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quarta-feira, julho 28, 2004

Epifania da cidade de Lisboa 

Abraham Levy Lima

O que é? Talvez uma apreensão intuitiva da realidade ou de uma perspectiva da realidade por via de um acontecimento inesperado, simples e banal; uma palavra, um gesto, uma configuração que não se repetirá. Ou como Joyce dizia: "Essa súbita manifestação espiritual, revelada na vulgaridade da fala corrente, num gesto ou numa fase memorável do próprio espírito." Sempre estive atento a esses momentos singulares que não se repetem; quanto muito aludem-se na vasta teia dos acontecimentos futuros sem que despertem já o entusiasmo da descoberta da primeira vez.
Durante muitos anos corria aos sábados para Lisboa onde comprava a edição semanal (de Domingo) do El País. Era um ritual, noutras alturas também com um desvio para os lados da Rua do Alecrim, onde comprava sempre alguns livros usados, no meu alfarrabista. Mas o que não falhava mesmo era a passagem pela Tabacaria Continental, onde me guardavam o jornal. E depois ao lado o café banal, onde lia as primeiras notícias de uma edição já com uma semana de vida. Foram anos e anos assim. O Miguel começou a acompanhar-me desde muito cedo (o hábito vinha de antes de ele nascer) e assim continuou. Sábado após sábado, com a breve interrupção durante o mês de Agosto, altura em que provavelmente iamos até Espanha. O jornal era a nossa leitura semanal e ainda hoje guardamos centenas de revistas; fazem parte da nossa biografia, com os seus títulos e matérias quase sempre inesperados (lembro-me do escândalo de "Porca Italia").
Mas as epifanias... Têm pouco a ver com o jornal. Sempre que viajava a Lisboa com esta disponibilidade de espírito, num sábado de manhã, soalheiro, com algum tempo livre, era uma revelação. A luz de Lisboa e os múltiplos imponderáveis de uma cidade que parece propícia aos devaneios permitiam-me ver coisas. Regressava sempre com uma história, com a narração de um acontecimento inverosímil. Nunca me desiludiu. A cidade oferece sempre a quem procura, um lugar onde essas coisas acontecem. Epifanias, momentos raros em que a nossa sensiblidade entra numa sintonia inesperada com o inverosímil poético. Há um desvão da realidade imediatamente visível, um lugar onde tudo pode ocorrer num segundo. Conservo desses momentos uma recordação grata, não da visão súbita mas do prazer imenso que essa sintonia com o poético da situação me trazia. Era um transporte, como diriam os românticos.
Conto apenas a mais simples de relatar, provavelmente a mais decepcionante para quem esperaria milagres. Numa das vezes que me dirigia à Tabacaria Continental (esqueci-me de falar do Martinho) passei ao largo do Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Recordo-me então de ter visto um cartaz a anunciar a mais inesperada, inversosímil e nunca vista exposição, uma exposição de pintura (creio). Uma exposição consagrada ao tema "Dívida Externa e Arte". Não voltei a ver nada igual. A não ser talvez naquele dia em que me cruzei sob as arcadas da praça com Hans Jurgen Syberberg e Edith Clever. Segui-os discretamente durante longos minutos enquanto procuravam nervosamente um restaurante para almoçar. Enquanto percorriam as ruas da baixa - Syberberg conduzido por uma impetuosa actriz que seguia um passo sempre adiante - observei como caminhavam, como gesticulavam e se perdiam numa cidade que não os conhecia. Vagueavam ambos sós, cada um por si, já sem a eloquência do mito que antes os rodeara.

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