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sexta-feira, julho 09, 2004

A cultura do lazer, livros, praia e sexo sem compromisso 

É esta, na minha leitura, a proposta do catálogo da Fnac. Não resisto à leitura destes silly papers, a que ninguém atribui dignidade literária, à entrada da sempre celebrada silly season. Trouxe da livraria do Forum de Almada o catálogo de Verão: "Fnac, a cultura do lazer - Uma proposta Fnac para tirar o máximo partido das suas férias." No interior, à maneira de prefácio, o autor anónimo escreveu: "É chegado o Verão. Tempo de lazer e descanso.Tempo de cuidar de si, de dar férias ao corpo e à mente. A Fnac sabe que está demasiado ocupado a pensar naquilo que vai fazer com o seu tempo livre, por isso, damos-lhe uma ajuda. (...) A melhor selecção de cultura e entretenimento, para fazer brilhar ainda mais o Sol do seu Verão."

Chegou o Verão e é preciso preenchê-lo, porque todos temos verdadeiro horror ao vazio à entrada de Agosto. Mas o que me inspirou foi o rosto do catálogo. Parece uma citação muito vulgar das gravuras de Jorge Colombo, onde sempre somos levados à surpresa de um cenário vivo, levemente suspenso do nosso olhar, antes de cada um dos personagens seguir o seu movimento para fora do quadro. São imagens densas, representações de representações, paródias muito afectuosas de uma realidade desejada, imensamente feliz, que só é possível imaginar em desenho.
A gravura do catálogo não é tão estimulante, já que falo de Colombo, mas por uma associação imprudente acabou por vir à colação. E o que representa a gravura? Uma vulgar cena de praia. Na tranquilidade de um nicho protegido por um pequeno biombo uma jovem morena, flor no cabelo, reclinada na areia, parece adormecida na leitura de um livro, talvez aquele em que William Gibson inventa um universo hipertecnológico muito convincente (Neuromante, Gradiva). Ligeiramente ao lado uma jovem loura, sentada, dois seios "comme des fruits", atende o telemóvel triband para cobertura global com um grande display a cores. Ao alcance da mão um pequeno portátil aberto com o teclado à vista. Em frente um leitor de CD portátil, provavelmente compatível com MP3, CD-R/ RW, etc, com visor em LCD, com função Bass Boost para realçar os sons graves. Em posição frontal, de T-shirt e calções, um jovem sentado na areia parece fechar os olhos apenas por um instante. À distância, para ganhar perspectiva, outro jovem balnear segura uma máquina fotográfica digital com um novo processador CxProcessll que equilibra vários factores fundamentais e prepara-se para disparar. Está lá tudo citado, ainda que numa ficção sem espessura: o tempo que corre com lentidão, o mar azul em fundo, a areia, o sol e a sombra, os corpos e a sua promessa de um Agosto sem compromissos. Um Agosto que pudesse durar sempre.

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