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quinta-feira, junho 10, 2004

As lágrimas de Arrabal 


À quarta-feira já sei que vale a pena ligar a televisão e ver o canal Andalucia, por volta das dez da noite. Jesus Quintero - um homem da rádio, da televisão e da restauração (café Placentines, no casco velho de Sevilla, na calle Placentines, os sofás de veludo vermelho... e o restaurante perto dos jardines de Murillo)- chega num enlatado que reúne momentos de vários dos seus programas. Ratones coloraos... etc... etc... e excertos lidos do célebre El Loco de la Colina, programa de rádio que eu ouvia na cadena Ser ou na Rádio Nacional de España, pela madrugada dentro, "hace años ya", tirando horas ao sono.
Tenho visto coisas magníficas, que só acontecem em televisão quando um grande comunicador que sabe fazer perguntas se encontra com alguem disponível para dar respostas e entrar no jogo. Hoje dei com Arrabal, Fernando Arrabal, conversando com Jesus Quintero. Um homem fragilizado pelos 72 anos de idade e pelos seus 100 prémios artísticos, mas mantendo a imagem de personagem irredutível. Um momento admirável: quando Quintero lhe perguntou >"- Cual fue la cosa mas grande que has hecho?" Arrabal demorou longamente a resposta, hesitou, bebericou um cálice de vinho, uma e outra vez, e disse muito emocionado enquanto a câmera nos dava o seu rosto barbado: "El haber aprendido a leer, a escribir y a amar!" E de seguida Quintero, de novo: "- Y la cosa mas infame?" Arrabal, sem se recompor, e como quem pede irremediavelmente desculpa, porque não há perdão para a infâmia, falou de uma ocupação selvagem e violenta que protagonizou nos tumultos do maio de 68, em España.
Quintero também falou com Aurora Vargas e com Pansequito, seu marido, cantor de Cádiz, de La Línea de la Concepción. E no final o Risitas, num diálogo que sempre nos deixa demasiado perto da candura e do patético.
Mas para mim ficaram as lágrimas tremendas de Arrabal. Foi só sobre isso que quis escrever aqui.

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