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terça-feira, julho 27, 2004

Cenas da vida quotidiana em Jerusalém 



Li há dias de um fôlego o relato de Danièle Cohn, Coisas Vistas, Coisas Ouvidas. Trata-se de um texto breve, organizado como um diário de viagem, escrito entre 15 e 27 de Abril de 2002, durante a visita da autora a Israel. O texto vem publicado como epílogo de Impasses, o livro polémico de Fernando Gil e Paulo Tunhas, com a chancela das Publicações Europa-América.
Danièle Cohn é uma judia francesa, que permanece em França, apesar das dúvidas que revela acerca do seu sentido de pertença. É uma mulher de esquerda, no sentido europeu, mas que sente inexoravelmente o apelo da criação do estado de Israel. As suas palavras são quase sempre de indignação e de perplexidade. Não compreende a atitude da europa e sobretudo da esquerda europeia em face do drama israelo-palestianiano, sempre lido à luz de um preconceito anti-sionista. Lamenta o fracasso dos acordos de Oslo, quando tudo parecia caminhar no sentido da paz e da reconciliação entre os dois povos. Indignada com a parcialidade da europa e com a duplicidade de Yasser Arafat (a quem chama presidente Arafat) e perplexa com o futuro de um estado que luta pela sua sobrevivência, rodeado de estados hostis.
O relato de Danièle Cohn é fascinante porque revela uma dor enquanto late, uma dor sincera, num oceano de tragédia e desumanidade. As suas palavras revelam um quotidiano sitiado mas a que não são alheias uma certa urbanidade e uma mundividência cosmopolita. O problema israelo-palestiano é demasiado complexo para poder resolver-se num relato propositadamente subjectivo, admiravelmente sensível, mas as palavras da autora são um convite. A que olhemos e pensemos sem reserva mental para onde é preciso olhar com muitos olhos. É impossível não ficar também um pouco perplexo com a pergunta que Danièle Cohn nos coloca, quando recorda e comenta uma discussão política entre amigos: "Deverá Israel ser o único Estado do mundo a agir segundo a crítica da razão prática? O que é um estado moral? Com que direito se exige tudo isso a israel, e não aos outros estados?" (p. 260)
O debate e os combates continuam.

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