<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, julho 12, 2004

Atira-te ao Rio! 

A imagem não é sempre assim, desde a margem do rio, com Lisboa à vista, e na verdade não é de todo assim como aparece. Daqui vê-se (quase) o Ginjal, Porto Brandão, a Trafaria ao fundo, mas do Ginjal vê-se Lisboa como de nenhum outro sítio. O ambiente, ao fim de tarde, com o sol a descer melancolicamente, é todavia este mesmo.
O Paulo passou por aqui expressamente para me levar até lá. Ficámos a aquecer ao sol, com a cidade ao longe, o rio ali a passos da nossa mesa. Há muito tempo que não ficava no Atira-te ao Rio! a ver as ondas.
Quero acrescentar mais duas coisas a este post que declina, duas coisas muito belas: ontem o Público ofereceu aos leitores uma edição especial do Mil Folhas em homenagem a Sophia de Mello Breyner. Quase trinta páginas de poemas inéditos, textos evocativos, fotos, memórias e a imagem da última página do dossier. Sophia está sentada no jardim da casa da travessa das Mónicas, na Graça, a uma mesa de ferro pintada de branco. Os braços estão cruzados em descanso mas a mão direita levanta um cigarro meio fumado, preso entre os dedos. O cabelo é levemente dourado pelos anos e a toda a volta o cenário de verde parece formar docemente uma auréola de santidade e beleza em torno de Sophia. Duas cadeiras ao lado estão abandonadas, perdidas no cenário. Sobre a mesa de ferro forjado está uma chávena de chá ainda não tocada e quase ao centro vê-se um livro aberto cujas páginas parecem amarrotadas pelo vento e pela leitura veemente. Sophia não olha directamente, não observa, não desvia o olhar nem está distraída, apenas medita serenamente. E isso não sai na fotografia. Acabava de receber a notícia do Prémio Camões. E isto é muito belo.
Depois outra coisa imensamente bela, porque as coisas belas são incontáveis. Um quadro de Abel Manta (1886-19829) que representa a Almada Velha e a zona do Ginjal, com Lisboa ao longe. Simples como o rio. Melhor do que a minha memória difusa e precária, quase tão belo como uma tarde passada com um amigo junto ao rio.

Comments: Enviar um comentário