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terça-feira, junho 22, 2004

O Nariz de Jorge Silva Melo 

Pelas 17.30 escrevi: "Dentro de minutos estarei na sala do Forum, mergulhado no absurdo da leitura de Gogol. Jorge Silva Melo começa a ler o conto do autor russo dentro de três quartos de hora. Não li o conto ainda, não vou lê-lo, vou ouvi-lo. Queiram aguardar."

O Forum foi grande demais para esta leitura, a sala Polivalente foi imensa e ainda ficou muito espaço. A mesa de 7 lugares chegou e sobrou para nos sentarmos com o "nosso" leitor por uma hora. Na verdade quando cheguei ao Forum Romeu Correia segui os meus instintos e aproximei-me de uma pequena "multidão" de quatro pessoas que pareciam esperar qualquer coisa inevitável. Uma delas era o Jorge Silva Melo, o mesmo que uma vez numa crítica de teatro ou de cinema inventou a espantosa imagem paradoxal de se "bater palmas com uma só mão"... A hora chegou e deslocámo-nos para as imediações da sala de Leitura da Biblioteca. O leitor, depois de entrar por instantes, regressou à porta e disse: "Se fizerem favor..." e entrámos. Sentámo-nos ao redor da mesa, deixando um lugar de distância de cada lado. O leitor puxou de uma edição de O Nariz da Assírio & Alvim, creio, e após muito breves palavras começou a leitura.
Eu posso dizer, não com absoluta sinceridade, que nunca li "O Nariz" de Gogol, como, aliás, nunca li "O Poço e o Pêndulo" de Poe. Mas ouvi esses dois magníficos contos, tão distintos, lidos admiravelmente por dois grandes leitores, ambos dos Artistas Unidos.
Jorge Silva Melo, evitando as preâmbulos, começou a ler. Sem preparar a voz, sem ritual, sem ajeitar ao lado, à frente do lado esquerdo, uma garrafinha de água. Leu. Com um ímpeto vigoroso, por vezes veloz, com entoação quase truculenta, corrigindo-se sem mesmo se deter. Escolheu-me como seu interlocutor visual, a quem mirava regularmente para pontuar a leitura, regressando logo às páginas do livro. O absurdo da narrativa de Gogol transcurria pela voz de Jorge Silva Melo com absoluta naturalidade. E nunca falhou a entoação certa. O texto saía em borbotões, enquanto nós, em completo silêncio, ouviamos daquele manancial milagroso. Recordo-me, com vergonha, de ter cedido à sonolência por um par de vezes, mas nunca à indiferença. Nessas alturas parecia-me ouvir uma advertência inquietante, desde o interior do próprio absurdo, desde as páginas do conto ... "mas o acontecimento fica a partir de aqui totalmente mergulhado na bruma e não se sabe absolutamente nada do que aconteceu depois". Menos de uma hora após me ter sentado à mesa para ouvir Jorge Silva Melo já regressava a casa, a pé, descendo a escadaria por detrás do Fórum de Almada.
Quem quiser ler "O Nariz" numa versão espanhola que descubri através do Google, podia ter clicado sobre o título do conto de Gogol em qualquer uma das suas referências anteriores, mas pode fazê-lo finalmente aqui para evitar regressar lá atrás.

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