses actos ao juízo externo. É correcto porque exige a adequação prévia a um diktat.

Uma vez que o politicamente correcto constituiu sobretudo uma estratégia política de re-semantização da linguagem e uma ruptura pretensa com o paradigma ideológico dominante, foi necessário refazer os dicionários e vocabulários. Num dos muitos exemplos que podemos encontrar através de um motor de busca, encontrei estas palavras clarificadoras sobre o tema:
"É um modo de falar que supostamente não fere os sentimentos de pessoas pertencentes a grupos marginalizados ou desavantajados. Surgiu nos Estados Unidos, um país que tem uma longa tradição de defesa dos direitos humanos e, paradoxalmente, uma longa tradição de preconceitos.(...) Durante muito tempo tais preconceitos se expressaram na linguagem: um negro era um "nigger", um judeu, um "kike".(...) À medida, porém, que tais grupos fizeram valer seus direitos, o vocabulário teve de mudar. (...) Contudo, e como sói acontecer nestes casos, o pêndulo oscilou para o lado oposto, e o que era uma sadia reação ao preconceito tornou-se por vezes caricatural. As universidades são um cenário favorito para batalhas verbais, que por vezes chegam ao tribunal.(...) Muitos estabelecimentos de ensino superior têm manuais ensinando não apenas como falar sem ferir susceptibilidades, mas também como proceder em situações potencialmente perigosas.
O Politicamente Correto corresponde, pois, a um determinado cenário histórico. É a expressão da revolta de grupos marginalizados em busca do respeito que merecem; traduz séculos ou milênios de humilhação e de opressão sutil e brutal, quando não sanguinária. Que se revista de exagero é a penas compreensível. No futuro, o vocabulário Politicamente Correto será olhado como o testemunho, curioso talvez, de uma fase de rebelião contra o status quo."


Podemos encontrar alguns exemplos obviamente paródicos deste vocabulário PC aqui.

Ser politicamente correcto ou politicamente incorrecto são apenas formas hábeis de iludir a necessidade de pensar. E a verdade é que é preciso pensar, mesmo que seja contra a estabilidade das nossas representações.

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