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quinta-feira, junho 03, 2004

Um homem da Rádio confessa-se (e o fado, senhores?) 

O título do livro, com a chancela da editora Sete Caminhos - A rádio não acontece... faz-se - repete o nome de um programa realizado em tempos pelo Fernando Correia. A obra começa como uma reflexão acerca da comunicação e da informação da rádio, com citações e tudo, termina com evocações de uma memória longa de quase 50 anos de trabalho e constitui ainda um balanço de uma vida inteira dedicada ao jornalismo radiofónico. Por vezes o autor não resiste à tentação de ajustar contas com o seu tenpo e com algumas pessoas que com ele se cruzaram. Mas o tom ameno e ecuménico nunca dá lugar verdadeiramente ao ressentimento puro e duro. Pelo contrário, o Fernando Correia, reconhecido e admirado pela sua humanidade e sentido de tolerãncia, refere uma longa legião de amigos e de pessoas que modelaram a sua forma de fazer rádio. Por vezes o relato perde-se na anedota e o livro, cheio de experiências que marcaram uma vida intensa de trabalho e de amizades criativas, não chega a constituir o índice de uma história da nossa rádio, como parece pretender.
Algumas ideias interessantes. A rádio é um meio de comunicação e um canal de informação que mantém com o directo uma relação priveligiada. Nenhum outro media está tão disponível para o curso ininterrupto de informação, num modelo de canal aberto que faz da rádio um meio que toca, como nenhum outro, o seu receptor. A rádio do futuro será a rádio especializada, num quadro em que a rádio generalista terá apenas uma função de serviço público. Rádio Notícias, como é o caso da TSF, mas também rádio desporto (que parece ser o grande projecto sonhado pelo autor), rádio cultura, rádio teatro...
A internet é, para Fernando Correia, já um meio a que a rádio não pode virar costas. Por isso imagina uma rádio on line, tema que afinal acaba por não explorar.
Uma nota à margem: descobri, lendo este livro, que o famoso João Sebastião Bar, situado "ali" em S. Pedro de Alcântara, foi criado pelo Fernando Correia em 1974. Durante 14 anos o bar foi um dos lugares da intelectualidade de esquerda. Dali, de um estúdio improvisado, conta o autor, tiveram lugar muitos directos e foram realizados muitos programas de rádio.

P.S.: de manhã no café Figuras, no recato de uma sala ampla. Li com interesse o cap. 2 do ensaio de Rui Vieira Nery - Para uma História do Fado. Afinal a canção nacional, que expressa as mais recônditas subtilezas da nossa alma nostálgica... foi urdida na sensualidade do cruzamento afro-brasileiro. O fado veio embalado das colónias, do Brasil, de África, miscigenou o nosso carácter abstracto com a inquietação erótica dos brasileiros e a cadência irresistível dos africanos. Eis o fado.

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