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terça-feira, julho 20, 2004

Encontros e (Des)Encantos da língua que "todos" FALA/mos... 

Peço desculpa mas o título deste post é propositadamente aquilo que parece; segue a moda revivalista de uma escrita cheia de rodriguinhos (com aspas, sem aspas?), que lança mão de todos os recursos da sinalética ortográfica para criar efeitos e ecos, que abusa dos trocadilhos fora de propósito e da decomposição silábica das palavras, com parêntesis, com barras, que usa as aspas como expressão do pudor semântico que ataca muito bom falante politicamente correcto, e tudo para criar uma espécie de novilíngua em que o português de origem sai irreconhecível e aos solavancos.
Pertenço a uma geração que conviveu penosamente com esse idiolecto gráfico e se debateu para não tropeçar nas barras inesperadas ( / ) que manifestam uma oposição entre dois termos, para não se enredar no sentido de aspas (" ") que se cravam nas palavras mais inócuas com vista a atenuar o seu efeito denotativo, para não escorregar nas reticências (...) que trazem dramatismo ao texto e o deixam para sempre suspenso. Os recursos dessa novilíngua politicamente correcta de matriz transgressora são numerosos e acabam sempre constituindo um obstáculo à leitura. É isso que acontece afinal: uma parafernália de sinais daninhos que inibem a possibilidade da leitura linear de um texto, sem qualquer maisvalia para a interpretação. O meu título procura parodiar esse efeito mas reconheço que fica aquém do objecto da minha paródia.
O que há de comum aos utilizadores deste idiolecto gráfico é a pretensão de que o sentido implícito de um texto se constitui pela transgressão das regras ortográficas e pelas clivagens, suspensões, gradações e aliterações entre as palavras de uma mesma frase.
(Des)Encantos é um termo ou dois termos, consoante a minha leitura e a sua aparente contiguidade mantém a ambiguidade. O plural é outro recurso deste idiolecto, abrindo um espaço de indefinição e de indeterminação sobre o enunciado. As aspas (" ") são um dos fetiches mais recorrentes. A sua função é a de gradualizar difusamente o sentido de um termo ou de significar apenas um dos seus sentidos laterais. Os falantes deste dialecto reforçam frequentemente o uso das aspas (" ") , com uma gestuália própria, elevando ambas as mãos à altura da cabeça e dobrando ao mesmo tempo os dedos médio e indicador de cada uma delas, enquanto o polegar trava o anelar. Como se fosse possível suspender no éter, por instantes, a palavra que queremos marcar com esse sinal ortográfico. As aspas (" ") relativizam o significado de uma palavra, atenuam os seus contornos, reorientam a sua energia e o discurso faz que diz mas, efectivamente, não diz. Faz que significa mas não significa. É o triunfo da ambiguidade. As aspas (" ") suspendem a força de uma palavra que surge no discurso, no sentido da relatividade do sentido. Neste idiolecto as aspas (" ") podem até operar uma inversão no significado da palavra. Depende...
O resultado desta parafernália diabólica de sinais que rasgam o discurso e o martirizam sem cessar é a mais perfeita ambiguidade.
Folheio a revista heterodoxa Fenda (In) Finda publicada pela Fenda Editores em Janeiro de 1983. É um objecto de combate com textos sobre o discurso poético e a asumpção da identidade homosexual num contexto de intervenção política. Cito uma breve passagem do artigo de Fernando Cascais (meu colega na secundária de Cacilhas durante brevíssimo tempo antes de ir para a Universidade Nova), "Como quem não quer a coisa". No parágrafo intitulado Por um Discurso das Homossexualidades, escreve o autor, no que é, afinal, um débil exemplo do que tenho dito atrás: "É um movimento do desejo. E aí radicam as palavras que o exprimem, que exprimem o seu vivido, - um discurso do(s) sexo(s), do desejo e dos desejos, da(s) homossexualidade(s), embora possa ser, e sem dúvida que o é, atravessado pelas políticas..."
No Posfácio da revista A. Diogo escreve que "a "vanguarda" dilacerada que não acaba de acabar-se naquele gesto a se querer decisivo, (re)começa no retorno, ficção de História escrita (citação de maiúsculas), - por impossibilidade. Tirem a impossibilidade ao agente e terão uma verdade no "mundo"."  Está aqui quase tudo.
Mas há muito pior, quer no discurso oral, cheio de falsos matizes, de avanços e de recuos, quer na escrita que multiplica as variantes da leitura até ao ponto em que já não nos resta nenhuma afirmação com valor judicativo.
Um dia passei os olhos pela capa de um livro (recordo-me do local, creio que numa livraria da baixa). Era de poesia, brilhava só porque parecia forrado a alumínio. A autora era uma poetisa desconhecida de que não vale a pena recordar-me. O título do livro era do mais kitshc que se pode esperar. Chamava-se (mas é para ser visto e não apenas lido):
Lágri-
           Mas
 
O ridículo, já sabemos há muito, não mata. Ao contrário,  perdura no tempo.

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