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segunda-feira, junho 21, 2004

A Gestão Democrática, a caricatura ou lá o que seja 

De passagem pelo blogue Da escola, que visito diariamente, dei com um post que me desatou a língua. Deixei um longo comentário que reproduzo aqui, extirpado da entrada e da saída. Só o miolo do texto, o resto é sobre futebol. Mas vale a pena ir ler aqui (ou ali) o comentário subtil sobre a organização de jogo que me estimulou a escrever estas palavras. Eu aviso, no comentário que as minhas afirmações são exclusivamente induzidas do conhecimento da João de Barros, das cinco outras escolas em que prestei serviço, também de algumas outras que conheço de as ter visitado e, já agora do que tenho lido e conhecido pela net. Portanto nada que possa generalizar-se sem risco de erro grosseiro, não obstante a veemência de algumas das minhas observações levarem a pensar no contrário.

1. A criação de um novo orgão de gestão com o novo modelo, - a Assembleia de Escola (AE) - implicou, potencialmente, um aprofundamento da democraticidade da gestão escolar. Infelizmente quer a AE, quer o Conselho Executivo (CE), não assumiram, na generalidade dos casos que conheço, as despesas desse desafio.

2. A AE foi concebida como um orgão de reflexão estratégica, de legitimação das políticas educativas da escola e como sede de aprovação dos grandes documentos de gestão e balanço: o Plano Anual de Actividades (PAA), o Projecto Educativo (PE), as Linhas do Orçamento escolar, relatórios finais, etc.

3. Frequentemente essa reflexão estratégica, facilitada por uma menor exposição da AE ao escrutínio público e às pressões da gestão diária ou não foi correspondida pelo CE ou não foi encarada como uma prioridade de acção pela Assembleia.

4. A gestão diária de uma escola, a cargo do Executivo, raramente ultrapassa a contabilidade do curto prazo, do deve e haver; poucos de nós terão a sorte de poder ter contado alguma vez com um executivo com imaginação e com visão estratégica. A regra é, a mais das vezes: o executivo decide e executa e os outros que tenham ideias, se quiserem.

5. A informação qualificada circula pouco e circula mal, quer entre orgãos de gestão, quer entre estes e a comunidade escolar. Na verdade ou não há canais para libertar, prontamente e com economia de meios, a informação produzida nos actos de gestão ou falta pura e simplesmente uma cultura de informação e de comunicação.

6. A gestão escolar tem dificuldade em gerir os conflitos e por isso evita-os a todo o transe ou ignora-os. Evita-os pelo unanimismo, ignora-os pela autocracia, ou por uma gestão sem partilha de informação.

7. Não há uma saudável cultura do contraditório, e em consequência disso não há espaços formais ou informais de opinião numa escola. A escrita num blogue, como este e outros que debatem temas escolares, a participação num forum, abrem finalmente esse espaço de opinião, e da forma mais inesperada.

8. A comunidade escolar é um pequeno mundo, uma réplica à escala das relações de aprendizagem, da sociedade em que se inscreve - ninguém pergunta porque não há opinião fundamentada e informada nesse pequeno microcosmos.

9. Os orgãos de gestão são legitimados pelo voto e depois deixados à sua sorte - sem nenhuma instância crítica interna, sem prestar contas no final de cada ano perante a escola, sem qualquer balanço em final de mandato. Pode acontecer, acontece seguramente em muitas escolas.

10. Por isso não poderei concordar mais com o que diz, caro colega, quando escreve que falta aos que gerem as escolas "capacidade de análise organizacional, compreensão da relação entre o indivíduo e o grupo, os objectivos e os interesses individuais e os interesses e os objectivos da escola, entre estratégia imediata e o sentido de missão".

11. Uma consequência extremada das considerações que aqui deixo poderá levar-nos a considerar que o balanço da gestão democrática da escolas é, no mínimo, muito embaraçoso. Muitas vezes não terá sido efectivamente democrática, outras nem foi gestão, porque para gerir é preciso ter ideias. Ou ter o "sentido de missão". Eu diria primeiro que é preciso ter uma "visão". E sobre a gestão virão concerteza novidades, em breve. Que legitimidade teremos para a contestar ou credibilidade para a apoiar, quando deixámos todos que a gestão das escolas muito frequentemente fosse uma tarefa exercida à margem de toda a crítica e de toda a avaliação? Uma caricarura da gestão realmenre democrática...

Comments:
Há muito que não lia algo tão bem escrito.
Printei. Vou divulgar!
 
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