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quinta-feira, julho 08, 2004

Congresso Nacional de Cuidados Paliativos 

É um vício (voltarei a este tópico), passar junto de um balcão de qualquer serviço público e verificar se há alguma literatura para levar de graça. Algum folheto sobre o calendário fiscal, farmácias de serviço, publicidade a actividades de tempos livres e campos de férias, a agenda de Almada, o Jornal da Região ou outra informação autárquica de consumo rápido. Excluo, naturalmente, a publicidade a pizzas e fast-food, a não ser que algum detalhe me chame a atenção. Mas a variedade é imensa, apesar de raramente merecer uma leitura além da circunstância. Ontem passei pelo balcão do Hospital e vi um opúsculo sobre o Congresso de Cuidados Paliativos, que terá lugar em meados de Novembro na Fundação Gulbenkian. Chamou-me a atenção o cuidado bi-lingue de se anunciar que se trata apenas do Programa Provisório/ Preliminary Program. Pareceu-me que tanto escrúpulo aconselhava uma leitura atenta.

A medicina interessa-me a vários títulos. Como paciente regular não falo, é história para outros posts. Interessa-me como observador. Tenho percebido nos últimos meses que a medicina é a mais espantosa diligência feita pelo homem para abarcar a totalidade da condição humana, na perspectiva dos cuidados de apoio à vida. A asserção pode facilmente derivar para a obviedade. Mas a quantidade de perspectivas e de enfoques que encontramos dão-nos a ideia de uma área de estudo, de investigação e de serviço virtualmente inesgotável e em progresso contínuo.
Interessou-me a ideia de um congresso sobre os cuidados paliativos. Abri o programa feito com simplicidade e esmero e li. Detive-me nos títulos das comunicações e confirmei uma vez mais que no programa de um congresso a palavra "café" é sempre repetida várias vezes, nomeadamente entre as intervenções, em que "coffee break" traduz literalmente a palavra "Intervalo". Depois concentrei-me, agora sim, nos títulos. E surpreendi-me com a profundidade dos temas e das visões. Há, naturalmente, as aportações técnicas ou de natureza organizacional: "Utilização de opióides no controlo sintomático" ou "Organização de serviços dos cuidados Paliativos". Um dos Workshops é dedicado às "Aptidões de comunicação em cuidados paliativos", outro ao Voluntariado. Uma das comunicações finais é sobre a Ética, com o título de "Desafios éticos em Cuidados Paliativos", abordando questões tão refinadas e complexas como a "Futilidade e qualidade dos Cuidados Paliativos" ou "Sedação paliativa: o mesmo que eutanásia?" Mas o que mais me impressionou foram as workshops da tarde do primeiro dia: "Apoio no Luto", "Espiritualidade e Dignidade no fim da vida", "Apoio à Família do doente terminal". No final do segundo dia, depois do Coffee Break uma conferência por Dr. John Ellershaw de Inglaterra: "Cuidados na Agonia: os protocolos aplicam-se?" Em inglês o título da comunicação encerra ainda maior dramatismo: "Last days and hours: are protocols usefull?" Afinal, é o comentário que me ocorre lendo este programa de um refinamento quase literário, a medicina não se resume (e já seria muito) a uma portentosa empresa tecnológica que encara o homem como um organismo muito complexo submetido a padrões reconhecíveis. É mais, sempre muito mais.
Posters e comunicações livres também estão previstos, de acordo com regras estritas.

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