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segunda-feira, junho 07, 2004

Teoria Geral da Estupidez Humana: os 5 axiomas de Carlo Cipolla (a minha adenda) 

Não vou qualificar agora a imprudente indiferença com que tratamos geralmente a estupidez humana, a dos outros, porque naturalmente resistimos a aplicar a nós próprios as considerações que tão generosamente prodigalizamos a terceiros. Sobrevoava há dias a blogosfera portuguesa quando dei com um blogue chamado Portugal dos Pequeninos, com um poema do Alexandre O'Neil em epígrafe. Gostei do que li. Num post recente o seu autor, que subscreve os textos com joao_ms_goncalves, refere-se ao livro de Carlo Cipolla, Addagio ma non troppo, da Celta Editora. Cito a partir dali as 5 leis gerais da estupidez humana, declinadas pelo autor. Primeira: "cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação". Segunda: "a probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa". Terceira: a pessoa estúpida é aquela "que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo, até, vir a sofrer um prejuízo". Quarta: "as pessoas não estúpidas subestimarem sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas", ou de outro modo, "os não estúpidos esquecem-se constantemente que em qualquer momento, lugar e situação, tratar e/ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se, infalivelmente, um erro que se paga muito caro". Finalmente, em quinto lugar, o autor afirma que 'a pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe'. Em conclusão das leis apresentadas, "as pessoas estúpidas causam perdas a outras pessoas sem que obtenham vantagens para si próprias (...) elas apenas conseguem empobrecer toda a sociedade".
Quando há alguns anos li uma recensão sobre o livro retive a segunda lei que afirma a independência da estupidez humana face a qualquer outra característica. De facto o que é novo no tratamento da estupidez é o modo como ela é levada a sério. Não há nada de contraditório (em termos) em conceber um bispo estúpido, um merceeiro estúpido, um professor ou um pedinte estúpidos. E por aqui adiante. Estabelecido este princípio a estupidez ganha novos contornos, torna-se verdadeiramente uma ameaça - na verdade já o era antes. O estúpido não é necessariamente um ingénuo nem um tolo inofensivo, o estúpido é um indivíduo perigoso quando publicita os seus actos. E mais ainda se resolvermos admitir - como eu prefiro admitir - que a estupidez é uma predisposição e um quadro de referências individuais, mas não necessariamente uma idiossincrasia. É como a santidade mas ao contrário: quantos homens santos não foram em tempos (óoo) grandes pecadores? Quantos estúpidos não poderão um dia... etc.
Como se identifica um estúpido, como distinguimos entre outros os actos verdeiramente estúpidos? Não li o livro, onde poderia encontrar seguramente bons conselhos sobre a matéria. Mas tenho uma ou duas ideias que me acompanham desde há anos. Em primeiro lugar, tal como acabei de referir: a estupidez não é idiossincrática, no sentido em que assimilamos idiossincrasia a carácter; ela constitui-se pela frequência, permanece uma predisposição meramente estatística, estabelece uma probabilidade. O que faz pairar, sobre qualquer um de nós, a pecha da estupidez, sem que tenhamos de admitir (quem o admitiria seriamente?) que somos realmente estúpidos, do mesmo modo que uma porta é irremediavelmente uma porta, agora e para sempre.
Em segundo lugar, a estupidez caracteriza-se por acelerar drasticamente a entropia, estabelecendo uma pura perda. Quer de soluções e de recursos, como no campo das relações entre as pessoas. A estupidez caracteriza-se (em abstracto) por reduzir obstinadamente o universal ao particular, sem que o estúpido perceba a diferença. Estúpido é aquele que recusa a abertura das possibilidades, escolhendo e arrastando outros na escolha perversa do seu contrário. Consiste sobretudo em afunilar as possibilidades deliberadamente, regozijando-se na perda. Uma ontologia da estupidez estabeleceria uma regra muito simples: estúpido é tudo quanto contribui para reduzir o ser, para coarctar a realidade, para restringir o humano do homem. Por isso a estupidez é, frequentemente, uma forma de crueldade.
Em terceiro lugar: nenhum trocadilho ou jogo de palavras evocando o conceito de estupidez, o substantivo estúpido, ilustra ou esclarece necessariamente o problema da estupidez humana; dizer, por exemplo, que 'qualquer discurso sobre a estupidez corre sérios riscos de se tornar, ele mesmo, estúpido' ou que 'aquele que ignora os riscos de um comportamento estúpido é... provavelmente um estúpido' são jogos de linguagem que não levam a nada. Só por isso me inibo de, com toda a propriedade, os considerar em si mesmos, um devaneio alegre de um carácter obstinadamente estúpido.

Consultar este artigo sobre as Leis de Carlo Cipolla.

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