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quinta-feira, junho 17, 2004

Engomadoria radical (fixem este nome) 

Se os seus praticantes forem suficientemente pertinazes e as autoridades verdeiramente excêntricas um dia a engomadoria radical (na minha tradução) será desporto olímpico. E as vitórias que se adivinham coroarão de glória os seus heróis precários.
Eu explico desde o princípio. Uma 'mão amiga' trouxe-me a edição de hoje do El País. Desde há alguns anos o diário espanhol publica um caderno em parceria com o prestigiado The New York Times. Nunca me tinha cruzado antes com este suplemento que seleciona o melhor da ediçaõ do jornal nova-iorquino. O número que vem na edição de hoje dá destaque à busca das emoções extremas na sociedade contemporânea - Búsqueda sin fin de emociones perfectas - e desenvolve o tema referindo-se a diversos desportos ou práticas entre a fantasia e a radicalidade. A começar pelos caçadores de tornados, muito activos nos estados americanos onde esse fenómeno é muito frequente. O artigo fala também dos adultos que se divertem em guerras fictícias com armas inofensivas, mas onde se simulam condições de fogo real. Os parques de Atracções, com as suas montanhas russas e demais parafernália que promete emoções extremas com o maior grau de segurança do mundo moderno (boa metáfora esta, porque é mesmo uma metáfora).



E finalmente aquilo que na edição em espanhol se designa como "planchado extremo" - Extreme Ironing no original - e que eu designo como engomadoria radical. Trata-se de um desporto (chamemos assim para simplificar) que consiste em passajar peças de roupa, numa tábua doméstica, suspenso de uma altura elevado ou numa posição bastante instável e arriscada. É tão inverosímil que tem todas as condições para ser verdadeiro. E é. É?
Como começou este desporto tão inusitado? A matéria do El País, assinada pela jornalista Pam Belluck conta que tudo começou quando, há sete anos, um jovem chamado Phil Shaw, em Leicester, Inglaterra, chegava a casa onde encontrou um monte de roupa para passar. Inconformado, acabaria, dias depois, por convencer um amigo a partir em viagem e acabaram por passar a ferro enquanto escalavam, fazendo esqui e no alto das copas das árvores da floresta negra. Estava inventada a engomadoria radical. Depois disso já houve em 2000 um campeonato do mundo, na Alemanha, já chegou aos países mais distantes e entra agora ns estados unidos. Existirão cerca de 1.500 praticantes deste desporto extremo a nível mundial em que os 'atletas' utilizam nicknames: Steam (Vapor), Cool Silk (Seda Fria), Iron Mike (Mike Tábua-de-engomar)... A qualidade da engomadela não é irrelevante, sendo inclusivé um dos critérios de classificação nos concursos. Na verdade deve ser emocionante, para além de um acto de coragem e de virtuosismo inverosímil, passar a ferro uma camisa sem deixar rugas enquanto se anda de bicicleta, se mergulha no oceano ou durante uma viagem por uma avenida de Boston, pendurado num veículo anfíbio da II Guerra Mundial.
A engomadoria radical ajuda-nos a compreender, no limite do inverosímil, que a realidade é infinitamente complexa e que cada detalhe do real humano encobre outros detalhes antes ocultos, e isso, isso mesmo é que é essencial na realidade.

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