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terça-feira, junho 01, 2004

Salvatore, o percursor da interlingua 

Depois das minhas descobertas no que concerne ao desenvolvimento de uma língua supranacional, lembrei-me de Salvador, a mosntruosa criatura do Nome da Rosa de Eco. A figura do homem deformado emerge da sombra da abadia e despeja uma torrente de palavras de língua nenhuma e afinal de todas as línguas. Salvador foi um dos percursores involuntários da interlíngua. "O homem sorriu (ou pelo menos assim julguei)", - começa o narrador, o envelhecido Adso de Melk - "e, levantando o dedo como para admoestar, disse:
- Penitenciagite! Vide quando draco venturus est para roê-la a tua alma! A mortz est super nos! Reza que vem o papa santo para livrar nos a malo de todas as peccata! Ah, ah, gostais d'ista necromancia de Domini Nostri Iesu Christi! Et mesmo jois m'es dols e plazer m'es dolors... cave el diablo! Semper m'espreita em qualquer canto para me ferrar os calcanhares. Mas salvador non est insipiens! Bonum monasterium, e aqui se manja e se roga dominum nostrum. Et el resto valer um figo seco. Et amen. No?"

Hora sexta do primeiro dia.



Guilherme e Adso acabavam de chegar à abadia. O jovem acompanhante do franciscano detem-se a admirar o portal da igreja, apesar da sua relativa vulgaridade. No templo têm um estranho encontro, antes de darem com o velho Ubertino de Casale, deitado no chão e de braços abertos, em sinal de extrema humildade, orando febrilmente. "O ser que estava atrás de nós parecia um monge, embora a túnica suja e rasgada o fizesse assemelhar antes a um vagabundo, e o seu rosto não era diferente do dos monstros que tinha acabado de ver nos capitéis", explica Adso. Aquele homem que surge da sombra, curvado, timorato e quase ininteligível, começa a falar. Expressa-se num idioma cosido de retalhos: "(...) nunca compreendi então, que género de língua ele falava. Não era latim, língua em que nos exprimiamos entre homens de letras na abadia, não era a língua vulgar daquelas terras, nem outra vulgar que jamais tivesse ouvido. (...) Quando mais tarde soube da sua vida aventurosa e dos vários lugares onde tinha vivido, sem encontrar raízes em nenhum, dei-me conta que Salvador falava todas as línguas e nenhuma. Ou melhor, tinha inventado uma língua própria usando os pedaços das línguas com que tinha entrado em contacto - e uma vez pensei que a sua era não a língua adâmica que a humanidade feliz tinha falado, todos unidos por um só falar, desde as origens do mundo até à Torre de Babel, e nem sequer uma das línguas surgidas depois do funesto evento da sua divisão, mas precisamente a língua babélica do primeiro dia depois do castigo divino, a língua da confusão primeva. (...) E todavia, bem ou mal, eu compreendia o que Salvador queria dizer, e os outros também."
As citações deste post foram colhidas de O Nome da Rosa de Umberto Eco, da Difel, 11ª edição sem data.


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