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sexta-feira, julho 16, 2004

Estações e apeadeiros do livro e da leitura 



As metáforas são imagens rebeldes que irrompem para lá das normas da sintaxe.  Respondem a uma necessidade do discurso, não correspondem à conveniência e podem parecer inoportunas. Por vezes falam por nós e dizem mais do que queremos dizer. As melhores são as que irrompem no improviso, para surpresa do orador; essas não são planeadas nem convocadas com antecedência. Espalham a sua energia com inesperada brusquidão e impõem clandestinamente a sua magnífica teia de significações. Cada metáfora reclama outras metáforas e imagens felizes.
 
Escrevo estas palavras a pensar no carteiro de Neruda da Ilha Negra que tinha problemas com as metáforas e na última reunião do SABE (Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares), que teve lugar na Mundet, no Seixal, no passado dia 12, 2ª feira. Discutíamos (com ardor) o futuro da feira do livro interescolar, patrocinada pela Câmara Municipal do Seixal, acompanhada e apoiada pela Biblioteca do Fórum, realizada nas escolas do concelho.
Em novembro passado, no final do Iº Período, realizámos a 2ª edição da feira, ao longo de duas semanas de livros e de actividades sobre os livros. Eu responsabilizei-me pela realização de uma sessão de leituras de histórias com o Marco António e a Susana João, a que acorreram duas turmas de alunos do ensino básico de Corroios e de Vale de Milhaços. Pouco depois das três da tarde ajudei o Marco (que tinha um compromisso inadiável no Parque das Nações daí a minutos) a fugir pela janela da sala, vestido vagamente de diabrete com um tridente na mão (para espanto dos miúdos e das professoras que os acompanhavam), após o que saltou para o carro estacionado ali ao lado e desapareceu pelo meio dos pavilhões da escola. Foi a primeira vez que um carro - um smart descapotável - em vias de se transformar em abóbora, à frente dos nossos olhos, desceu por ali abaixo até ao portão. Fazia parte da história que queríamos contar e ajudava o Marco a sair dali sem demasiadas explicações.
Dois dias depois dirigi um debate sobre a importância do ranking de escolas elaborado a partir das classificações dos alunos do 12º ano, para o qual convidei o João Almeida (jornalista da SIC que tratou essa matéria) e o Manuel Porfírio, colega da JB e ex-presidente do conselho directivo.
Ficou por realizar um encontro com o nosso ex-aluno em Bagdad, o Nuno Carvalho, que já tinha regressado de novo do inferno iraquiano. Ficou adiado sine die.

Mas as metáforas... são como rosas que exalam um odor exótico (metáfora de mau gosto que eu já tinha pronta a sair). Naquele encontro das bibliotecas surgiu inesperadamente uma metáfora. A feira interescolar (porque decorre ao mesmo tempo em várias escolas e faz apelo a parcerias e actividades participadas)  adoptou o título genérico de Estação do Livro. Podemos ler a metáfora num sentido ambiental e telúrico; a certa altura do ano chega a estação do livro, caiem as folhas, os passarinhos cantam um último lamento... Mas não, a metáfora reclama um contexto ferroviário. A Estação é mesmo uma alusão à circunstância de algumas das escolas serem servidas pelo novo combóio da ponte ou situarem-se relativamente perto das suas estações. Naquela reunião e neste contexto de estação irrompeu a metáfora do apeadeiro... Cada uma das múltiplas actividades da feira do livro é um apeadeiro, de uma vasta rede de estações que são as escolas participantes, onde cada um de nós pode descer. A imagem é perfeita. Diante dos nossos olhos aparece então um plano das estações e a filigrana dos seus múltiplos apeadeiros, onde descem e sobem continuamente os passageiros da feira. A metáfora pode ser explorada desnecessariamente até ao seu limite. Cada bibliotecário é um chefe de estação. O público da feira e das actividades são os passageiros do combóio que circula à tabela. O programa da feira é o horário dos combóios (é preciso consultar) e cada acontecimento tem uma hora de partida e outra de chegada. Os responsáveis pela animação da feira são quem conduz as composições. Etc.


clicar sobre o horário

No primeiro ano da Estação do Livro, em 2002/ 2003, levámos esta metáfora ferroviária à letra e compusémos o nosso programa a partir do enredo gráfico dos horários distribuídos ao público pela Fertagus. Inventámos uma imagem paralela para a feira em que um conjunto de livros e dicionários devidamente alinhados sobre a mesa representavam uma locomotiva. Só nos faltou a ideia brilhante de que as nossas actividades eram apeadeiros onde todos eram convidados a descer e participar. Os livros são o combustível renovável desta viagem que nunca deveria terminar. Como posso agradecer esta metáfora?

 

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