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domingo, julho 18, 2004

Acredite se quiser... 

A nossa capacidade de acreditar é ilimitada e frequentemente acreditamos tanto mais quanto mais ignoramos. Como a nossa ignorância, num mundo tão complexo como aquele que nos foi dado habitar, também não tem limites, há quem acredite em tudo... e no seu contrário também.
A Pública tem hoje uma matéria daquelas que enchem páginas de jornais e revistas durante a dura época estival. Fala dos OVNIS (à portuguesa, evidentemente) e diz na capa que "eles nos visitam e raptam". Claro que o enunciado, mesmo na capa da revista, não vincula o autor da reportagem ao seu conteúdo fantasioso. É uma forma de dizer, uma blague do género daquelas que dizemos na esplanada para passar o tempo. Lá dentro um primeiro texto fraquinho sobre uma associação que estuda a "fenomenologia" ovni (Husserl teria previsto esta apropriação hilariante do conceito?), a APO (Associação de Pesquisa Ovni) composta por algumas pessoas que fazem noitadas à procura de vestígios no céu da passagem dos discos voadores e das varetas (sic). Tal como se fala do assunto a associação (desculpem lá a má vontade) parece qualquer coisa a meio caminho entre uma forma de terapia de grupo e um pretexto para fugir à família, uma vez que também faz trabalho de campo. Não sei se me explico. E no entanto quanta boa intenção...

Penoso e a gente a ver logo que é um caso clínico é o depoimento de uma rapariga que está convencida por uns sinais e umas borbulhas no corpo que foi raptada pelos extraterrestres uma dúzia de vezes. O texto da Pública é francamente débil mas a realidade portuguesa não é rica (digo eu) em grandes casos de abducção como nos estados unidos onde algumas estatísticas bastante exageradas asseguram que quase 10% do povo americano acredita que foi vítima desse procedimento. Se não é 10% é 9 ou 8, dá igual, quando se trata de exagero. O enredo da entrevista é tão pouco substancial como interessante acerca do modo como cada um de nós decide construir a sua narrativa pessoal e contá-la aos outros. A história que cada um de nós conta sobre a sua vida é um facto daquilo a que procuramos dar um sentido. Por isso a história bem lida revela muito mais do que o seu autor pretendia à partida.
Não me perco com os detalhes de quem acredita que foi escolhida para representar a espécie junto dos ET's, isso é uma questão pessoal, de fé. Cada um de nós acredita firmemente naquilo que lhe dá um sentido para a vida e que a faz valer a pena ser vivida. Mas não nos peçam que acreditemos uns nos outros. Frequentemente é difícil compreender qual é verdadeiramente o lugar da realidade na nossa vida.

Vem isto a propósito de ter dado há meia hora com o céu sobre lisboa. É um bom título de blogue, que cita o famoso filme de Wenders rodado em Berlim, imeditamente antes do muro cair. O seu autor apresenta-o como uma "autobiofotonovela urbana" e a sensibilidade afinada de quem olha a cidade com profundidade e abertura poética transparece em todos os posts. Com data de ontem podemos encontrar o fac-simile das páginas de um jornal da década de 90 (creio), o Notícias do Mundo . Um jornal que só publicava notícias falsas, à revelia de qualquer verosimilhança. Quase sempre com uma ponta de humor ou de malícia. Algumas manchetes e títulos de artigos:
O Monstro do Lago Ness morreu
O Ataque dos peixes sodomitas
Morreu o famoso homem que comia máquinas fotográficas
Esta mulher beija o chão que ele pisa
Um extraterrestre transformou-o numa barata 

Alguns anos depois a fantasia já não é o que era. Depois veio a net e tudo o que mudou a nossa forma de duvidarmos da realidade tal como ela nos aparece.
Ah, visitem a autobiofotonovela. Eu voltarei.

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