<$BlogRSDURL$>

terça-feira, junho 22, 2004

O Clímax de uma espera bem sucedida 



É uma ideia feita, já se sabe, e o efeito é fácil. Mas não resisto à evidência (borgesiana) de que na palavra "rosa" não se encontra o fulgor da rosa, nem o seu aroma se desprende dessas quatro letras reunidas arbitrariamente. E na palavra "golo", o que resta ainda da euforia súbita que acomete as multidões na espera? É inútil escrever a palavra com muitos "o", para reter, na demora da fala, a emoção que ela desencadeia. A palavra "golo" dita como "goooooooooooooooooooolooo" é pura expressão emocional do locutor, e por isso desvia-se da objectividade do que acontece. Quando gritamos "golo" acolhemos em nós a grande surpresa, justificamos uma grande espera que não foi em vão. Na verdade o golo é o clímax de uma espera que não foi em vão. Tal como o riso é o climax convulsivo de uma história que criou no ouvinte atento expectativas infundadas. E o orgasmo é o clímax da compulsão em direcção ao outro, ao mais íntimo do outro, e que acaba finalmente em derrame. Pensado desde a perspectiva masculina, que me perdoem os que são mais politicamente correctos. Por isso quando nos damos conta daquilo a que pudicamente chamamos "golo", esse clímax da espera bem sucedida não andará muito longe do riso e do orgasmo, remisturados numa química mais básica e mais explosiva.

Comments:
Curiosamente, deixei um comentário no Fórum Comunitário que afina pelo mesmo diapasão: o golo é um orgasmo colectivo.
 
Enviar um comentário