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quinta-feira, julho 29, 2004

O Guia do Departamento (e o outro) 

Foi a minha leitura da manhã, na esplanada, no fio do vento que parece ter suavizado a temperatura dos últimos dias. Ou então não percebo nada de meteorologia, o que, aliás, é o caso. Refiro-me ao Guia do Departamento de Filosofia, para o ano lectivo de 2004/ 2005, publicado e distribuído gratuitamente na Faculdade de Letras pelo próprio Departamento. Gostei de reencontrar os nomes dos professores (o corpo docente é bastante estável), a nomenclatura actualizada das cadeiras, as variantes, afinal todo um léxico novo que não existia quando fiz o curso.  As DB (disciplinas básicas), as DE (específicas) e as DO (opcionais), as UC (unidades de crédito), os/as ECTS... O Guia está muito bem concebido. Primeiro um breve texto introdutório ("O Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa"), depois a lista dos Orgãos do Departamento e a lista do Corpo Docente. Cada professor é apresentado pelo título académico e por uma pequena mas completa nota sobre as àreas de especialização, sobre o seu percurso científico, títulos académicos, obra publicada. Todos os profesores, à excepção de um apenas, indicam o seu endereço electrónico. Parte substancial do guia é preenchido com a descrição do Plano de estudos da Licenciatura, do Mestrado e do Doutoramento. Todos os dados numa linguagem acessível, despida de retórica, francamente legível.
Num ano remoto, provavelmente durante o mês de Julho, passei horas a percorrer as bibliotecas e os departamentos da Faculdade para incluir informações detalhadas no Guia que se começou a publicar na altura. No início do ano lectivo sairia uma brochura com todos os programas das cadeiras de então e muitos outros dados complementares. O livrinho era vendido na secretaria, para minorar os custos da impressão e montagem, que terá tido lugar, ao que me lembro, na Colibri do Mão de Ferro. Há um incidente associado à publicação do Guia, nomeadamente ao seu preço de venda. Mas para quê falar disso agora?

Rua da Judiaria apela contra genocídio de Darfur 

É fácil permanecer indiferente aos apelos como este. Basta não ligar, pensar que não adianta nada. Li esta mensagem do Nuno Guerreiro sobre o genocídio do Sudão e resolvi reproduzi-la aqui, correspondendo ao pedido impessoal do seu autor. Na Rua da Judiaria é possível encontrar mais informação. Pode ser que...

"Caros amigos,

Antes de mais peço que me desculpem o caracter algo impessoal deste email, mas esta foi a forma mais prática que encontrei de fazer chegar a mensagem ao maior número possível de pessoas.
O meu apelo é simples: peço-vos que usem os vossos blogs para quebrar o silêncio e a indiferença em relação ao genocídio que decorre em Darfur. Peço-vos que escrevam um post sobre Darfur. Um simples post. Que publiquem um poema, uma foto ou uma imagem.
Cerca de 150 mil pessoas foram já assassinadas ou mortas à forme, vítimas de um conflito que continua a ser invisível para a generalidade da opinião pública.
A blogosfera demonstrou já por diversas vezes a sua capacidade de mobilização e sensibilização. Pode ser muito pouco, pode até ser verdade que individualmente todos os nossos esforços possam valer quase nada. Mas o preço do silêncio é demasiado elevado quando temos diante de nós um meio de comunicação com um potencial tão elevado.
Escrevi na sexta-feira um post sobre o genocídio em Darfur, no fim do qual recolhi uma série de links que podem ser utilizados como pontos para referência futura.
Gostaria de deixar claro que, com esta mensagem, não estou a pedir que façam referência ou que linkem o que escrevi. Este email não tem como objectivo conseguir mais links para a Rua da Judiaria, mas somente apelar para que não fiquem indiferentes."

quarta-feira, julho 28, 2004

Epifania da cidade de Lisboa 

Abraham Levy Lima

O que é? Talvez uma apreensão intuitiva da realidade ou de uma perspectiva da realidade por via de um acontecimento inesperado, simples e banal; uma palavra, um gesto, uma configuração que não se repetirá. Ou como Joyce dizia: "Essa súbita manifestação espiritual, revelada na vulgaridade da fala corrente, num gesto ou numa fase memorável do próprio espírito." Sempre estive atento a esses momentos singulares que não se repetem; quanto muito aludem-se na vasta teia dos acontecimentos futuros sem que despertem já o entusiasmo da descoberta da primeira vez.
Durante muitos anos corria aos sábados para Lisboa onde comprava a edição semanal (de Domingo) do El País. Era um ritual, noutras alturas também com um desvio para os lados da Rua do Alecrim, onde comprava sempre alguns livros usados, no meu alfarrabista. Mas o que não falhava mesmo era a passagem pela Tabacaria Continental, onde me guardavam o jornal. E depois ao lado o café banal, onde lia as primeiras notícias de uma edição já com uma semana de vida. Foram anos e anos assim. O Miguel começou a acompanhar-me desde muito cedo (o hábito vinha de antes de ele nascer) e assim continuou. Sábado após sábado, com a breve interrupção durante o mês de Agosto, altura em que provavelmente iamos até Espanha. O jornal era a nossa leitura semanal e ainda hoje guardamos centenas de revistas; fazem parte da nossa biografia, com os seus títulos e matérias quase sempre inesperados (lembro-me do escândalo de "Porca Italia").
Mas as epifanias... Têm pouco a ver com o jornal. Sempre que viajava a Lisboa com esta disponibilidade de espírito, num sábado de manhã, soalheiro, com algum tempo livre, era uma revelação. A luz de Lisboa e os múltiplos imponderáveis de uma cidade que parece propícia aos devaneios permitiam-me ver coisas. Regressava sempre com uma história, com a narração de um acontecimento inverosímil. Nunca me desiludiu. A cidade oferece sempre a quem procura, um lugar onde essas coisas acontecem. Epifanias, momentos raros em que a nossa sensiblidade entra numa sintonia inesperada com o inverosímil poético. Há um desvão da realidade imediatamente visível, um lugar onde tudo pode ocorrer num segundo. Conservo desses momentos uma recordação grata, não da visão súbita mas do prazer imenso que essa sintonia com o poético da situação me trazia. Era um transporte, como diriam os românticos.
Conto apenas a mais simples de relatar, provavelmente a mais decepcionante para quem esperaria milagres. Numa das vezes que me dirigia à Tabacaria Continental (esqueci-me de falar do Martinho) passei ao largo do Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Recordo-me então de ter visto um cartaz a anunciar a mais inesperada, inversosímil e nunca vista exposição, uma exposição de pintura (creio). Uma exposição consagrada ao tema "Dívida Externa e Arte". Não voltei a ver nada igual. A não ser talvez naquele dia em que me cruzei sob as arcadas da praça com Hans Jurgen Syberberg e Edith Clever. Segui-os discretamente durante longos minutos enquanto procuravam nervosamente um restaurante para almoçar. Enquanto percorriam as ruas da baixa - Syberberg conduzido por uma impetuosa actriz que seguia um passo sempre adiante - observei como caminhavam, como gesticulavam e se perdiam numa cidade que não os conhecia. Vagueavam ambos sós, cada um por si, já sem a eloquência do mito que antes os rodeara.

terça-feira, julho 27, 2004

Cenas da vida quotidiana em Jerusalém 



Li há dias de um fôlego o relato de Danièle Cohn, Coisas Vistas, Coisas Ouvidas. Trata-se de um texto breve, organizado como um diário de viagem, escrito entre 15 e 27 de Abril de 2002, durante a visita da autora a Israel. O texto vem publicado como epílogo de Impasses, o livro polémico de Fernando Gil e Paulo Tunhas, com a chancela das Publicações Europa-América.
Danièle Cohn é uma judia francesa, que permanece em França, apesar das dúvidas que revela acerca do seu sentido de pertença. É uma mulher de esquerda, no sentido europeu, mas que sente inexoravelmente o apelo da criação do estado de Israel. As suas palavras são quase sempre de indignação e de perplexidade. Não compreende a atitude da europa e sobretudo da esquerda europeia em face do drama israelo-palestianiano, sempre lido à luz de um preconceito anti-sionista. Lamenta o fracasso dos acordos de Oslo, quando tudo parecia caminhar no sentido da paz e da reconciliação entre os dois povos. Indignada com a parcialidade da europa e com a duplicidade de Yasser Arafat (a quem chama presidente Arafat) e perplexa com o futuro de um estado que luta pela sua sobrevivência, rodeado de estados hostis.
O relato de Danièle Cohn é fascinante porque revela uma dor enquanto late, uma dor sincera, num oceano de tragédia e desumanidade. As suas palavras revelam um quotidiano sitiado mas a que não são alheias uma certa urbanidade e uma mundividência cosmopolita. O problema israelo-palestiano é demasiado complexo para poder resolver-se num relato propositadamente subjectivo, admiravelmente sensível, mas as palavras da autora são um convite. A que olhemos e pensemos sem reserva mental para onde é preciso olhar com muitos olhos. É impossível não ficar também um pouco perplexo com a pergunta que Danièle Cohn nos coloca, quando recorda e comenta uma discussão política entre amigos: "Deverá Israel ser o único Estado do mundo a agir segundo a crítica da razão prática? O que é um estado moral? Com que direito se exige tudo isso a israel, e não aos outros estados?" (p. 260)
O debate e os combates continuam.

segunda-feira, julho 26, 2004

Em chamas 

"- Isto deixou-me o meu pai... Vim pr'áqui com seis meses!"
Disse o homem a chorar.

O politicamente correcto e vice versa 

É um dos lugares comuns da cultura actual, da nossa. Acusar alguém de ser politicamente correcto ou apenas insinuar isso, para embaraçar mais. Prometer que se vai fazer uma declaração politicamente incorrecta, para garantir à partida um bom auditório e uma boa recepção. Declarar, como se fosse a primeira vez na História, que o politicamente incorrecto é que é, nos tempos que correm, politicamente correcto.

Pessoalmente, fico de fora desta guerrilha semântica, onde nada é o que parece ser. O politicamente correcto é uma cultura que teve o seu tempo, como tudo e cujo lugar na história das ideias e das representações está por fazer. Hoje restam apenas as ruínas de um léxico saturado e impenetrável que já nada representa. Provavelmente esse movimento e essa mundividência recuperam a herança cultural dos anos 60, pelo menos nalguns aspectos, invertendo os protocolos da moral sexual, por exemplo, reagindo paradoxalmente aos conservadores anos 80 do século passado. Tal como o concebo, o politicamente correcto consistiu numa cultura retórica fundada em tópicos do pensamento igualitário e culturalista, basista e hedonista, apesar do moralismo implícito, enquadrados pela cultura ambientalista e pelas políticas de género, sempre à margem da prova do contraditório. Libertário e pós-moderno em política, conservador na moral sexual. Com múltiplas contradicções nunca resolvidas, pelo meio.
A linguagem característica do politicamente correcto procura neutralizar a visão perspectiva que toda a linguagem veicula acerca da realidade, abusando inevitavelmente dos eufemismos. Apenas conseguiu, por via de uma hiper-regulamentação de todos os actos privados fundar uma nova mundividência, uma nova perspectiva identificável sobre o mundo das coisas e das relações humanas.
O pensamento politicamento correcto começa por não ser pensamento em sentido preciso, apesar da sua natureza profundamente assertiva e judicativa. Supõe um amplo consenso cultural, relativista, à partida, justamente aquilo que seria suposto apenas alcançar no termo do debate. Supõe um critério de correcção, de adequação a um modelo prévio ao pensamento, à discussão. É politico porque politiza todos os actos privados de cada um de nós, ou seja, torna-os da esfera pública sem qualquer apelo e expõe esses actos ao juízo externo. É correcto porque exige a adequação prévia a um diktat.

Uma vez que o politicamente correcto constituiu sobretudo uma estratégia política de re-semantização da linguagem e uma ruptura pretensa com o paradigma ideológico dominante, foi necessário refazer os dicionários e vocabulários. Num dos muitos exemplos que podemos encontrar através de um motor de busca, encontrei estas palavras clarificadoras sobre o tema:
"É um modo de falar que supostamente não fere os sentimentos de pessoas pertencentes a grupos marginalizados ou desavantajados. Surgiu nos Estados Unidos, um país que tem uma longa tradição de defesa dos direitos humanos e, paradoxalmente, uma longa tradição de preconceitos.(...) Durante muito tempo tais preconceitos se expressaram na linguagem: um negro era um "nigger", um judeu, um "kike".(...) À medida, porém, que tais grupos fizeram valer seus direitos, o vocabulário teve de mudar. (...) Contudo, e como sói acontecer nestes casos, o pêndulo oscilou para o lado oposto, e o que era uma sadia reação ao preconceito tornou-se por vezes caricatural. As universidades são um cenário favorito para batalhas verbais, que por vezes chegam ao tribunal.(...) Muitos estabelecimentos de ensino superior têm manuais ensinando não apenas como falar sem ferir susceptibilidades, mas também como proceder em situações potencialmente perigosas.
O Politicamente Correto corresponde, pois, a um determinado cenário histórico. É a expressão da revolta de grupos marginalizados em busca do respeito que merecem; traduz séculos ou milênios de humilhação e de opressão sutil e brutal, quando não sanguinária. Que se revista de exagero é a penas compreensível. No futuro, o vocabulário Politicamente Correto será olhado como o testemunho, curioso talvez, de uma fase de rebelião contra o status quo."


Podemos encontrar alguns exemplos obviamente paródicos deste vocabulário PC aqui.

Ser politicamente correcto ou politicamente incorrecto são apenas formas hábeis de iludir a necessidade de pensar. E a verdade é que é preciso pensar, mesmo que seja contra a estabilidade das nossas representações.

Indignação no Aviz, mau ambiente na blogosfera 

Comecei já tarde a minha ronda diária pelos blogues. Alguns já estão de férias, o que deixa no ar a perspectiva de alguma melancolia. Veremos quem volta, depois do Verão. Passei pelo Aviz, de Francisco José Viegas. O "homem do grande norte" surpreendia-se, indignava-se. Recebeu de um amigo o link para um texto delirante, daqueles que acusam os judeus de tudo e mais alguma coisa, à excepção talvez (e daí não sei) das grandes manchas solares, do El Niño e do aquecimento global. "Este é um exemplo do delírio anti-semita de direita, num texto intitulado "A imprensa, os judeus, o rebanho de Panurgo" , - explica Francisco José Viegas.
Como em todo o delírio persecutório há qualquer coisa de compulsivo (e de contínuo encarniçamento) nestas manifestações da psicologia humana. O que é que se há-de fazer? A grande conspiração é um mecanismo diabólico que se autoalimenta, sem entropia, sem qualquer perda e sem verificação experimental. Quanto mais suspeita mais motivos há para elevar o grau da suspeita, e assim sucessivamente até onde se quiser ir, frequentemente parando apenas depois de ultrapassado o ridículo. Aliás, esse mecanismo da suspeita, que é estritamente ideológico, já foi deliciosamente explorado nas páginas do Dom Quixote (imaginem!). Com a vantagem para os de hoje de Cervantes ter um finíssimo sentido de humor e não acreditar de todo na ficção que nos oferece. Voltarei ao tema, num post futuro.
Basta ser um open mind e ter tempo de sobra; a blogosfera revela as suas surpresas para quem procura sem reservas seja o que for. Eu leio estes desvarios como ficções em roda livre, narrativas que perderam há muito qualquer perspectiva de um protocolo com a realidade. Não falam da realidade, falam apenas e nesse falar sem referente credível apenas denunciam o perfil vitimista de quem crê, lá no fundo, de que a realidade está a mais na sua desolada representação do mundo.

sábado, julho 24, 2004

A alegria do bibliotecário 

Era o bibliotecário da catedral de Santiago de Compostela, a cidade perfeita para se viver e para se morrer. Um clérigo dos antigos, numa sala interior, entre livros guardados dentro de armários austeros. Estuda, cataloga e conserva relíquias que nunca tocaremos. Sorria para a câmara da TVE, com evidente prazer, e dizia: "Imagine o que é estar frente ao código Calixtino todos os dias, ou ter nas mãos uma bula papal..."

sexta-feira, julho 23, 2004

E a Educação, senhores?! 

Estive a ver o Programa de Governo apresentado hoje na Assembleia da República, em mão, pelo Primeiro Ministro. Li o parágrafo relativo à Educação. Continuidade, exigência, contenção, algumas ideias piedosas, ideias gerais, algumas boas ideias. Mas o que conta é o que vem a seguir, o que fica por dizer no programa. Em todo o caso sugiro uma visita, a partir da página 186. Está em formato PDF. Copiei para aqui a parte que mais me interessa. Para entrar no Portal do Governo... e depois seguir daí para o Programa é só clicar e seguir a intuição. (Se o link não funcionar a culpa é deste governo)

IV- INVESTIR NA QUALIFICAÇÃO DOS PORTUGUESES
1 - Cultura
2 - Educação
3 - Ensino Superior
4 - Ciência e Inovação
5 - Sociedade da Informação e do Conhecimento
6 - Comunicação Social
7 - Juventude
8 - Desporto

 
2. EDUCAÇÃO
O futuro de Portugal está indissociavelmente ligado ao que de bom ou mau for realizado no plano da qualidade da educação e da formação. Promover o crescimento sustentado do país, com os desejados níveis de coesão e qualificação é um desafio que o Governo pretende ganhar.
Este desafio centra-se no domínio cultural, mas concretiza-se na afirmação cívica dos portugueses e na qualificação dos recursos humanos. Por isso, o Governo entende como decisiva a continuidade da opção estratégica de articulação entre as políticas de educação e formação.

Para tanto, o Governo irá:
- defender uma escola assente no respeito por valores como o trabalho, a disciplina, a exigência, o rigor e a competência, na busca da excelência;
- desenvolver políticas educativas que dêem respostas objectivas às necessidades de cada aluno, a fim de melhorar a sua educação e a sua formação, prosseguindo metas ambiciosas aferidas internacionalmente e combatendo assimetrias sociais e regionais;
- valorizar e fazer respeitar o estatuto do docente, prestigiar a profissão e consolidar as condições de estabilidade, motivação e de formação necessárias para ganhar os desafios de uma sociedade em constante mutação;
- continuar o desenvolvimento de uma cultura de avaliação das instituições, dos docentes, dos funcionários e dos alunos, que tenha consequências no seu desempenho e no desenvolvimento organizacional, profissional e humano.

Isto, apostando numa educação:
- com sentido de modernidade, que ajude a combater os atrasos estruturais e os bloqueios ao desenvolvimento da cultura científica;
- de responsabilidade, em que cada agente assuma o papel que lhe é devido no desenvolvimento da sua actividade e na afirmação da cidadania;
- aberta ao mundo, que prepare os nossos jovens para os desafios da globalização;
- mais solidária, que não esqueça aqueles que verdadeiramente precisam;
- e que reforce a identidade nacional, incentivando o orgulho na nossa história, na nossa língua e na nossa cultura.

A acção governativa continua a ter como pressuposto essencial, contrariar o estatismo a que está sujeita a educação em Portugal.
O quase monopólio da escola pública que ainda existe, em todos os níveis de ensino, não é o modelo desejável. Não por ser pública, mas pelo facto de há muito estar sujeita a limitações no seu funcionamento e na sua cultura, que contrariam o princípio constitucional da liberdade de ensinar e aprender, de escolher e de aceder a um bem que toda a população portuguesa sustenta.
Um maior equilíbrio entre as organizações pública, social e privada, enquanto destinatários das políticas educativas e do esforço de financiamento, é um objectivo que importa alcançar.
Baseando-se nestes princípios fundamentais, o XVI Governo Constitucional, no seguimento da política do anterior Governo, levará à prática, em matéria de educação e formação, as seguintes medidas:
- a avaliação do desempenho das escolas, com publicitação dos resultados e criação de um sistema de distinção do mérito e de apoio às que demonstrem maiores carências;
- o desenvolvimento de condições que promovam a melhoria dos desempenhos na literacia e numeracia;
- o desenvolvimento de um conjunto de iniciativas sistematizadas de combate ao abandono durante a escolaridade obrigatória e desenvolvimento de centros de apoio social escolar (equipas multidisciplinares para apoio aos alunos e famílias carenciadas e desestruturadas);
- o desenvolvimento do sistema de avaliação aferida em cada um dos ciclos do ensino básico visando a sua integração no sistema de avaliação regular;
- a promoção do ensino tecnológico e do ensino profissional, em estreita articulação com os centros de formação, de forma a dotar de competências adequadas todos os alunos que tendo concluído a escolaridade básica, desejem entrar no mercado de trabalho;
- a progressiva transferência de competências para a administração local, especialmente no pré-escolar e ensino básico, sem prejuízo das funções de coordenação e de avaliação a nível central;
- a promoção do crescimento e qualificação da rede social de ensino pré-escolar em articulação com as autarquias locais, as instituições privadas de solidariedade social (IPSS) e a iniciativa privada, de forma a atingir uma taxa de cobertura média de 90% no grupo etário dos 3 aos 5 anos;
- o aperfeiçoamento do modelo de recrutamento, vinculação e gestão dos recursos humanos, de modo a seleccionar os mais competentes em termos pedagógicos e científicos, bem como a reduzir o considerável número de docentes sem carga lectiva atribuída e o excessivo número de destacamentos e requisições;
- a criação de condições para a modernização e profissionalização da gestão dos estabelecimentos de ensino, simplificando processos, clarificando responsabilidades e prestigiando a figura do Director de Escola;
- a progressiva coordenação e integração tutelar da educação com a formação profissional inicial e ao longo da vida;
- a criação de uma rede na Internet exclusiva dos professores para apoio e interacção, facilitando a partilha de experiências, o desenvolvimento de trabalho em grupo e o acesso a informação e materiais;
- o desenvolvimento do programa de bibliotecas escolares e de um sistema de empréstimo de manuais aos alunos mais carenciados;
- a estruturação de um sistema que avalie e incentive a qualidade pedagógica e científica dos manuais escolares, de modo a reduzir o esforço que, anualmente, é exigido às famílias na sua aquisição;
- o forte investimento em programas de formação contínua de professores, com prioridade para o primeiro ciclo do ensino básico e para os domínios das tecnologias da informação e do multimédia;
- a promoção do desporto escolar, conferindo-lhe o estatuto de prioridade no que diz respeito à formação dos jovens.

A administração educativa deve atingir padrões mais elevados, quer de eficiência e estabilidade na utilização dos recursos humanos e materiais disponíveis, quer de eficácia na prossecução dos objectivos de gestão fixados.
Impõe-se, por isso, desenvolver o projecto em curso de reforma organizativa e de processos na Administração Educativa.
O Governo concretizará a estrutura orgânica dos serviços no respeito pelas regras de funcionamento da Administração Pública e da autonomia das escolas.
Dar-se-á corpo, de forma progressivamente mais intensa, à subsidiariedade da função autárquica para com a função central, através, sobretudo, de uma política de descentralização de competências e em nome de um maior envolvimento das comunidades locais e das famílias na vivência e no sucesso do sistema de ensino.

Para tanto, o Governo promoverá as seguintes medidas:
- a progressiva articulação com o Ministério da Educação dos serviços da formação profissional e da educação de adultos, por forma a promover o ingresso dos jovens no mercado de trabalho e assegurar a sustentabilidade da educação e formação ao longo da vida;
- a simplificação da complexa e pesada estrutura administrativa desconcentrada, evitando a proliferação de níveis de decisão e de enquadramento da rede escolar;
- a concepção e o desenvolvimento de um sistema de informação integrado, que assegure ao Ministério da Educação os instrumentos indispensáveis ao planeamento e à gestão do sistema educativo e garanta aos cidadãos e instituições o acesso rápido à informação estatística actualizada, sistematizada e coerente.

quinta-feira, julho 22, 2004

Tonterias 

  Arturo Pérez-Reverte é um escritor excepcional. Basta ler El maestro de Esgrima (Alfaguara, 1988) para confirmá-lo como um nome da literatura espanhola actual. É um ex-jornalista que alia a seriedade do escritor de estilo próprio e inconfundível à imagem de um homem de acção, um homem do seu tempo. As suas prestações televisivas são fortes e incisivas. Es hombre de buen talante, há que admiti-lo. Mas ontem assisti a um momemto deplorável, no Andalucia. A noite de quarta-feira é noite de Jesus Quintero, de Ratones Coloraos. Não segui o programa de fio a pavio (mas não perdi o Risitas, no final), vi quase tudo. Teve momentos, com Quintero no seu melhor. Aquilo que recordo de Pérez-Reverte foi o seu pior. Parece um homem profundamente amargurado com o triste espetáculo do mundo, provavelmente terá visto demais. Eu ainda não vi nada. E disse duas ou três coisas que obscurecem sem retorno toda a entrevista. Pequenas coisas, grandes coisas... Quintero perguntou-lhe por que coisas mataria. Pérez-Reverte dispara à queima roupa: "Por un montón de cosas. Por mi sobrevivencia, para defender los mios, por un perro. Mataria un hombre para defender un perro..." E depois, revelando grande irritação pelo uso abusivo do termo terrorrista (Pérez-Reverte, creio, esteve no Iraque recentemente) afirmou que ninguém é terrorista quando combate na sua própria terra. Joder... que me perdoem. Mas não é possível ouvir afirmações destas sem perder o norte. Então o terrorismo não é uma questão de métodos, é uma mera questão geográfica. Terá tido tempo para pensar que assim legitimou todo o terrorismo do País Basco? Os atentados da Córsega perpretados por verdadeiros grupos mafiosos? O terrorismo do IRA, já sem o romantismo de Boby Sands que morreu em greve de fome... E os atentados que matam todos os dias no Iraque sobretudo cidadãos iraquianos, numa orgia de sangue que não parece ter fim? São uma das faces da dura luta de libertação, ceifando na lógica cínica da guerra, cidadãos inocentes? As consequências desta afirmação são demasiado complexas para as discutir num programa de televisão, mesmo como aquele. Um escritor tem o direito de dizer as suas frases. Da entrevista de ontem ao grande escritor só vou recordar, dentro de anos, estes disparates ditos com a maior naturalidade.

quarta-feira, julho 21, 2004

Principiante 

- Desculpe lá, dizem que não se deve conduzir depois disto, que pode ser perigoso?!
- Desculpe?
- Dizem que não se pode conduzir depois do tratamento, que é perigoso...
- Não sei, mas pode não haver problema...
- Mas consigo, o senhor o que é que faz depois disto?
- Eu não conduzo, não sei como é!
- Ah, pois!
 
- Diga-me lá - estendendo-me um papel manuscrito - importava-se de ver?
Pego no papel que foi rasgado para servir de recado numa emergência e leio, entre duas palavras riscadas: "Qual é a influência do tratamento na potência sexual?"
- Se calhar o melhor é falar com o médico que o segue na consulta, é preferível... eles estão mais informados.
- Pois, mas eu estava com a minha filha ao lado e ainda por cima a consulta era com uma médica. Se fosse um médico, mas assim...
Devolvi-lhe o papel e evitei dar-lhe más notícias..
- Mas é melhor falar com os médicos. Eles estão mais informados.
- Mas isto é diferente de caso para caso, dizem que a reacção é muito diferente de pessoa para pessoa.
- Pois! 

terça-feira, julho 20, 2004

Encontros e (Des)Encantos da língua que "todos" FALA/mos... 

Peço desculpa mas o título deste post é propositadamente aquilo que parece; segue a moda revivalista de uma escrita cheia de rodriguinhos (com aspas, sem aspas?), que lança mão de todos os recursos da sinalética ortográfica para criar efeitos e ecos, que abusa dos trocadilhos fora de propósito e da decomposição silábica das palavras, com parêntesis, com barras, que usa as aspas como expressão do pudor semântico que ataca muito bom falante politicamente correcto, e tudo para criar uma espécie de novilíngua em que o português de origem sai irreconhecível e aos solavancos.
Pertenço a uma geração que conviveu penosamente com esse idiolecto gráfico e se debateu para não tropeçar nas barras inesperadas ( / ) que manifestam uma oposição entre dois termos, para não se enredar no sentido de aspas (" ") que se cravam nas palavras mais inócuas com vista a atenuar o seu efeito denotativo, para não escorregar nas reticências (...) que trazem dramatismo ao texto e o deixam para sempre suspenso. Os recursos dessa novilíngua politicamente correcta de matriz transgressora são numerosos e acabam sempre constituindo um obstáculo à leitura. É isso que acontece afinal: uma parafernália de sinais daninhos que inibem a possibilidade da leitura linear de um texto, sem qualquer maisvalia para a interpretação. O meu título procura parodiar esse efeito mas reconheço que fica aquém do objecto da minha paródia.
O que há de comum aos utilizadores deste idiolecto gráfico é a pretensão de que o sentido implícito de um texto se constitui pela transgressão das regras ortográficas e pelas clivagens, suspensões, gradações e aliterações entre as palavras de uma mesma frase.
(Des)Encantos é um termo ou dois termos, consoante a minha leitura e a sua aparente contiguidade mantém a ambiguidade. O plural é outro recurso deste idiolecto, abrindo um espaço de indefinição e de indeterminação sobre o enunciado. As aspas (" ") são um dos fetiches mais recorrentes. A sua função é a de gradualizar difusamente o sentido de um termo ou de significar apenas um dos seus sentidos laterais. Os falantes deste dialecto reforçam frequentemente o uso das aspas (" ") , com uma gestuália própria, elevando ambas as mãos à altura da cabeça e dobrando ao mesmo tempo os dedos médio e indicador de cada uma delas, enquanto o polegar trava o anelar. Como se fosse possível suspender no éter, por instantes, a palavra que queremos marcar com esse sinal ortográfico. As aspas (" ") relativizam o significado de uma palavra, atenuam os seus contornos, reorientam a sua energia e o discurso faz que diz mas, efectivamente, não diz. Faz que significa mas não significa. É o triunfo da ambiguidade. As aspas (" ") suspendem a força de uma palavra que surge no discurso, no sentido da relatividade do sentido. Neste idiolecto as aspas (" ") podem até operar uma inversão no significado da palavra. Depende...
O resultado desta parafernália diabólica de sinais que rasgam o discurso e o martirizam sem cessar é a mais perfeita ambiguidade.
Folheio a revista heterodoxa Fenda (In) Finda publicada pela Fenda Editores em Janeiro de 1983. É um objecto de combate com textos sobre o discurso poético e a asumpção da identidade homosexual num contexto de intervenção política. Cito uma breve passagem do artigo de Fernando Cascais (meu colega na secundária de Cacilhas durante brevíssimo tempo antes de ir para a Universidade Nova), "Como quem não quer a coisa". No parágrafo intitulado Por um Discurso das Homossexualidades, escreve o autor, no que é, afinal, um débil exemplo do que tenho dito atrás: "É um movimento do desejo. E aí radicam as palavras que o exprimem, que exprimem o seu vivido, - um discurso do(s) sexo(s), do desejo e dos desejos, da(s) homossexualidade(s), embora possa ser, e sem dúvida que o é, atravessado pelas políticas..."
No Posfácio da revista A. Diogo escreve que "a "vanguarda" dilacerada que não acaba de acabar-se naquele gesto a se querer decisivo, (re)começa no retorno, ficção de História escrita (citação de maiúsculas), - por impossibilidade. Tirem a impossibilidade ao agente e terão uma verdade no "mundo"."  Está aqui quase tudo.
Mas há muito pior, quer no discurso oral, cheio de falsos matizes, de avanços e de recuos, quer na escrita que multiplica as variantes da leitura até ao ponto em que já não nos resta nenhuma afirmação com valor judicativo.
Um dia passei os olhos pela capa de um livro (recordo-me do local, creio que numa livraria da baixa). Era de poesia, brilhava só porque parecia forrado a alumínio. A autora era uma poetisa desconhecida de que não vale a pena recordar-me. O título do livro era do mais kitshc que se pode esperar. Chamava-se (mas é para ser visto e não apenas lido):
Lágri-
           Mas
 
O ridículo, já sabemos há muito, não mata. Ao contrário,  perdura no tempo.

segunda-feira, julho 19, 2004

BMEzine (revista sobre as modificações do corpo) 

Veio na Pública de ontem (é espantoso como uma má revista tem tanta coisa de que vale a pena falar) mas só esta manhã, na minha excursão matinal ao Figuras, reparei no detalhe. Num texto breve da secção manias, que vem logo depois da secção da saúde Dulce Neto escreve sobre a moda, à maneira de um piercing, de implantar pequenas jóias de platina, com 3,5 mm, no interior do globo ocular. Na verdade as pequenas peças em forma de coração ou de estrela são implantadas na conjuntiva, que é uma "membrana mucosa que cobre o globo ocular e o une às pálpebras". Cirurgia breve de 15 minutos, pós-operatório à base de gotas de antibiótico e 500 a 1000 € depois, já está feito o implante, digamos o piercing ocular.
A ideia é interessante, desde um ponto de vista estritamente ficcional, de resto arrepia-me. Um dia, quem sabe, serão implantados não objectos com uma função meramente estética mas chips para permitir viver em permanência ou em regime on demand num desvio da realidade à nossa escolha. Ver o que não existe, viver dentro dessa realidade inócua e abstracta, numa deriva para a aventura e para o exotismo, sem perder os últimos contactos protocolares com a realidade de partida, pode ser a grande alternativa do futuro, o grande negócio. Não será preciso então provocar artificilamente (e à margem da lei) a alteração dos estados de consciência - bastará alterar a realidade.
Mas o que me chamou a atenção foi um pormenor, apenas isso. O artigo referia-se a uma revista de referência na área das modificações do corpo, a BMEzine. Comecei por achar alguma graça ao nome (BMEzine), porque é praticamente igual à revista da nossa Biblioteca - já que designamos ambas (revista e biblioteca) por BME. Claro que pertencem a tribos bem diferentes, a dois hemisférios opostos. A nossa BME é uma newsletter bem intencionada (temporariamente suspensa mas que anseio por retomar) que fala de livros e das leituras. A BMEzine é uma revista electrónica que explora todas as vertentes e dimensões das práticas modernas de transfiguração do corpo. Do piercing à tatuagem, a outras formas altamente transgressoras de acção sobre o corpo. Vale a pena visitar o sítio, mas cuidado, não é para espíritos facilmente impressionáveis. As imagens que ilustram profusamente todas estas práticas são de puro realismo: qualquer coisa entre a exibição escatológica do corpo e o manual de anatomia comparada. Para quem não soubesse ainda fica, depois da visita, a ideia de que há muitas formas de habitar o corpo e de construir a identidade. Há muitas formas de ser humano, para dizê-lo com simplicidade.
Mesmo quando filosoficamente estas práticas (que não são uma invenção contemporânea) apontam mais radicalmente para uma alteração estrutural do próprio organismo e do ser humano, no que poderemos considerar uma espécie de utopia transhumanista, ainda falamos de uma visão do homem e da condição humana. Sugiro que entrem directamente na enciclopédia da revista - BME Encyclopedia - e leiam o artigo sobre Transhumanism. Não posso deixar de citar aqui uma parte desse texto que me coloca as maiores dúvidas e perplexidades acerca da transformação do corpo; mas enfim, é para isso que serve uma enciclopédia. Ser mais do que humano é um dos caminhos do pensamento de Nietzsche e provavelmente um dos pontos de fuga da sociedade hipertecnológica que os visionários da actualidade já antecipam há muito tempo. É por isso que tenho de comprar o Neuromante de William Gibson.

Aqui fica a citação prometida:
"Transhumanism, when boiled down to its essence, is the philosophy and pursuit of becoming more than human. The philosophy extends from the basic observation that humans are conscious of themselves, and are therefore capable of directing their own evolution. Indeed, some adherents go so far as to say that we have the responsibility to do so, since traditional evolutionary selection pressures (environmental factors that cause certain traits to become useful for survival) no longer apply to us. That is, because we do everything in our power to care for the weak, the sick, and the infirm, and because we consider it a basic human right to have children, we are no longer evolving along a positive path. Thus, we must technologically direct our evolution in such a way that the species continues improving.
A small, but significant, minority in the body modification community sees body modification as the first steps in transhumanism. The connection is easy to see: in casting off the genetically-mandated exterior form of a standard human, we are breaking our minds of the belief that a human must look a certain way. Once the body of a human is modifiable for aesthetic reasons not tied to spirituality or tradition, it is possible to begin to modify that body in hopes of improving it.
"

domingo, julho 18, 2004

Acredite se quiser... 

A nossa capacidade de acreditar é ilimitada e frequentemente acreditamos tanto mais quanto mais ignoramos. Como a nossa ignorância, num mundo tão complexo como aquele que nos foi dado habitar, também não tem limites, há quem acredite em tudo... e no seu contrário também.
A Pública tem hoje uma matéria daquelas que enchem páginas de jornais e revistas durante a dura época estival. Fala dos OVNIS (à portuguesa, evidentemente) e diz na capa que "eles nos visitam e raptam". Claro que o enunciado, mesmo na capa da revista, não vincula o autor da reportagem ao seu conteúdo fantasioso. É uma forma de dizer, uma blague do género daquelas que dizemos na esplanada para passar o tempo. Lá dentro um primeiro texto fraquinho sobre uma associação que estuda a "fenomenologia" ovni (Husserl teria previsto esta apropriação hilariante do conceito?), a APO (Associação de Pesquisa Ovni) composta por algumas pessoas que fazem noitadas à procura de vestígios no céu da passagem dos discos voadores e das varetas (sic). Tal como se fala do assunto a associação (desculpem lá a má vontade) parece qualquer coisa a meio caminho entre uma forma de terapia de grupo e um pretexto para fugir à família, uma vez que também faz trabalho de campo. Não sei se me explico. E no entanto quanta boa intenção...

Penoso e a gente a ver logo que é um caso clínico é o depoimento de uma rapariga que está convencida por uns sinais e umas borbulhas no corpo que foi raptada pelos extraterrestres uma dúzia de vezes. O texto da Pública é francamente débil mas a realidade portuguesa não é rica (digo eu) em grandes casos de abducção como nos estados unidos onde algumas estatísticas bastante exageradas asseguram que quase 10% do povo americano acredita que foi vítima desse procedimento. Se não é 10% é 9 ou 8, dá igual, quando se trata de exagero. O enredo da entrevista é tão pouco substancial como interessante acerca do modo como cada um de nós decide construir a sua narrativa pessoal e contá-la aos outros. A história que cada um de nós conta sobre a sua vida é um facto daquilo a que procuramos dar um sentido. Por isso a história bem lida revela muito mais do que o seu autor pretendia à partida.
Não me perco com os detalhes de quem acredita que foi escolhida para representar a espécie junto dos ET's, isso é uma questão pessoal, de fé. Cada um de nós acredita firmemente naquilo que lhe dá um sentido para a vida e que a faz valer a pena ser vivida. Mas não nos peçam que acreditemos uns nos outros. Frequentemente é difícil compreender qual é verdadeiramente o lugar da realidade na nossa vida.

Vem isto a propósito de ter dado há meia hora com o céu sobre lisboa. É um bom título de blogue, que cita o famoso filme de Wenders rodado em Berlim, imeditamente antes do muro cair. O seu autor apresenta-o como uma "autobiofotonovela urbana" e a sensibilidade afinada de quem olha a cidade com profundidade e abertura poética transparece em todos os posts. Com data de ontem podemos encontrar o fac-simile das páginas de um jornal da década de 90 (creio), o Notícias do Mundo . Um jornal que só publicava notícias falsas, à revelia de qualquer verosimilhança. Quase sempre com uma ponta de humor ou de malícia. Algumas manchetes e títulos de artigos:
O Monstro do Lago Ness morreu
O Ataque dos peixes sodomitas
Morreu o famoso homem que comia máquinas fotográficas
Esta mulher beija o chão que ele pisa
Um extraterrestre transformou-o numa barata 

Alguns anos depois a fantasia já não é o que era. Depois veio a net e tudo o que mudou a nossa forma de duvidarmos da realidade tal como ela nos aparece.
Ah, visitem a autobiofotonovela. Eu voltarei.

sexta-feira, julho 16, 2004

Orfão 

O meu café fechou hoje para férias. Só ontem me dei conta de que essa pequena tragédia estava a chegar. Já chegou, de hoje até 2 de Agosto (temo que inclusivé...) o Rafael estará fechado. Racionalizei a situação o melhor que me foi possível para evitar o psicodrama. Estou a responder bem. É só imaginar que de hoje até ao início de Agosto é sempre segunda-feira. Quando o meu café fecha por um período mais prolongado que o mero descanso semanal - no Natal e no Verão, pelo menos - sinto-me um orfão de qualquer coisa, falta o lugar onde posso facilmente perder tempo.  É para isso que serve o meu café. Para ler o jornal, para ler seja o que for, para sair de casa quase sem sair da rua, para receber a pancada do vento. A mudança é grande. Outro café sempre são outros códigos que tenho de aprender. O nosso café é uma pátria chica. Os outros tendem a ser lugares estranhos onde se fala uma língua diferente. Pois bem, serei durante algumas semanas uma espécie de estrangeiro errante, de café em café, segurando o jornal debaixo do braço para evitar que o vento o leve. Só até ao princípio de Agosto.

Estações e apeadeiros do livro e da leitura 



As metáforas são imagens rebeldes que irrompem para lá das normas da sintaxe.  Respondem a uma necessidade do discurso, não correspondem à conveniência e podem parecer inoportunas. Por vezes falam por nós e dizem mais do que queremos dizer. As melhores são as que irrompem no improviso, para surpresa do orador; essas não são planeadas nem convocadas com antecedência. Espalham a sua energia com inesperada brusquidão e impõem clandestinamente a sua magnífica teia de significações. Cada metáfora reclama outras metáforas e imagens felizes.
 
Escrevo estas palavras a pensar no carteiro de Neruda da Ilha Negra que tinha problemas com as metáforas e na última reunião do SABE (Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares), que teve lugar na Mundet, no Seixal, no passado dia 12, 2ª feira. Discutíamos (com ardor) o futuro da feira do livro interescolar, patrocinada pela Câmara Municipal do Seixal, acompanhada e apoiada pela Biblioteca do Fórum, realizada nas escolas do concelho.
Em novembro passado, no final do Iº Período, realizámos a 2ª edição da feira, ao longo de duas semanas de livros e de actividades sobre os livros. Eu responsabilizei-me pela realização de uma sessão de leituras de histórias com o Marco António e a Susana João, a que acorreram duas turmas de alunos do ensino básico de Corroios e de Vale de Milhaços. Pouco depois das três da tarde ajudei o Marco (que tinha um compromisso inadiável no Parque das Nações daí a minutos) a fugir pela janela da sala, vestido vagamente de diabrete com um tridente na mão (para espanto dos miúdos e das professoras que os acompanhavam), após o que saltou para o carro estacionado ali ao lado e desapareceu pelo meio dos pavilhões da escola. Foi a primeira vez que um carro - um smart descapotável - em vias de se transformar em abóbora, à frente dos nossos olhos, desceu por ali abaixo até ao portão. Fazia parte da história que queríamos contar e ajudava o Marco a sair dali sem demasiadas explicações.
Dois dias depois dirigi um debate sobre a importância do ranking de escolas elaborado a partir das classificações dos alunos do 12º ano, para o qual convidei o João Almeida (jornalista da SIC que tratou essa matéria) e o Manuel Porfírio, colega da JB e ex-presidente do conselho directivo.
Ficou por realizar um encontro com o nosso ex-aluno em Bagdad, o Nuno Carvalho, que já tinha regressado de novo do inferno iraquiano. Ficou adiado sine die.

Mas as metáforas... são como rosas que exalam um odor exótico (metáfora de mau gosto que eu já tinha pronta a sair). Naquele encontro das bibliotecas surgiu inesperadamente uma metáfora. A feira interescolar (porque decorre ao mesmo tempo em várias escolas e faz apelo a parcerias e actividades participadas)  adoptou o título genérico de Estação do Livro. Podemos ler a metáfora num sentido ambiental e telúrico; a certa altura do ano chega a estação do livro, caiem as folhas, os passarinhos cantam um último lamento... Mas não, a metáfora reclama um contexto ferroviário. A Estação é mesmo uma alusão à circunstância de algumas das escolas serem servidas pelo novo combóio da ponte ou situarem-se relativamente perto das suas estações. Naquela reunião e neste contexto de estação irrompeu a metáfora do apeadeiro... Cada uma das múltiplas actividades da feira do livro é um apeadeiro, de uma vasta rede de estações que são as escolas participantes, onde cada um de nós pode descer. A imagem é perfeita. Diante dos nossos olhos aparece então um plano das estações e a filigrana dos seus múltiplos apeadeiros, onde descem e sobem continuamente os passageiros da feira. A metáfora pode ser explorada desnecessariamente até ao seu limite. Cada bibliotecário é um chefe de estação. O público da feira e das actividades são os passageiros do combóio que circula à tabela. O programa da feira é o horário dos combóios (é preciso consultar) e cada acontecimento tem uma hora de partida e outra de chegada. Os responsáveis pela animação da feira são quem conduz as composições. Etc.


clicar sobre o horário

No primeiro ano da Estação do Livro, em 2002/ 2003, levámos esta metáfora ferroviária à letra e compusémos o nosso programa a partir do enredo gráfico dos horários distribuídos ao público pela Fertagus. Inventámos uma imagem paralela para a feira em que um conjunto de livros e dicionários devidamente alinhados sobre a mesa representavam uma locomotiva. Só nos faltou a ideia brilhante de que as nossas actividades eram apeadeiros onde todos eram convidados a descer e participar. Os livros são o combustível renovável desta viagem que nunca deveria terminar. Como posso agradecer esta metáfora?

 

quinta-feira, julho 15, 2004

Sigam este blogue 

[Pintura de Franklin Franca] clicar sobre a imagem

O blogue de um amigo é, por definição, um blogue amigo. Apresento aqui o blogue do meu amigo que criou o barcos velhos há dois três dias. O Francisco escreve discretamente poesia (apesar de publicar) e o nome que escolheu podia ser o nome de um dos seus poemas. Não sei se um barco é o veículo ideal para viajar na blogosfera, mas não há outro com mais histórias para contar que um barco velho encostado à margem. Depois do primeiro post já escrevemos mutuamente alguns comentários. A conversa vai prosseguir nos próximos dias, nos próximos meses. Com amizade e non sense e em ambos os registos ele bate-me aos pontos. Sugiro aos visitantes... uma visita ao blogue amigo. Mais do que uma visita, sugiro que sigam este blogue. Cliquem na pintura de Franklin Franca e o mergulho é directo, como se entrassem de repente no quadro.

A outra margem, amor pela fronteira 

Sempre desejei viver junto da margem e da fronteira (eu gosto de fronteiras mas por motivos estéticos, não políticos) e poder passar para o outro lado sem nenhum motivo forte. Em fantasia cheguei a desejar que do outro lado do rio, no lugar de Lisboa, ficasse outra cidade de outro país. Outra língua, outra moeda, outra religião, outra literatura e outra actualidade política. Proibi a mim próprio esta fantasia concreta porque imaginar outra cidade no lugar de Lisboa é alguma coisa entre o sacrilégio e a incongruência lógica. Portanto, Kaput.

Já tive várias oportunidades de manifestar o meu amor pela fronteira e nem sempre evitando o ridículo. Uma vez em Monção decidi acrescentar um episódio a esta história inconfessável e fui em passo de corrida ao outro lado, cruzando a ponte para Salvaterra do Miño. Não guardo nenhuma recordação particularmente eloquente desse passeio em ritmo forçado a não ser o intenso calor do dia e o ambiente de suspensão, de paragem, de imobilidade, que encontrei do lado de lá. O tempo parecia ter parado porque nada se movia ali, a não ser eu mesmo, em ritmo de corrida aeróbica.
Em Vila Nova de Cerveira (vila arcádica) sempre me divertia muito a simples viagem de ferry para o outro lado e repetia-as tantas vezes quanto possível. O barco dava meia volta e manobrava para encostar e era tudo. A visita ao outro lado, a Goyan (que nem vem no mapa), não acrescentava nada. É uma localidade quase irrelevante, sem comparação com a delicadeza e requinte de Vila Nova de Cerveira. Mas estava lá a fronteira. Uma vez que fomos a la Guardia por dois dias e regressámos pelo longo caminho de Goyan até ao ferry, descobrimos que não havia barco. Por greve ou feriado, por outro motivo qualquer. Cerveira a poucas centenas de metros mas a fronteira estava lá, correndo lentamente até à foz atlântica, junto de Caminha. Anoitecia e não havia solução. Ainda pensámos roubar um barco a remos (por alguns minutos) e fazer a distância à custa da força de braços. Felizmente desistimos da ideia. Acabámos a negociar com um taxista sonolento (a quem acordámos em casa), dono de um café, o "Cantamañanas" (em português seria qualquer coisa como o "Fala Barato"), que nos levou numa viagem já de noite por uma estrada cosida com o rio, até Tuy. Aí cruzámos a ponte, ainda no táxi, que acabaria, de acordo com o combinado, por nos deixar no centro de Cerveira. Foi uma viagem de sombras e conversas sobre comércio de vinhos, pontuada pela voz de Juanito Valderrama, na rádio, que cantava para grande comoção minha o seu famoso hino à tragédia de cruzar uma fronteira política, que é "El Imigrante".
Outra vez, de visita solitária a la Guardia, perdi o barco para Caminha em Camposancos, apesar de ter feito todo o percurso (uma vez mais) a correr como um desalmado. Perdi o barco e perdi a ligação com os meus amigos que me esperavam do outro lado da fronteira.

Há anos saí de Santa Apolónia com um amigo cantor, no combóio correio que parava literalmente em todas as estações e apeadeiros. Viajámos toda a noite até que de manhã chegámos a Valença. Aí, depois de um café com leite, tomado ao som de petardos que rebentavam na praça, passámos a fronteira a pé, com o saco da roupa às costas. Fomos travados por alguns segundos junto a um casinhoto onde um polícia de fronteira folheou um livro de fólios enormes, cujas páginas cheias de números de Bilhete de Identidade, organizados em densas colunas, não revelaram nada de suspeito. Recebemos autorização para passar e lá fomos em paz até Tuy, percorrendo a ponte velha que liga uma à outra margem sobre as águas verdes do rio Minho que sepultam pequenas embarcações de madeira. As imagens de dolorosas representações de Cristo na cruz, esculpidas em madeira, também ficaram na minha memória. Tal como os recitais de Vigo e Pontevedra, mas isso é outra história.
Mas a mais comovente e esperada passagem de fronteira que vivi foi há... não sei quantos anos (era fácil verificar) e aconteceu nesta mesma ponte sobre o pai Miño, como lhe chamam os galegos. Foi pela escola e preparei-a durante mais de um ano. Iamos ao encontro de um grupo de professores e alunos de Vigo, dos quais só conheciamos um deles, a professora Esperanza. À boa maneira de qualquer filme de refugiados ou de perseguidos (essa é, talvez, a chave da minha preferência romântica pelas fronteiras) combinámos que nos encontraríamos à saída da ponte, em território galego. Marcámos esse momento ao minuto. Chegámos a Valença onde abandónamos o autocarro para seguir a pé. E lembro-me de tudo, porque essas ocorrências são encenadas para permanecer sempre na nossa memória. O nosso grupo percorreu o passeio pedonal da ponte de ferro em passo descontraído (nenhum de nós voltaria certamente a fazer nada parecido) e a meia distância vimos os amigos que nos esperavam, o Peter (a quem os seus alunos viam logo abaixo de Deus na hierarquia que ele próprio tinha estabelecido), os outros. Comovi-me com aquele reencontro de pessoas que se desconheciam, falando em português, em galego, numa das muitas variantes individuais que se fala na Galiza, mas tudo o que é galego me comove desde há muito. Não há fotografias desse encontro, por isso a nossa memória é tudo em que podemos confiar para acreditar que esse encontro aconteceu mesmo.
Por isso gosto da fronteira e da distância ilusória e romanesca que ela supõe. Porque de facto não há distância mas sobra espaço para toda a nossa imaginação. Só o que está em contacto e firmemente unido pode fazer fronteira. Não há fronteira com o que é remoto. E a multiplicação destes paradoxos constitui um dos encantos de qualquer ideia de fronteira. Gosto de imaginar que na outra margem tudo pode ser diferente, mesmo sem ser. Que se fala de outra maneira para dizer as mesmas coisas. Que um gesto pode ter outro significado.
Gostava (repito-me) de viver junto da margem de um rio onde chegasse depois de alguns minutos de caminhada a pé. Gostava de poder chegar a outro país, do outro lado de uma viagem de barco, breve e quase desnecessária. Faria de certeza essa viagem mesmo sem ter um bom motivo, como ir tratar de papéis ou ir comprar caramelos mais baratos. Iria ver as manchetes dos jornais, tomar um café na esplanada e ver as montras que anunciam rebajas. Voltaria pela rua da livraria para ver as novidades. Podia ser em Caminha ou em Vila Nova de Cerveira, em Monção, Valença ou noutro lugar. Podia ser em Vila Real de Santo António, junto ao Guadiana, em frente a Ayamonte. Foi lá, precisamente, que os meus pais acabaram de comprar, há uma semana, uma casa de férias. Perto do rio e do ferry, mesmo junto à fronteira.

A Arte do Jaleo (dizer "Olé!"... no momento certo) 



O jaleo flamenco exige um tempo certo e não é mero aplauso de satisfação do público que assiste à celebração. O jaleo faz parte da circunstância do canto e do baile, não pode ser uma vozearia permanente nem deve desbaratar a interpretação do artista. Há um jaleo que é mera exibição pública e que mascara a ignorância do tema com a bravata sentimental. E há quem respeite o intérprete e o ajude a subir pela expressão acima até que a voz desata o seu nó e finalmente é possível dar alento ao cantor para continuar. Isso é o jaleo tal como ele é praticado entre os crentes.

Falo disto porque ontem falou-se e praticou-se o jaleo num dos momentos do programa de Jesus Quintero no canal Sur-Andalucia (o 31 da cabovisão), nomeadamente quando Las Ketchup esboçavam algumas das suas interpretações do novo disco. Uma das raparigas da grande família Tomate de Córdova (o pai, Juan Muñoz, guitarrista flamenco e pai de guitarristas, é conhecido como el Tomate e elas como las Hijas del Tomate) perguntou-lhe se ele sabia dizer "Olé!" no momento certo. Quintero pediu-lhes que cantassem um pouco e ele provaria que sim. E houve jaleo justo e sério, daquele que por instantes funde a atenção do ouvinte com a tensão do intérprete, que faz do assistente um participante no canto.
Também volto sempre aos programas de Jesus Quintero, desde que há imensos anos ficava desperto para ouvir (já de madrugada) na Radio Nacional de España "El Loco de la Colina". Vi uma vez fugazmente o seu autor a entrar num hotel de Sevilla, vestido de branco, como quem vive um absorvente romance místico consigo próprio. Não é o meu estilo. E quando passava pela calle Placentines, à vista da catedral, lá ia colar os olhos aos vidros do café de Quintero (cafe Placentines) para observar o interior com os seus cadeirões forrados de um intenso veludo vermelho. Agora sou fiel às entrevistas hiperbólicas onde nunca faz duas perguntas iguais (porque os interlocutores são diferentes e têm direito às suas perguntas), num dos programas que ficou para a história do canal, Ratones Coloraos.
- Olé!

quarta-feira, julho 14, 2004

"A festa é nossa" 

Volto sempre, todos os dias, apesar de um poeta do renascimento ter teorizado com subtileza que a recordação da felicidade passada, e quanto mais viva, é causa de tristeza no presente. Quanto maior a alegria recordada, maior a melancolia. Não disse alguém (circulamos entre citações que nos ajudam a sentir) que a melancolia é a alegria dos tristes? Gostava de ter sido eu a dizê-lo, basta-me então ser eu agora a repeti-lo. Volto sempre aos sons da rádio e já me parecem muito distantes. As frases separadas da música e dos gritos de alegria dos comentadores são uma prosa sem vitalidade. Mas gosto do ênfase de quem diz: "Portugal agora com dois mágicos em campo" e gostava que isto fosse verdade também fora do campo. E estremeço quando algumas frases parecem ter ganho a força de uma premonição, depois daquilo que elas apenas adivinhavam acabou por acontecer (a verdade é que nenhuma premonição nos pode garantir o seu sucesso pleno). O resto é aquilo que cada um sentir com os sons da rádio, levados até ao limite da compressão, palavra com palavra, som com som, gemido com grito, sílaba com soluço. Volto sempre a ouvir estes sons da TSF até que a recordação desta felicidade passada (e perdida) se torne um hábito.

terça-feira, julho 13, 2004

A oração da manhã (os Trabalhos e os Dias) 



Há semanas que queria escrever sobre a minha rotina. É esta: levanto-me pelas 8.30h da manhã e levo o Miguel à escola, ao ATL. Durante o fim-de-semana sinto a falta deste compromisso que é um prazer. Depois atravesso a rua e entro na frescura do Figuras, o café amplo que escolhi para permanecer a ler qualquer coisa até cerca das 10.00h, altura em que saio da penumbra para o calor e a luz da rua. Sempre a mesma. Nunca choveu, sempre sol e vento. Nunca houve demasiada luz no Figuras, nem frescura a mais ou a menos. Nem mudaram os quadros da parede, de mau gosto, pretensiosos, invisíveis. Sempre igual. Nunca atravessei a rua nas passadeiras, sempre ao lado. E sempre senti alívio ao recolher-me ao café. Depois saio e desço o caminho para casa, rodeio a igreja e não me causa perturbação que ela lá esteja. Regresso à minha rua (agora o pó que a cobre como uma patine artificial é, de facto, uma novidade) e subo as escadas. Depois do pequeno-almoço ligo o computador (precisa de afinação) e entro nos Favoritos para ler os meus blogues. Ao longo dos meses tenho reunido cuidadosamente aqueles que mais me divertem e me fazem pensar (preciso sempre de ajuda exterior para s duas coisas).



Aqui fica o percurso dessa caminhada pela rede, de nó em nó (que imagem mais disparatada). Começo pelo Abrupto de Pacheco Pereira, porque sigo a ordem alfabética e quase sempre tem novidades frescas; depois vejo o Aviz de Francisco José Viegas, discreto em tom de verde azeitona que permanece sem nada de novo durante btreves períodos porque o seu autor é um viajante do grande norte; descobri só há poucos dias A Praia, um blogue político-cultural post-moderno de Ivan Nunes, o rosto da Político XXI pré-Bloco de Esquerda; espreito o Aragem, do Miguel Pinto, que escreve sobre a escola com visível preocupação e com experiência; descobri recentemente um homónimo do meu blogue que se chama As [Minhas] Leituras e é de Filinto Melo, que me parece andar ausente da blogosfera; As Minhas Histórias da Catarina, amiga da Catarina, que mo referiu em conversa há dias, ainda não o compreendi mas a sua autora parece ter muitas histórias para contar; o Blog Inspirado é da Ana Carina, minha ex-aluna, que está a terminar o curso de Comunicação Social (Carina actualiza lá o blogue); descobri Caneta de Saia, de Abner Dmitruk Carrazzoni, escrito com sotaque e que muito me confunde (alguém pode ter este nome, alguém pode escrever tão bem e ter 16 anos?); o Canto da Sereia escrito tão sensivelmente por uma blogger Encantada (é como assina os posts); o Caro Leitor de Elder Tanaka merece a visita; causa nossa, de Ana Gomes, Vicente Jorge Silva, Jorge Wemans, Vital Moreira, com opinião de grande qualidade sempre actualizada; uma das minhas visitas mais antigas, o blogue Da escola, do Manuel Dinis P. Cabeça, que terminou já o seu ano na escola de Montemor e escreve frequentemente sobre aquilo que o preocupa e nos preocupa; Diário de Lisboa é uma pequena maravilha de sensibilidade (conheci-o pelo Aviz), de humor e de qualidade literária, escrito por alguém que regressou aparentemente ao Brasil depois de viver em Portugal e ter 4 girafas como vizinhas...; Educação acionária, um blogue que ainda não compreendi (verei depois); o Educação em Debate, de André Pacheco, a quem prometi um comentário sobre indisciplina a propósito de um dos seus últimos posts; fábulas, de uma colega de Aveiro que ainda não conheço o suficiente; o FASCISMO EM REDE de um ilustre desconhecido com quem já modestamente entrei em polémica e sobre o qual escrevi por aqui; FRUTOS MADUROS, do Miguel, um professor; geografismos, um blogue da escola EB 2 3 de Santa Clara, Évora, realizado no âmbito da área de projecto do professor Luís Palma de Jesus (a visitar obrigatoriamente); O Vizinho, de um vizinho que encara a blogosfera como uma rua muito movimentada onde se pode sempre falar com alguém de janela para janela (divertido, inteligente, muito humano, pois claro); Jornalismo e Comunicação, Weblog colectivo criado no âmbito do Mestrado em Informaçõo e Jornalismo da Universidade do Minho; Ma-Schamba, um blogue de Moçambique que termina... mas que vale a pena ainda visitar; mythologyas, um blogue sobre livros e leituras da autora de As Minhas Histórias; Outro Olhar é o outro blogue de Miguel Pinto sobre a escola e a educação em geral; Pastilhas, o blogue de Miguel Esteves Cardoso, brilhantíssimo na forma, criado à imagem de uma farmácia ou de um centro de saúde, mas onde nunca consegui ler nada; Portugal dos Pequeninos, de João M.S. Gonçalves, que cita Alexandre O'Neil em epígrafe e militou a favor da dissolução do parlamento; Portugal e Espanha, um blogue colectivo sobre as relações entre os dois países, com atenção especial aos espaços de fronteira; Professor, professor, Aventuras e desventuras no submundo do sistema educativo português, escreve o autor em epígrafe; Professorices, Notas sobre a Educação Superior em Portugal, de origem açoriano, com o Antero à cabeça; PUXAPALAVRA, um blogue colectivo dedicado à poesia (Natália, Herberto, Sophia, Neruda...) e à política, escrito com sensibilidade e devoção; quadratura do círculo, o blogue oficial do programa da SIC com... Carlos Andrade, José Magalhães, Pacheco Pereira e Lobo Xavier, para publicar o comentário dos espectadores ao programa televisivo dos comentadores; REPÚBLICA DIGITAL - Cenas da vida parlamentar, o blogue de José Magalhães, inscrito no sistema de blogues da Assembleia da República; Rio Acima, blogue de José Paulo Serralheiro, sobre política, educação, culturas, sociedade.. que parece ter terminado; Tabacaria, um blogue a dois (aparentemente) e escrito no adocicado português do Brasil, sobre verso e prosa; um quarto com vista para o mundo, de Miguel Sousa, uma perspectiva da Madeira sobre a educação e a política; Uns e Outros, um blogue político (e não só) de Sofia, com um grande cuidado nas imagens que publica; via de argilla, um blogue de grande qualidade estética e técnica inteiramente dedicado à difusão da interlíngua como língua veicular internacional.

Depois destes passos erráticos que nunca sei onde nem como terminam, vou escrever o que me vai na cabeça. E o tempo que dedico ao meu blogue não o sei contar. À tarde cumpro a minha segunda saída do dia, se é dia de rotina. Quando o sol já declina subo ao Rafael e fico pela esplanada durante uma hora, algo mais. O dia termina na esfera do dia que começou, em redor de um pequeno repertório de movimentos, de ideias, de emoções simples. A visita de algum amigo, às vezes de dois ou três, quebram a rotina. E a excessiva susceptibilidade aos odores (muito exagerada no interior de uma sala do oitavo piso de certa instituição de saúde). É tudo.

Para que não digam 



Neftalí Ricardo Reyes, aliás Pablo Neruda. Nasceu no Chile, Parral, a 12 de Julho de 2004 e morreu em Santiago em 1973. Evitei-o durante meses, talvez anos. Encontrava-o sempre no mesmo sítio, parecia acessível mas nunca fui além do olhar. Parecia-me um pouco frívolo, a puxar ao sentimento. Até que um dia venci essa resistência, esse pudor de levar para casa mais um livro que não merece o pó das nossas estantes. Rapidamente me dei conta de que a autobiografia de Pablo Neruda - Confesso que vivi - pertence àquela classe de livros que não começam senão depois de folheadas algumas páginas. A capa não lhe pertence, é apenas um acidente editorial, serve de embrulho. A edição da Europa-América é de Março de 1976, da colecção Estudos e Documentos. Comprei o livro numa banca sob a arcadas da Praça do Comércio, em Lisboa, à vista do Martinho. Talvez em meados da década de 80, a preço de estudante. Li-o depois com deslumbramento, e com o prazer de surpreender um poeta na intimidade da sua memória, apesar dele escrever que "as memórias do memorialista não são as memórias do poeta".
Só outra vez tive a mesma emoção ao ler um livro de memórias. Foi quando finalmente li O Passado Remoto de Giovanni Papini numa edição histórica dos livros RTP. Nossa senhora... Estava então na universidade e precisava urgentemente de uma forte indução de biografia, porque considerava que não tinha nenhuma de que me pudesse sequer recordar mais tarde. A leitura do Passado Remoto de Papini (que figura tão estranha e tão sedutora) e, algum tempo depois do Confesso que vivi, constituiram para mim um tónico de energia e de vida de que fui alimentando durante anos a minha imaginação faminta.
A autobiografia de Neruda é um livro muito belo em que desfilam não tanto uma época como os personagens que a habitaram com a sua energia transbordante. As histórias contadas por Neruda têm sempre alguma coisa de misteriosamente poético, de espantosamente anedótico. Mas são histórias cheias de seriedade, de gravidade algumas. Estão lá Miguel Hernández, Federico, Alberti e a geração de 27, para além de muitos outros. Está a Espanha republicana mas também estão os tempos de cónsul do Chile em Ceilão, os tempos de exílio, o México e Paris, o Perú e a Argentina, a visita à China e a Rússia incontornável, o Prémio Nobel e Gabriela Mistral, Vicente Huidobro, Fidel e Estaline, Éluard, a sua amada mulher Matilde Urrutia, Vallejo, Allende e uma vasta galeria de outras figuras. Tal como aconteceu após a leitura de Papini, fiquei com a convicção de que o poeta Pablo Neruda, que nas suas próprias palavras, viveu mais do que o memorialista Neftalí Ricardo Reyes, teve afinal uma biografia mais ampla e numerosa que a sua própria vida: "Vivi, talvez, a vida dos outros".
Pablo Neruda está na rede, por todo o lado. É só ir ao Google e pedir um conselho. A resposta virá. Recolhi do Volume I de Poesía, da editora Clásicos Hispánicos - Noguer, de que foi director Damaso Alonso, um excerto de uma das suas Nuevas Odas Elementales. Trata-se de uns versos de Oda a la Tipografia que me seduziu pela franqueza (um poeta publicado deve amar o prelo como a si mesmo), pelo visualismo arrojado e pela curva sinuosa que os seus versos vertiginosos descrevem quando parecem que caiem para cada vez mais alto.

[ODA A LA TIPOGRAFIA]

Pero,
tipografía,
déjame
celebrarte
en la pureza
de tus
puros perfiles,
en la redoma
de la letra
O,
en el fresco
florero
de la
Y
griega,
en la
Q
de Quevedo,
(cómo puedo pasar
mi poesía
frente a esa letra
sin sentir el antiguo escalofrío
del sabio moribundo?),
a la azucena
multi
multiplicada
de la
E
escalonada para subir al cielo,
en la Z
con su rostro de rayo,
en la P
anaranjada.

Amor,
amo
las letras
de tu pelo,
la
U
de tu mirada,
las S
de tu talle.

En las hojas
de la joven primavera
relumbra el alfabeto
diamantino,
las esmeraldas
escriben tu nombre
con iniciales frescas de rocío.
Mi amor,
tu cabellera
profunda
como selva p dicionario
me cubre
con su totalidad
de idioma
rojo.

Por outro lado...  

Um completo deslumbramento, pela imagem e pela expressividade afectuosa com que se apresenta aos outros para falar, com uma voz que explora todos os recursos da subtileza e da delicadeza de carácter. Alheio ao efeito fácil da palavra, que domina como um mestre mas sem pompa, aos vulgares pecadillos da personalidade, tão comuns em quem tem disso em excesso. Com uma memória afectiva de pessoas e situações que dá vontade de partilhar, como se podesse ser também a nossa, mas sem o pior da nostalgia. Alegria, profunda alegria de lembrar, como se revivesse um a um todos os acontecimentos gratos de uma vida cheia de música. Falo agora de António Cartaxo, o convidado de ontem de Ana Sousa Dias, nesse pequeno ofício milagroso que é o programa "Por Outro Lado".
Como sempre, encontrei-o por acaso. Passava das onze, talvez já da meia-noite, quando liguei a televisão e encalhei na 2: Soa aquela estranha música de um compositor contemporâneo (não apanhei o nome) e começa a entrevista. Demoraria algum tempo até eu perceber que já tinha ouvido, há um ou dois anos, uma explicação admirável de António Cartaxo acerca da banda sonora de "Reviver o passado em Brideshead", séria mítica da BBC adaptada do romance homónimo de Evelyn Waugh, encontrada casualmente no sítio da RDP. A música e a melopeia da voz compunham uma nova unidade e era isso que eu ouvia e repetia.
António Cartaxo fez parte da pequena equipa da secção portuguesa da BBC (com Manuel de Seabra, autor português que vive desde sempre em Barcelona onde publicou, primeiramente em catalão há imensos anos "Os exércitos de Paluzie", ("Els exèrcits de Paluzie" no original), e permaneceu em Londres 14 anos cheios de música, da grande música. Trabalha agora na RDP (depois de ter dado aulas em Letras) onde faz programas e apontamentos (como se diz nos canais de cultura) sobre música, desde uma profunda erudição e uma humanidade sem igual. Façam a prova clicando magicamente aqui.

segunda-feira, julho 12, 2004

Atira-te ao Rio! 

A imagem não é sempre assim, desde a margem do rio, com Lisboa à vista, e na verdade não é de todo assim como aparece. Daqui vê-se (quase) o Ginjal, Porto Brandão, a Trafaria ao fundo, mas do Ginjal vê-se Lisboa como de nenhum outro sítio. O ambiente, ao fim de tarde, com o sol a descer melancolicamente, é todavia este mesmo.
O Paulo passou por aqui expressamente para me levar até lá. Ficámos a aquecer ao sol, com a cidade ao longe, o rio ali a passos da nossa mesa. Há muito tempo que não ficava no Atira-te ao Rio! a ver as ondas.
Quero acrescentar mais duas coisas a este post que declina, duas coisas muito belas: ontem o Público ofereceu aos leitores uma edição especial do Mil Folhas em homenagem a Sophia de Mello Breyner. Quase trinta páginas de poemas inéditos, textos evocativos, fotos, memórias e a imagem da última página do dossier. Sophia está sentada no jardim da casa da travessa das Mónicas, na Graça, a uma mesa de ferro pintada de branco. Os braços estão cruzados em descanso mas a mão direita levanta um cigarro meio fumado, preso entre os dedos. O cabelo é levemente dourado pelos anos e a toda a volta o cenário de verde parece formar docemente uma auréola de santidade e beleza em torno de Sophia. Duas cadeiras ao lado estão abandonadas, perdidas no cenário. Sobre a mesa de ferro forjado está uma chávena de chá ainda não tocada e quase ao centro vê-se um livro aberto cujas páginas parecem amarrotadas pelo vento e pela leitura veemente. Sophia não olha directamente, não observa, não desvia o olhar nem está distraída, apenas medita serenamente. E isso não sai na fotografia. Acabava de receber a notícia do Prémio Camões. E isto é muito belo.
Depois outra coisa imensamente bela, porque as coisas belas são incontáveis. Um quadro de Abel Manta (1886-19829) que representa a Almada Velha e a zona do Ginjal, com Lisboa ao longe. Simples como o rio. Melhor do que a minha memória difusa e precária, quase tão belo como uma tarde passada com um amigo junto ao rio.

Foguetes para Maria de Lurdes Pintasilgo 

Quando foi candidata à Presidência em 1986, contra Mário Soares, Freitas do Amaral e Salgado Zenha, Lurdes Pintasilgo veio a Almada. A esquerda estava dividida (com três candidatos) e o risco da eleição de Freitas-Prá Frente Portugal era enorme. Mas o pavilhão de uma colectividade da Cova da Piedade encheu completamente para receber a candidata. E os apoiantes esperaram algum tempo porque a caravana estava atrasada. O clima era festivo, com o jornalista Fernando Alves a manter o nível de entusiasmo no máximo. A certa altura explicou ao auditório que a candidata estava a chegar porque já se tinham ouvido os foguetes, lançados por um eventual comité de recepção, no preciso momento em que a caravana tinha entrado no concelho. Minutos depois o jornalista voltou de novo ao palco e exibiu um BI, lendo com ênfase o nome e o número. Era o BI de Maria de Lurdes Pintasilgo. Aplauso enorme e começou o discurso da candidata. Recordo-me destes preâmbulos, não me lembro de mais nada. Talvez tenha estado também num comício de campanha no pavilhão dos Desportos, mas isso já é mais duvidoso. Pode nunca ter acontecido.
Depois os resultados nas urnas foram o que se sabe e daí a semanas votava livremente no meu candidato, após um breve devaneio voluntarista. Fiz parte de um adjectivo que quase sempre assumiu contornos pejorativos, lançado na arena do combate político como um índice de menoridade ideológica - o pintasilguismo. Quem se recorda hoje disso? O que teria acontecido se Mário Soares não tivesse superado em não sei quantos pontos percentuais (muito poucos) o candidato Salgado Zenha? Não faço ideia, mas estas contas são o que menos interessa quando morre uma pessoa como a engenheira Lurdes Pintasilgo.

sexta-feira, julho 09, 2004

A cultura do lazer, livros, praia e sexo sem compromisso 

É esta, na minha leitura, a proposta do catálogo da Fnac. Não resisto à leitura destes silly papers, a que ninguém atribui dignidade literária, à entrada da sempre celebrada silly season. Trouxe da livraria do Forum de Almada o catálogo de Verão: "Fnac, a cultura do lazer - Uma proposta Fnac para tirar o máximo partido das suas férias." No interior, à maneira de prefácio, o autor anónimo escreveu: "É chegado o Verão. Tempo de lazer e descanso.Tempo de cuidar de si, de dar férias ao corpo e à mente. A Fnac sabe que está demasiado ocupado a pensar naquilo que vai fazer com o seu tempo livre, por isso, damos-lhe uma ajuda. (...) A melhor selecção de cultura e entretenimento, para fazer brilhar ainda mais o Sol do seu Verão."

Chegou o Verão e é preciso preenchê-lo, porque todos temos verdadeiro horror ao vazio à entrada de Agosto. Mas o que me inspirou foi o rosto do catálogo. Parece uma citação muito vulgar das gravuras de Jorge Colombo, onde sempre somos levados à surpresa de um cenário vivo, levemente suspenso do nosso olhar, antes de cada um dos personagens seguir o seu movimento para fora do quadro. São imagens densas, representações de representações, paródias muito afectuosas de uma realidade desejada, imensamente feliz, que só é possível imaginar em desenho.
A gravura do catálogo não é tão estimulante, já que falo de Colombo, mas por uma associação imprudente acabou por vir à colação. E o que representa a gravura? Uma vulgar cena de praia. Na tranquilidade de um nicho protegido por um pequeno biombo uma jovem morena, flor no cabelo, reclinada na areia, parece adormecida na leitura de um livro, talvez aquele em que William Gibson inventa um universo hipertecnológico muito convincente (Neuromante, Gradiva). Ligeiramente ao lado uma jovem loura, sentada, dois seios "comme des fruits", atende o telemóvel triband para cobertura global com um grande display a cores. Ao alcance da mão um pequeno portátil aberto com o teclado à vista. Em frente um leitor de CD portátil, provavelmente compatível com MP3, CD-R/ RW, etc, com visor em LCD, com função Bass Boost para realçar os sons graves. Em posição frontal, de T-shirt e calções, um jovem sentado na areia parece fechar os olhos apenas por um instante. À distância, para ganhar perspectiva, outro jovem balnear segura uma máquina fotográfica digital com um novo processador CxProcessll que equilibra vários factores fundamentais e prepara-se para disparar. Está lá tudo citado, ainda que numa ficção sem espessura: o tempo que corre com lentidão, o mar azul em fundo, a areia, o sol e a sombra, os corpos e a sua promessa de um Agosto sem compromissos. Um Agosto que pudesse durar sempre.

quinta-feira, julho 08, 2004

Congresso Nacional de Cuidados Paliativos 

É um vício (voltarei a este tópico), passar junto de um balcão de qualquer serviço público e verificar se há alguma literatura para levar de graça. Algum folheto sobre o calendário fiscal, farmácias de serviço, publicidade a actividades de tempos livres e campos de férias, a agenda de Almada, o Jornal da Região ou outra informação autárquica de consumo rápido. Excluo, naturalmente, a publicidade a pizzas e fast-food, a não ser que algum detalhe me chame a atenção. Mas a variedade é imensa, apesar de raramente merecer uma leitura além da circunstância. Ontem passei pelo balcão do Hospital e vi um opúsculo sobre o Congresso de Cuidados Paliativos, que terá lugar em meados de Novembro na Fundação Gulbenkian. Chamou-me a atenção o cuidado bi-lingue de se anunciar que se trata apenas do Programa Provisório/ Preliminary Program. Pareceu-me que tanto escrúpulo aconselhava uma leitura atenta.

A medicina interessa-me a vários títulos. Como paciente regular não falo, é história para outros posts. Interessa-me como observador. Tenho percebido nos últimos meses que a medicina é a mais espantosa diligência feita pelo homem para abarcar a totalidade da condição humana, na perspectiva dos cuidados de apoio à vida. A asserção pode facilmente derivar para a obviedade. Mas a quantidade de perspectivas e de enfoques que encontramos dão-nos a ideia de uma área de estudo, de investigação e de serviço virtualmente inesgotável e em progresso contínuo.
Interessou-me a ideia de um congresso sobre os cuidados paliativos. Abri o programa feito com simplicidade e esmero e li. Detive-me nos títulos das comunicações e confirmei uma vez mais que no programa de um congresso a palavra "café" é sempre repetida várias vezes, nomeadamente entre as intervenções, em que "coffee break" traduz literalmente a palavra "Intervalo". Depois concentrei-me, agora sim, nos títulos. E surpreendi-me com a profundidade dos temas e das visões. Há, naturalmente, as aportações técnicas ou de natureza organizacional: "Utilização de opióides no controlo sintomático" ou "Organização de serviços dos cuidados Paliativos". Um dos Workshops é dedicado às "Aptidões de comunicação em cuidados paliativos", outro ao Voluntariado. Uma das comunicações finais é sobre a Ética, com o título de "Desafios éticos em Cuidados Paliativos", abordando questões tão refinadas e complexas como a "Futilidade e qualidade dos Cuidados Paliativos" ou "Sedação paliativa: o mesmo que eutanásia?" Mas o que mais me impressionou foram as workshops da tarde do primeiro dia: "Apoio no Luto", "Espiritualidade e Dignidade no fim da vida", "Apoio à Família do doente terminal". No final do segundo dia, depois do Coffee Break uma conferência por Dr. John Ellershaw de Inglaterra: "Cuidados na Agonia: os protocolos aplicam-se?" Em inglês o título da comunicação encerra ainda maior dramatismo: "Last days and hours: are protocols usefull?" Afinal, é o comentário que me ocorre lendo este programa de um refinamento quase literário, a medicina não se resume (e já seria muito) a uma portentosa empresa tecnológica que encara o homem como um organismo muito complexo submetido a padrões reconhecíveis. É mais, sempre muito mais.
Posters e comunicações livres também estão previstos, de acordo com regras estritas.

XXI Festival de Teatro de Almada (a aventura continua) 

O Festival de Teatro de Almada, a XXIª Edição, já chegou. Vinte anos depois da primeira mostra de teatro amador no acanhado Beco dos Tanoeiros o Festival ganhou uma dimensão enorme. Para além do que é previsível - boas encenações de companhias portuguesas e estrangeiras - há música, exposições, debates e colóquios, worshops, um curso de teatro, leituras de peças, o lançamento de um livro, para não falar da esplanada onde se podia comer, na passada terça-feira, Cação de coentrada e Filetes com arroz. O programa deste ano, oferecido numa brochura discreta e profissional, apresenta-nos toda a oferta, com detalhes preciosos. Fotos das primeiras edições do Festival, textos evocativos do percurso que já foi cumprido, a inevitável prosa da presidente da Câmara (desta vez merece, pela grandiosidade da iniciativa e pelo apoio da CMA) e uma síntese minuciosa e bem escrita sobre cada um dos espectáculos apresentados.



Hoje, dia 8 de Julho, sobe à cena, pelas 18.30, no Teatro Taborda em Lisboa, Natura Morta in un Fosso da autoria de Fausto Paravidino e encenação de Serena Sinigaglia. A peça será em italiano, legendada em portugês e tem a duração de 1H30m. A companhia é a A.T.I.R. - Teatro Juvarra de Torino. Mais tarde, pelas 21.00H no Teatro São Luiz, será a vez de ver La Brisa de la Vida, de David Hare e encenação de Lluis Pasqual. Duração da peça da companhia espanhola Nacho Artime: 1H30m. A língua é a espanhola, por supuesto.
As iniciativas cruzam-se diariamente a um ritmo que até se torna difícil de seguir, a não ser que alteremos a nossa rotina durante duas semanas. Por isso a assinatura de 65 € e a assinatura especial para jovens com menos de 25 anos ou adultos com mais de 65, no valor de 35 €, é uma oferta. Nada a acrescentar.
A participação mais inesperada será, talvez, a da Orquestra Feminina Andaluz de Tetuã que actuará no Palco Grande no dia 14 pelas 22h00. É um grupo que se especializou em dois géneros musicais distintos, a Nuba (música clássica árabe dos séculos XII a XIV) e a Chaabi, popular, que remonta aos séculos XIX e XX.
Mas há mais: Heldenplatz (A Praça dos Heróis) de Thomas Bernhard, a 15 e 16, Emmanuel Kant, também do autor austríaco, a 11 e 12, onde o filósofo é surpreendido a bordo de um navio a caminho de Nova Iorque, onde será agraciado com o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Columbia, aproveitando também para tratar das cataratas.
No programa da Ana Sousa Dias, Por Outro Lado, Joaquim Benite referiu-se a um grupo argentino que representa para uma pessoa de cada vez. No Programa aparece, de facto,a referência a Cuentos para un Invierno Largo que será representado na esplanada da Escola D. António da Costa. Não sei se aí se manterá a promessa de intimidade dessa força personalizada de representação, tipo on demand.



Tenho sido um mau espectador do Festival. Fui algumas vezes, com assinatura oferecida pela Junta de Freguesia de Corroios, e com bilhte pago. Recordo-me de ter assistido em dois anos consecutivos ao Lazarillo, com um iluminado Rafael Alvarez "El Brujo", que já vira antes (ou terá sido depois?) no Festival de Teatro de Mérida a representar, também em estado de graça o Anfitrião de Plauto. Inesquecível, qualquer delas. Em 1999 assisti a outra obra prima de Goldoni, com encenação de Giorgio Strelher, Arlequino, servidore de due patrone. Também me recordo, provavelmente no mesmo ano de uma versão (eu chamei-lhe lobotómica, porque me pareceu que a peça tinha sido lobotomizada) da peça de Lorca A Casa de Bernarda Alba. Mas os momentos de felicidade poderiam ter sido muitos mais, tantos mais que nem me ocorre dizer mais nada sobre as oportunidades que perdi.

Para visitar a excelente página do festival deste ano é só clicar aqui.

terça-feira, julho 06, 2004

Apontamentos (1) - sobre o Desporto Escolar, no rescaldo do Euro 2004 

Terminadas as aulas, em vias de findar o ano lectivo (na verdade só acaba a 31 de Agosto) aparecem muitas reflexões estimulantes nos blogues sobre educação; professores libertos da pressão das aulas e à vista das férias que resolvem partilhar algumas ideias, fazer balanços de mais um ano lectivo. Ora bem, eu que estou fora desde há meses, mortinho por escrever sobre o assunto, resolvi "patrulhar" alguns desses blogues e corresponder com opinião própria às ideias que aí se manifestam. Sem pretensão de fazer doutrina, sem dogmatismos mesmo se o estilo veemente me desliza para o aforismo ou para a asserção definitiva. Nada... são só ideias que aceitam o contraditório. Começo por reagir ao blogue Aragem, a que regresso sempre como quem assoma a uma janela aberta na correnteza do vento. Aqui vai o primeiro apontamento.


Caro colega Miguel Pinto, não acompanho suficientemente o Desporto Escolar, para poder falar dos seus méritos e deméritos com a mínima confiança. Cruzei-me uma ou outra vez com as pessoas que na minha escola o dirigem, realizei com elas algumas actividades, mas pouco mais. Não tenho no entanto qualquer dúvida de que o desporto escolar tem virtudes, quer em termos educativos quer em termos formativos, num sentido mais lato, que nem sempre têm sido devidamente aproveitadas pela escola. E isso por algumas ordens de razões, que me permito aqui enunciar sem procurar propriamente fazer doutrina: (1) as actividades desportivas - a realidade da disciplina de Educação Física, inclusivé - são frequentemente ignoradas na escola, encaradas como um parente pobre do ensino e da ordem curricular; (2) os acontecimentos desportivos que decorrem do âmbito do Desporto Escolar não são assumidos pela escola como verdadeiros acontecimentos escolares - a visibilidade do desporto na nossa sociedade do espectáculo (como reflectia noutro post) não tem qualquer analogia com a invisibilidade e a ignorância que a escola revela no que respeita à actividade desportiva; (3) por outro lado também me parece que os responsáveis do Desporto Escolar, resignando-se com esse estatuto de menoridade, nem sempre sabem colocar as actividades desportivas, os torneios e concursos desportivos no centro da actualidade escolar; (4) o desporto e as modalidades desportivas mais apreciadas pelos jovens poderiam ser utilizadas como parte decisiva e inspiradora de projectos educativos, nommeadamente nas situações de maior dificuldade, de recusa da escola e de abandono iminente; (5) a ligeireza com que os comentadores, os políticos generalistas e a opinião pública e sobretudo a publicada fala da escola, revela um problema sobre o qual ainda não pensámos o suficiente: a deficiente percepção da realidade da escola por parte da sociedade em geral; todos presumem saber aquilo de que a escola precisa, todos julgam poder identificar as fraquezas da escola quando a percepção do que é a escola se faz sobretudo de uma amálgama de preconceitos do passado (todos temos um passado escolar, quantas vezes traumático), de lugares comuns difundidos pela imprensa ligeira, de parti pris ideológicos e de simples erros de percepção e de subjectividade. A escola não é uma instituição transparente nem para si própria; não o é, seguramente, para a sociedade em geral. A escola opaca é a imagem que me parece mais adequada, sem querer brincar com as palavras.

Num quadro como este também faz sentido levantar as questões que coloca a propósito do modo como os êxitos desportivos da selecção nacional repercutem na prática do desporto escolar. A avaliar pelas dificuldades que se têm verificado (na minha escola algumas deslocações de alunos-atletas são pagas por professores) a resposta poderá não ser particularmente animadora, mesmo depois do brilhante 2º lugar no Campeonato da Europa.