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domingo, junho 27, 2004

Tempo de blogues (a veemência do vício) 

Onde é que eu estava antes dos blogues? Como passava o meu tempo antes do chat, da busca caótica na rede que me deixa enleado numa lista quilométrica de Favoritos fora de prazo? E nem vale a pena regredir mais, para não falar das horas perdidas a fazer zaping no cabo, e antes disso só pode ser a pré-história.

Mas vale a pena perguntar de onde retiro o tempo para escrever estes textos, estes posts, para os quais nem sequer encontrámos ainda um termo consensual?
Quando entro na rede começo invariavelmente por fazer uma ronda pela minha lista de blogues favoritos - quase sempre pelo mesmo caminho. Depois comento algum dos textos que li, mas já percebi que não vale a pena reagir a todas as provocações com sangue na guelra. Escrever o essencial, preservar a opinião para aquilo em que vale a pena deixar a nossa marca pessoal. Decidi cultivar um post bem temperado, sem excesso de informalidade, que acaba por vulgarizar, mas com o humor que salva. Escrever a partir de um tópico de leitura, de uma ideia recorrente, de uma imagem roubada ao correr dos dias, escrever sobre aquilo que me mobiliza. Sempre na órbita bastante elíptica da leitura e dos livros, das minhas leituras, que frequentemente me arrastam para uma vertigem centrípeta, que me afasta mais e mais do propósito inicial. Mas as minhas leituras são a deriva do meu propósito inicial de leitura, a deriva do certo para o incerto, para o confuso, para o acaso. São o tal processo caótico do leitor que recusa a leitura sequencial, como teorizava gravemente no início destas escritas. Hoje compreendo melhor, no tempo roubado ao resto, quais são e por que caminhos transcorrem as minhas leituras erráticas. Enquanto durar esta inércia do leitor que acende um livro no livro anterior, com a veemência do vício, devo continuar a necessitar de escrever estes textos sem destinatário certo, como quem procura prolongar a leitura. Até que uma urgência nova e inesperada venha sobrepor-se a esta necessidade e se instale no tempo em que agora, abdicando de qualquer coisa, me dedico à escrita compulsiva que segue noite dentro.

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