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quinta-feira, julho 01, 2004

Nojo, aquilo a que se chama nojo... 

Fui ao Dicionário Houaiss para ler o significado preciso da palavra. Não é tristeza nem desgosto, nem apenas um "mal-estar estomacal que dá ânsias de vómito", também não será vergonha, é repulsa e repugnância o que eu quero dizer com "nojo". Tenho lido alguns blogues nacionalistas, dessa área difusa e pouco visível do espectro político que só se propaga no meio propício e tolerante da democracia. Parece-me bem, a melhor defesa contra esse tipo de perversão intelectual - tal como acontece com os antídotos que combatem um veneno pela aplicação parcimoniosa do seu princípio activo - é deixar que essa fauna política aproveite, em igualdade de circunstâncias, das virtudes da liberdade de expressão e de reunião. Basta entrar um pouco nesses blogues do auto-denominado campo nacional (que parece acolher uma miríade de sensibilidades e facções unidas pelo ressentimento, pelo ódio e por uma profunda aversão a formas abertas e democráticas de convivialidade) para apreender os traços mais frequentes do seu discurso. Por vezes surpreendem, porque a sua postura muito ideológica chega a parecer atravessar outros territórios do pensamento político tradicional. São fascistas, solidaristas, nacional-sindicalistas, tradicionalistas, adeptos nostálgicos de um nacional-socialismo ideal que a prática concreta perverteu, monárquicos, republicanos do 28 de Maio, salazaristas embevecidos, identitários, evolianos que repugnam as grandes linhas da modernidade, admiradores do fascio, do nacionalismo nórdico, da falange espanhola e do caricato José António, invejando respeitosamente o sucesso da frente nacional francesa e da extrema-direita austríaca de Haider, são nacionalistas admiradores do paganismo, militando contra o catolicismo e dando loas às divindades de Roma, sedevacantistas admiradores de LeFevre, ultramontanos... e tudo envolvido num ruído e numa histeria vitimista, que fará deles os grandes injustiçados do pérfido regime democrático, que nenhum hesitaria em eliminar, mais as suas liberdades, se alguma vez tivessem a mais leve sombra de poder efectivo.
E nesta paranoia panfletária e ideológica, em que a diversidade acaba por confirmar a natureza esquizofrénica deste campo, quais são as grandes referências comuns? Desde logo um profundo ressentimento, que se traduz frequentemente numa linguagem truculenta que não dá espaço para uma discussão séria. Um sentimento de vitimização, de abandono e de perda. O mundo tal como o conhecemos não se revê no ideal, o mundo está errado. Mais do que isso, há uma conspiração global, sobretudo desde o final do Armistício, onde os Americanos, os Judeus, os comunistas e os emigrantes ilegais, são os grandes protagonistas. O judaísmo é o grande perigo que ataca bem no centro da identidade dos povos, que as dilacera desde o interior.
Vale a pena por uma vez fazer a prova desta paranoica fixação, que faz dos judeus os grandes conspiradores universais. O nojo a que me referia vem de ter lido (só eu sei com que boa vontade e alguma ingenuidade, de início) alguns excertos de artigos datados dos anos 30/ 40 de um ideólogo do Estado Novo, Alfredo Pimenta e um ou outro de um poeta mais actual, provavelmente ainda vivo, Rodrigo Emílio.
Do primeiro autor, Alfredo Pimenta encontramos textos de um surrealismo total, de que este excerto dará apenas uma pálida e benévola imagem: "O Rei é Rei, porque tem de ser Rei: o Presidente é Presidente, porque teve a sorte de lhe sair a sorte grande. Andou a roda, o Presidente ganhou: podia ter sido outro, com o mesmo direito, a mesma legitimidade: a da roleta eleitoral, com todas as batotas que lhe são inerentes."
Deixo aqui o link, para que façam a prova da náusea de ler alguns textos que destilam um ódio profundo. Sugiro uma leitura atenta, até onde for possível. O arquivo sobre os autores está num sítio denominado
Imprensa Não Conformista, INC, e apresenta artigos de outros autores, maugrado não ser actualizado desde há dois anos.
De certa maneira é possível detectar nestas hostes de convictos anti-democratas algumas das recorrências da extrema-esquerda. O ódio ao judeu e a aversão à América, a desconfiança em relação à UE e à nova arquitectura europeia, bem poderiam constituir os pilares dessa aliança inesperada, em ambos os casos uma desconfiança em relação à democracia, mais explícita num campo que noutro. Um vanguardismo e um radicalismo que, objectivamente, não são compatíveis com a democracia representativa. Afinal as profundas clivagens ideológicas que geram a imensa variedade de grupos e de sensibilidades, quer neste campo, quer na área da extrema-esquerda, traduzem a sua condição de contra-poder permanente, de quem não espera verdadeiramente alcançar o poder e governar com legitimidade para as pessoas, com equilíbrio e com moderação.
Pergunto-me por vezes se vale a pena ler estas escritas, se vale perder tempo com quem, afinal (já fiz a prova disso) não quer discutir connosco com argumentação séria. Eu penso que vale, porque, como dizia ontem o FP (e aqui concordo com ele) o fascismo não está definitivamente derrotado. A Democracia não é uma conquista para a eternidade. É preciso ler e, algumas vezes, dar réplica, com seriedade e com argumentos. Mesmo que seja necessário dominar um sentimento de profundo nojo...

Comments:
Caro Senhor:

Porque se sujeita a esse grande esforço estomacal, se não vê utilidade? Por outro lado, ao comparar a extrema-direita com a extrema-esquerda está claramente a confundir as coisas, por um lado porque há muitos nacionalistas que não são da extrema-direita (incluo-me nestes) e gostam de votar (idem.) Tenho opiniões que fariam os gurus do género (Sardinha, Mussolini, Salazar) chamar-me comunista. Por outro lado, identifica alguns "inimigos" comuns à extrema-esquerda e ao nacionalismo. Os inimigos podem ser comuns, mas as razões porque são inimigos diferem muito. Por exemplo, vamos lá à questão dos judeus/Israel. O que vejo é que a extrema-esquerda, acusa Israel de ser fascista, imperialista, etc. Eu posso criticar Israel, porque ocuparam ilegitimamente uma terra que não lhes pertencia e que os nacionalistas palestinianos procuram recuperar, tal como critico os EUA por terem invadido o Iraque, mas os judeus não me tiram o sono. Preocupam-me mais os fundamentalistas árabes actualmente. Em relação à globalização, para dar-lhe outro exemplo, a posição dos dois campos é antagónica, garanto-lhe.

Espero que continue as suas leituras e que não lhe façam azia.
 
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