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quinta-feira, julho 01, 2004

(...) "escolhi uma fraca imitação da vida" - disse Nick com melancolia 

Demorou rigosamente um ano (lectivo) a leitura do V tomo da saga de Harry Potter, o rapaz que sobreviveu. Foi a nossa leitura em voz alta (minha e do Miguel) do final do Verão. Harry Potter e a Ordem da Fénix apareceu como uma edição olímpica, chegando na Editorial Presença às 750 páginas. Um colosso, para todos os efeitos. Mas a leitura foi interrompida logo em Dezembro, por motivos de força maior..., e só retomámos em final de Fevereiro, quando recompus o fôlego para a leitura em voz alta. E, por imposição do meu ouvinte, recomeçámos na primeira página do romance. Voltámos a parar em final de Abril e lá terminámos anteontem, a 29 de Junho.
Sou portanto um leitor de J. K. Rowling e conheço toda a saga, do primeiro livro ao último. Posso falar sobre o assunto. Não é parte das minhas leituras por convicção, mas apenas por obrigação paternal. Não teria lido se não fosse o caso. Mas pronto, já li. Este último (para já) Harry Potter parece-me mais arrastado que os anteriores; constitui, por isso, uma prova do virtuosismo da autora, que sabe dominar a sua galeria de personagens, gerir o seu catálogo de peripécias romanescas e escreve sobre seja o que for no território de fantasia que foi constituindo. Explora os seus sedimentos, multiplica as autoreferências e prolonga a história até aos limites da disponibilidade do leitor. Neste Harry Potter o ambiente gótico, marcado pela iminência da tragédia e do desafio insuperável, é tudo. O enredo é marginal, porque o desenvolvimento dos personagens que já conhecemos num cenário que nos é familiar, permite-nos o prazer e o privilégio do reconhecimento. Quase não nos damos conta de que alguma coisa acontece, quando na verdade quase nada se passa. Talvez possamos falar num desvio psicologista da saga do rapaz que sobreviveu. Na verdade a "acção" é psicológica, o herói vive o drama interior de se confrontar com o vilão, num cenário de ambiguidade que quase permitirá falar de dupla personalidade, de desdobramento psíquico. Potter cresceu, é adolescente, apaixonou-se ou sente as primeiras perturbações do amor, as amizades tornam-se relações menos lineares do que antes, as exigências são maiores, o abismo de si também parece maior. É um livro estranho que se decide numa cena final, apoteótica como é costume, de combate desigual entre Potter e os amigos contra o vilão e os seus acólitos. Contra as leis do mundo em que vivemos, uma vez mais, Potter sai vencedor e descobre (o que constitui uma descoberta traumática que estruturará não só a sua personalidade em formação mas também os últimos dois livros da saga)... descobre que uma profecia revelava o seu futuro e que esse futuro, como todo o futuro que é revelado, é irrecusável. Ou mata Voldemort, o vilão, ou morre às suas mãos. O livro termina com a dura consciência dessa inevitabilidade e nada poderia ser mais brutal. Ou morre às mãos de uma sombra que é a encarnação de todo o mal humano ou torna-se um assassino para se salvar. A somar a esta revelação, não posso esquecer, a morte de Sirius Black, o pai adoptivo do rapaz. E a propósito, chega a parecer cruel este encarniçamento constante em que a autora coloca à prova Harry, deitando sobre ele tragédia atrás de fracasso, drama sobre drama. A um ponto que chega a parecer inverosímil que alguem possa simplesmente sobreviver a tanta adversidade.

Uma das passagens mais pungentes aparece-nos nas últimas páginas, quando Harry, não desistindo de contactar Sirius, se lembra de falar com Nick-quase-sem-cabeça. O que sabe um fantasma sobre a morte, de que modo o poderá ajudar? Mas a morte é mais misteriosa do que parece e até mesmo um fantasma pode ignorar toda a dimensão do seu mistério. São verdadeiramente belas as palavras do fantasma que reconhece que teve tanto medo do que a morte tem para oferecer que resolveu ficar para trás. E que melancolia inesperada encontramos nas suas palavras?! Aqui fica esse excerto do romance.

"- Ele não vai regressar - reiterou Nick. - Ele terá... seguido em frente.
- Que queres tu dizer com "seguir em frente"? - apressou-se Harry a perguntar. - Seguir em frente para onde? Escuta, afinal o que é que acontece quando se morre? Para onde se vai? Por que é que nem toda a gente regressa? Por que é que este sítio não está cheio de fantasmas? Por que...?
- Não te posso responder a isso - disse Nick.
- Tu estás morto, não é verdade? - insistiu Harry exasperado. - Quem melhor que tu poderá responder?
- Eu tive medo da morte - explicou Nick delicadamente. - Escolhi ficar para trás. Em certas ocasiões, pergunto-me se não teria feito melhor... bem, isto é irelevante... na realidade, eu nem estou lá nem cá... - Soltou uma gargalhada triste e abafada. - Harry, eu não sei nada a respeito dos segredos da morte, porque em vez dela escolhi uma fraca imitação da vida."

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