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terça-feira, junho 01, 2004

Folhas de Erva/ Leaves of Grass, do velho (hermoso) Walt Whitman 



PARA TI Ó DEMOCRACIA

Vem, construirei o indissolúvel continente,
Criarei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol já brilhou,
Criarei terras magnéticas e divinas,
Com o amor dos companheiros,
Com o amor eterno dos companheiros.

Plantarei um companheirismo tão denso como as árvores ao longo de todos os rios da
América e ao longo das margens dos grandes lagos, e por todas as pradarias,
Criarei cidades inseparáveis com os braçois em redor dos pescoços umas das outras,
Por amor aos companheiros,
Pelo amor amor viril dos companheiros.

Para ti tudo isto da minha parte, ó Democracia, para te servir ma femme!
Para ti, para ti eu entoo estas canções.


Conheço a intensa alegria da poesia de Whitman, o fulgor das suas palavras, o seu entusiasmo juvenil, viril, apenas a partir de duas ou três referências. Lorca, Pessoa, que me lembre. De Fernando Pessoa sempre me fascinou a grande magnificência, digamos, cósmica, da sua Saudação a Walt Whitman. O poema, do engenheiro naval Álvaro de Campos (de olhos azuis, como já ouvi dizer), tal como o conheço na antiga edição da Ática é um hino à Liberdade, ao Universo, à vida sem limites nem impedimentos morais. Começa assim:

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,
E conforme te sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.


Mais tarde dei com Poeta en Nueva York de Lorca, escrito sob o influxo da cidade que "geme pelas imensas escadarias". A viagem de Federico Garcia Lorca, de que passam 75 anos no próximo 25 de Julho, alargou o fôlego da sua poesia, tornou-a moderna noutros sentidos antes insuspeitados. Na sua Oda a Walt Whitman, Lorca fala do grande poeta americano com o mesmo sentido de fraternidade de Álvaro de Campos. O poeta que "soñaba ser un río y dormir como un río" é o "anciano hermoso", com a barba cheia de borboletas. O poema, que é cantado por Patxi Andion num disco de homenagem a Lorca, passa por estes versos:

Ni un solo momento, viejo hermoso Walt Whitman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados por la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,
ni tu voz como una columna de ceniza;
anciano hermoso como la niebla,
que gemías igual que un pájaro
con el sexo atravesado por una aguja,
enemigo del sátiro,
enemigo de la vid,
y amante de los cuerpos bajo la burla tela.


Mas o primeiro vislumbre que tive do autor americano foi com um livrinho, mais biografia que Antologia (apesar de reunir alguns poemas) que comprei em 17 de dezembro de 1983, há quase 21 anos. Resgatei o exemplar degradado de uma das bancas da praça do Comércio, onde então comprava muita coisa, antes de me recolher um pouco ao Martinho da Arcada para confirmar a minha oração literária. Paguei 50$00, assim mesmo com cifrão e tudo. Nem a representação ingénua da bandeira americana numa capa esfolada e desagradável ao tacto, me dissuadiu da compra. Tem repousado na prateleira da literatura americana, ao lado de Henry Miller, de Melville, de Kerouc, de Gore Vidal.
Há dias a Manuela chegou da Feira do Livro com dois tomos envolvidos por uma fina película de plástico. Trouxe-me "Leaves of Grass", em tradução de Maria de Lourdes Guimarães, edição bilingue da Relógio D'Água. Afinal não conhecço ainda a poesia luminosa do poeta daquela América que vale a pena amar.

Deixo aqui, um dos inúmeros e incontáveis sítios onde podemos ler sobre Whitman. Para mais o Google sabe como chegar lá.

Os livros que citei ao longo deste post, por ordem de descoberta:
Poesias de Álvaro de Campos, Edições Ática, Colecção Poesia, Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa, 1980.
Walt Whitman, Vida e Pensamento, Luís Eugénio Ferreira, Galeria Panorama, série biografias, s.l., s/d.
Poeta en Nueva York, Federico García Lorca, Catedra, Letras Hispánicas, Edición de María Clementa Millán, Madrid, 1992.
Folhas de Erva/ Leaves of Grass (vol. I e II), Walt Whitman, relógio D'Água, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, s.l., dezembro de 2002.

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