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sexta-feira, junho 25, 2004

É possível falar com um fascista? 

O melhor da blogosfera - região do espaço onde tudo confina com tudo o resto, independentemente da sua posição relativa no universo - é que todas as opiniões se cruzam potencialmente na esquina de qualquer link. A partir de um blogue podemos chegar a todos, com a ajuda de meia dúzia de outros blogues que se atravessem pelo caminho. Não sei como cheguei até aqui, mas desde há meses que frequento o blogue de um (para mim) ilustre desconhecido que escreve regularmente no FASCISMO EM REDE. O nome, as ideias e as simpatias que manifesta nos seus posts merecem-me, assim a seco, a maior reserva e a mais clara aversão. Deste blogue tenho chegado a outros da mesma área que são - numa palavra - simplesmente repugnantes, pela linguagem, pela postura dos seus autores, pela falta de seriedade e pelo ódio que lhes merece o cidadão comum. Não é, contudo, o caso deste a que aqui me refiro e ao qual regresso regularmente. O seu autor parece-me sensato, mesmo quando estou longe de partilhar as ideias que lá se divulgam. Mas o que me interessa, mais do que partilhar ideias, é saber que posso discuti-las cordialmente com aqueles de que discordo. Haverá um limite, para lá do qual a substância das ideias acabará por inviabilizar um debate civilizado. Admito que não seja o caso, o deste blogue, o deste autor. A resposta à pergunta que dá título a este post poderá até ser afirmativa; quanto a saber se nos podemos compreender... isso já é outra coisa muito diferente.

Deixo aqui o texto do meu comentário a um ou dois dos posts daquele blogue. O pretexto pode ser de circunstância, mas as questões que coloco são, em meu entender, decisivas.

"Meu caro amigo, escrevi um comentário no seu texto "O concerto dos Fachos" elogiando o seu sentido democrático, admito que com alguma ironia. Agora leio um texto em que começa por produzir algumas palavras bem pouco elegantes sobre a Assembleia da República (Assembleia Nacional, para si, mas as coisas são o que são e as palavras não são um instrumento asséptico) para depois convocar toda a gente, num acto de militância perfeitamente legítimo, a assistir à discussão em plenário de duas petições. O Direito de Petição é um direito das pessoas e accioná-lo é um acto de cidadania que só aprofunda a qualidade da nossa democracia. Por isso continuo sem compreender o mar de ambiguidades em que submerge frequentemente os seus textos. Antidemocrata convicto recorre convictamente aos recursos que a democracia lhe propicia, sem no entanto reconhecer à democracia qualquer mérito. Por isso cita Maurras, se não me engano (agora cito eu de memória) quando diz que "contra a democracia todas as armas são aceitáveis ou legítimas, inclusivé as democráticas". A afirmação é de um cinismo perfeitamente obsceno, até porque para um democrata "nem todas as armas são aceitáveis quando se trata de combater os não democratas". E a prova disso é que, ao contrário do que pensa e escreve, a própria democracia tolera a manifestação do pensamento antidemocrático, de que a liberdade de expressão de que o meu amigo usufrui é uma boa prova (liberdade que não tem, em todo o caso, de agradecer a ninguém, porque é um direito que se garante melhor em democracia do que em qualquer outro regime).
Por isso a contradição de que me acusa, em resposta ao meu comentário, parece-me inusitadamente superficial. Quando me pergunta, com evidente malícia, se não estarei eu a cair numa atitude antidemocrática quando defendo algumas restrições à liberdade de reunião, não me parece, de todo acertar na grande questão. Não volto ao problema da inconsistência (e aqui sim da contradicção) de se defenderem as virtudes da democracia e as suas prorrogativas desde uma posição explicitamente antidemocrática. Coloco a questão noutros termos.
1. A Democracia é um modo de organização humana e de autogovernação historicamente determinado, presumindo-se daqui que é aperfeiçoável;

2. Tal como as acções dos homens em situação a democracia também envolve contradições, o que a distingue de outras formas de organização humana é o modo como essas contradições são resolvidas colectivamente;

3. A Democracia não é um modo de organização sem regras e onde tudo é possível - já agora que me diria da contradição básica que encontramos quando defendemos, como acontece implicitamente nas suas palavras - que uma democracia poderia decidir, democraticamente, tornar-se antidemocrática?

4. Quem aceita a Democracia como a melhor plataforma de autogoverno, que permite a maior latitude possível de liberdades e garantias individuais, aceita também as suas regras; quem não aceita a democracia (como parece ser o seu caso) pode ainda assim recorrer a uma vasta panóplia de recursos em que é livre de manifestar as suas opiniões. Inclusivamente pode defender objectivamente o recurso a métodos antidemocráticos, na esteira de Maurras, e com assinalável oportunismo político, para lutar contra a democracia. Ninguém lhe pedirá contas por isso, ninguém o incomodará. O máximo a que pode aspirar é que alguém como eu lhe escreva um comentário indignado mas respeitoso.

5. Mas não peça à democracia, que é uma construção muito humana, talvez demasiado humana, para admitir no seu quadro de valores tudo e o seu contrário. Pedir à Democracia que admita e caucione métodos antidemocráticos de construção da legitimidade para governar é pedir demais. E é isso que implicitamente, mas com a cobertura frívola da ironia, me pede no seu comentário ao meu comentário.

6. Desde que visito o campo nacionalista ou nacional, para usar uma expressão que me repugna, dei-me conta de que são aqueles que mais reservas colocam aos valores democráticos e à defesa das liberdades individuais, que mais reclamam ambos na hora de manifestarem, aqui sim contraditoriamente, os seus valores tendencialmente antidemocráticos. Por isso o valor da liberdade de expressão, da manifestação da diferença, são tão citados e reclamados justamente por aqueles que uma vez no poder (estou certo disso) seriam os primeiros a encontrar pretextos para limitá-los drasticamente.

7. A este propósito não posso deixar de assinalar o discurso hipócrita do PNR que mascara um projecto visivelmente autoritário com fórmulas politicamente correctas que só iludem aqueles que estão mais desatentos.

Agora algumas perguntas que lhe queria dirigir. Leio os seus textos com regularidade apesar de não me identificar com as suas ideias, que por vezes me parecem inaceitáveis e outras vezes (a maior parte das vezes) não compreendo. O seu ecumenismo pró-fascista, fascista, identitário, nacionalista, tradicionalista, anarco solidário, sindicalista, solidarista, falangista... etc, é uma virtude, porque só prova a sua tolerância ideológica, a sua abrangência, eu diria (se quisesse fazer humor), democrática. Mas sob outra perspectiva deixa qualquer leitor bem intencionado que se aproxime dos seus textos na maior confusão. Não vou ser deselegante e portanto não direi que sob esse ecumenismo ideológico se encobre uma ambiguidade de raiz. Prefiro acreditar que essa ambiguidade é propositada e que ela corresponde a uma estratégia de militância, mais do que a um defeito. Deixo-lhe então algumas das questões que prometi acima:

1. Em que modelo concreto de governação se revê, em qual acredita, quando se afirma fascista?
2. Em que consiste o campo nacionalista ou nacional a que se refere frequentemente?
3. E a República Nacionalista – expressão que já li mais de uma vez – corresponde efectivamente a quê? É democrática? Aristocrática? Carismática? Admite o pluripartidarismo? É um regime parlamentar multipartidário?
4. Admite a liberdade de Imprensa sem censura prévia, num quadro de regime nacionalista?
5. Em que quadro devem decorrer as relações entre nações no seio da Europa? Aceita a União Europeia ou repudia-a?

E ficaria por aqui, para já. Acredito que é possível dialogar quando os interlocutores se respeitam e são claros no que dizem. Ao contrário de outros blogues do campo nacionalista (que destilam ódio e uma aversão às pessoas, ao cidadão comum que somos quase todos nós) encontro nos seus textos motivos para acreditar que é possível conversar com um fascista."

Comments:
Só agora descobri o teu blog. Quero-te dizer que o achei um dos mais bem escritos e interessantes que tenho visto. Grande post tb, este. Que continues com este bom trabalho, agora serei teu visitante regular.

Milan
 
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