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segunda-feira, julho 19, 2004

BMEzine (revista sobre as modificações do corpo) 

Veio na Pública de ontem (é espantoso como uma má revista tem tanta coisa de que vale a pena falar) mas só esta manhã, na minha excursão matinal ao Figuras, reparei no detalhe. Num texto breve da secção manias, que vem logo depois da secção da saúde Dulce Neto escreve sobre a moda, à maneira de um piercing, de implantar pequenas jóias de platina, com 3,5 mm, no interior do globo ocular. Na verdade as pequenas peças em forma de coração ou de estrela são implantadas na conjuntiva, que é uma "membrana mucosa que cobre o globo ocular e o une às pálpebras". Cirurgia breve de 15 minutos, pós-operatório à base de gotas de antibiótico e 500 a 1000 € depois, já está feito o implante, digamos o piercing ocular.
A ideia é interessante, desde um ponto de vista estritamente ficcional, de resto arrepia-me. Um dia, quem sabe, serão implantados não objectos com uma função meramente estética mas chips para permitir viver em permanência ou em regime on demand num desvio da realidade à nossa escolha. Ver o que não existe, viver dentro dessa realidade inócua e abstracta, numa deriva para a aventura e para o exotismo, sem perder os últimos contactos protocolares com a realidade de partida, pode ser a grande alternativa do futuro, o grande negócio. Não será preciso então provocar artificilamente (e à margem da lei) a alteração dos estados de consciência - bastará alterar a realidade.
Mas o que me chamou a atenção foi um pormenor, apenas isso. O artigo referia-se a uma revista de referência na área das modificações do corpo, a BMEzine. Comecei por achar alguma graça ao nome (BMEzine), porque é praticamente igual à revista da nossa Biblioteca - já que designamos ambas (revista e biblioteca) por BME. Claro que pertencem a tribos bem diferentes, a dois hemisférios opostos. A nossa BME é uma newsletter bem intencionada (temporariamente suspensa mas que anseio por retomar) que fala de livros e das leituras. A BMEzine é uma revista electrónica que explora todas as vertentes e dimensões das práticas modernas de transfiguração do corpo. Do piercing à tatuagem, a outras formas altamente transgressoras de acção sobre o corpo. Vale a pena visitar o sítio, mas cuidado, não é para espíritos facilmente impressionáveis. As imagens que ilustram profusamente todas estas práticas são de puro realismo: qualquer coisa entre a exibição escatológica do corpo e o manual de anatomia comparada. Para quem não soubesse ainda fica, depois da visita, a ideia de que há muitas formas de habitar o corpo e de construir a identidade. Há muitas formas de ser humano, para dizê-lo com simplicidade.
Mesmo quando filosoficamente estas práticas (que não são uma invenção contemporânea) apontam mais radicalmente para uma alteração estrutural do próprio organismo e do ser humano, no que poderemos considerar uma espécie de utopia transhumanista, ainda falamos de uma visão do homem e da condição humana. Sugiro que entrem directamente na enciclopédia da revista - BME Encyclopedia - e leiam o artigo sobre Transhumanism. Não posso deixar de citar aqui uma parte desse texto que me coloca as maiores dúvidas e perplexidades acerca da transformação do corpo; mas enfim, é para isso que serve uma enciclopédia. Ser mais do que humano é um dos caminhos do pensamento de Nietzsche e provavelmente um dos pontos de fuga da sociedade hipertecnológica que os visionários da actualidade já antecipam há muito tempo. É por isso que tenho de comprar o Neuromante de William Gibson.

Aqui fica a citação prometida:
"Transhumanism, when boiled down to its essence, is the philosophy and pursuit of becoming more than human. The philosophy extends from the basic observation that humans are conscious of themselves, and are therefore capable of directing their own evolution. Indeed, some adherents go so far as to say that we have the responsibility to do so, since traditional evolutionary selection pressures (environmental factors that cause certain traits to become useful for survival) no longer apply to us. That is, because we do everything in our power to care for the weak, the sick, and the infirm, and because we consider it a basic human right to have children, we are no longer evolving along a positive path. Thus, we must technologically direct our evolution in such a way that the species continues improving.
A small, but significant, minority in the body modification community sees body modification as the first steps in transhumanism. The connection is easy to see: in casting off the genetically-mandated exterior form of a standard human, we are breaking our minds of the belief that a human must look a certain way. Once the body of a human is modifiable for aesthetic reasons not tied to spirituality or tradition, it is possible to begin to modify that body in hopes of improving it.
"

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