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quinta-feira, julho 15, 2004

A Arte do Jaleo (dizer "Olé!"... no momento certo) 



O jaleo flamenco exige um tempo certo e não é mero aplauso de satisfação do público que assiste à celebração. O jaleo faz parte da circunstância do canto e do baile, não pode ser uma vozearia permanente nem deve desbaratar a interpretação do artista. Há um jaleo que é mera exibição pública e que mascara a ignorância do tema com a bravata sentimental. E há quem respeite o intérprete e o ajude a subir pela expressão acima até que a voz desata o seu nó e finalmente é possível dar alento ao cantor para continuar. Isso é o jaleo tal como ele é praticado entre os crentes.

Falo disto porque ontem falou-se e praticou-se o jaleo num dos momentos do programa de Jesus Quintero no canal Sur-Andalucia (o 31 da cabovisão), nomeadamente quando Las Ketchup esboçavam algumas das suas interpretações do novo disco. Uma das raparigas da grande família Tomate de Córdova (o pai, Juan Muñoz, guitarrista flamenco e pai de guitarristas, é conhecido como el Tomate e elas como las Hijas del Tomate) perguntou-lhe se ele sabia dizer "Olé!" no momento certo. Quintero pediu-lhes que cantassem um pouco e ele provaria que sim. E houve jaleo justo e sério, daquele que por instantes funde a atenção do ouvinte com a tensão do intérprete, que faz do assistente um participante no canto.
Também volto sempre aos programas de Jesus Quintero, desde que há imensos anos ficava desperto para ouvir (já de madrugada) na Radio Nacional de España "El Loco de la Colina". Vi uma vez fugazmente o seu autor a entrar num hotel de Sevilla, vestido de branco, como quem vive um absorvente romance místico consigo próprio. Não é o meu estilo. E quando passava pela calle Placentines, à vista da catedral, lá ia colar os olhos aos vidros do café de Quintero (cafe Placentines) para observar o interior com os seus cadeirões forrados de um intenso veludo vermelho. Agora sou fiel às entrevistas hiperbólicas onde nunca faz duas perguntas iguais (porque os interlocutores são diferentes e têm direito às suas perguntas), num dos programas que ficou para a história do canal, Ratones Coloraos.
- Olé!

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