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quarta-feira, junho 30, 2004

Vou para estágio... na pizzaria Rafael 

É difícil não falar, não escrever, não pensar em futebol. Sobretudo nestes momentos em que o nosso instinto supremacista (a palavra tem conotações execráveis mas aqui utilizo-a em versão aligeirada) acaba por dominar tudo. E faz sentido, se é instinto e se é desejo e pulsão de superioridade. Ou seja, então cá estamos mais o futebol e a selecção nacional. Nesta vertigem até já mandei vir com os rapazes da área nacionalista, que se devem sentir um pouco ultrapassados por esta onda verde-rubra de nacionalismo instantâneo. O Fernando Pessoa, que me visitou esta manhã, e se sentou à mesa do café onde ontem esteve o Bispo resignatário de Setúbal (a alusão é caótica mas é verdadeira), que gastou metade do tempo a comentar comigo a situação política portuguesa, no momento histórico em que estamos à beira de uma final europeia, também me falou de livros apreendidos and so on. Também ele, que é um adepto da Académica, reminiscência dos seus tempos de Coimbra (tantas histórias...) me diz que se está nas tintas para o resto; o importante é que a selecção ganhe o Euro.
Agora que faltam 60 minutos para o jogo começar vou retirar-me para o Rafael - o meu café de bairro - e fazer o meu estágio mínimo. A meia de leite, o jornal e um tumulto de notícias sobre a fuga para a comissão europeia do selecionador nacional... as perspectivas de um jogo difícil e decisivo, contra uma selecção habituada a vencer, declarações sobre a situação política e sobre o onze titular. Depois volto a correr para casa, sobre as 19.30, a equilibrar uma pizza familiar no dedo indicador e já pode começar.

domingo, junho 27, 2004

Tempo de blogues (a veemência do vício) 

Onde é que eu estava antes dos blogues? Como passava o meu tempo antes do chat, da busca caótica na rede que me deixa enleado numa lista quilométrica de Favoritos fora de prazo? E nem vale a pena regredir mais, para não falar das horas perdidas a fazer zaping no cabo, e antes disso só pode ser a pré-história.

Mas vale a pena perguntar de onde retiro o tempo para escrever estes textos, estes posts, para os quais nem sequer encontrámos ainda um termo consensual?
Quando entro na rede começo invariavelmente por fazer uma ronda pela minha lista de blogues favoritos - quase sempre pelo mesmo caminho. Depois comento algum dos textos que li, mas já percebi que não vale a pena reagir a todas as provocações com sangue na guelra. Escrever o essencial, preservar a opinião para aquilo em que vale a pena deixar a nossa marca pessoal. Decidi cultivar um post bem temperado, sem excesso de informalidade, que acaba por vulgarizar, mas com o humor que salva. Escrever a partir de um tópico de leitura, de uma ideia recorrente, de uma imagem roubada ao correr dos dias, escrever sobre aquilo que me mobiliza. Sempre na órbita bastante elíptica da leitura e dos livros, das minhas leituras, que frequentemente me arrastam para uma vertigem centrípeta, que me afasta mais e mais do propósito inicial. Mas as minhas leituras são a deriva do meu propósito inicial de leitura, a deriva do certo para o incerto, para o confuso, para o acaso. São o tal processo caótico do leitor que recusa a leitura sequencial, como teorizava gravemente no início destas escritas. Hoje compreendo melhor, no tempo roubado ao resto, quais são e por que caminhos transcorrem as minhas leituras erráticas. Enquanto durar esta inércia do leitor que acende um livro no livro anterior, com a veemência do vício, devo continuar a necessitar de escrever estes textos sem destinatário certo, como quem procura prolongar a leitura. Até que uma urgência nova e inesperada venha sobrepor-se a esta necessidade e se instale no tempo em que agora, abdicando de qualquer coisa, me dedico à escrita compulsiva que segue noite dentro.

Era uma vez... 

... a felicidade imerecida paga-se muito caro. Naquele ano, já distante, chegámos à final do campeonato da Europa. Mas em contrapartida, em poucos dias, a realidade vingou-se cruamente. O primeiro ministro Durão Barroso foi escolhido para presidir à Comissão Europeia por 5 anos, Santana Lopes abandonou a Câmara de Lisboa e as pretensões a cadidato a Belém e tornou-se primeiro-ministro, Paulo Portas, ex-Paulinho das feiras, então ministro das vaias e do assobio, acabou por conseguir a pasta, desde há muito desejada, dos Negócios Estrangeiros. A ficção política não é o meu forte... a realidade é mais imaginativa que eu.

sexta-feira, junho 25, 2004

É possível falar com um fascista? 

O melhor da blogosfera - região do espaço onde tudo confina com tudo o resto, independentemente da sua posição relativa no universo - é que todas as opiniões se cruzam potencialmente na esquina de qualquer link. A partir de um blogue podemos chegar a todos, com a ajuda de meia dúzia de outros blogues que se atravessem pelo caminho. Não sei como cheguei até aqui, mas desde há meses que frequento o blogue de um (para mim) ilustre desconhecido que escreve regularmente no FASCISMO EM REDE. O nome, as ideias e as simpatias que manifesta nos seus posts merecem-me, assim a seco, a maior reserva e a mais clara aversão. Deste blogue tenho chegado a outros da mesma área que são - numa palavra - simplesmente repugnantes, pela linguagem, pela postura dos seus autores, pela falta de seriedade e pelo ódio que lhes merece o cidadão comum. Não é, contudo, o caso deste a que aqui me refiro e ao qual regresso regularmente. O seu autor parece-me sensato, mesmo quando estou longe de partilhar as ideias que lá se divulgam. Mas o que me interessa, mais do que partilhar ideias, é saber que posso discuti-las cordialmente com aqueles de que discordo. Haverá um limite, para lá do qual a substância das ideias acabará por inviabilizar um debate civilizado. Admito que não seja o caso, o deste blogue, o deste autor. A resposta à pergunta que dá título a este post poderá até ser afirmativa; quanto a saber se nos podemos compreender... isso já é outra coisa muito diferente.

Deixo aqui o texto do meu comentário a um ou dois dos posts daquele blogue. O pretexto pode ser de circunstância, mas as questões que coloco são, em meu entender, decisivas.

"Meu caro amigo, escrevi um comentário no seu texto "O concerto dos Fachos" elogiando o seu sentido democrático, admito que com alguma ironia. Agora leio um texto em que começa por produzir algumas palavras bem pouco elegantes sobre a Assembleia da República (Assembleia Nacional, para si, mas as coisas são o que são e as palavras não são um instrumento asséptico) para depois convocar toda a gente, num acto de militância perfeitamente legítimo, a assistir à discussão em plenário de duas petições. O Direito de Petição é um direito das pessoas e accioná-lo é um acto de cidadania que só aprofunda a qualidade da nossa democracia. Por isso continuo sem compreender o mar de ambiguidades em que submerge frequentemente os seus textos. Antidemocrata convicto recorre convictamente aos recursos que a democracia lhe propicia, sem no entanto reconhecer à democracia qualquer mérito. Por isso cita Maurras, se não me engano (agora cito eu de memória) quando diz que "contra a democracia todas as armas são aceitáveis ou legítimas, inclusivé as democráticas". A afirmação é de um cinismo perfeitamente obsceno, até porque para um democrata "nem todas as armas são aceitáveis quando se trata de combater os não democratas". E a prova disso é que, ao contrário do que pensa e escreve, a própria democracia tolera a manifestação do pensamento antidemocrático, de que a liberdade de expressão de que o meu amigo usufrui é uma boa prova (liberdade que não tem, em todo o caso, de agradecer a ninguém, porque é um direito que se garante melhor em democracia do que em qualquer outro regime).
Por isso a contradição de que me acusa, em resposta ao meu comentário, parece-me inusitadamente superficial. Quando me pergunta, com evidente malícia, se não estarei eu a cair numa atitude antidemocrática quando defendo algumas restrições à liberdade de reunião, não me parece, de todo acertar na grande questão. Não volto ao problema da inconsistência (e aqui sim da contradicção) de se defenderem as virtudes da democracia e as suas prorrogativas desde uma posição explicitamente antidemocrática. Coloco a questão noutros termos.
1. A Democracia é um modo de organização humana e de autogovernação historicamente determinado, presumindo-se daqui que é aperfeiçoável;

2. Tal como as acções dos homens em situação a democracia também envolve contradições, o que a distingue de outras formas de organização humana é o modo como essas contradições são resolvidas colectivamente;

3. A Democracia não é um modo de organização sem regras e onde tudo é possível - já agora que me diria da contradição básica que encontramos quando defendemos, como acontece implicitamente nas suas palavras - que uma democracia poderia decidir, democraticamente, tornar-se antidemocrática?

4. Quem aceita a Democracia como a melhor plataforma de autogoverno, que permite a maior latitude possível de liberdades e garantias individuais, aceita também as suas regras; quem não aceita a democracia (como parece ser o seu caso) pode ainda assim recorrer a uma vasta panóplia de recursos em que é livre de manifestar as suas opiniões. Inclusivamente pode defender objectivamente o recurso a métodos antidemocráticos, na esteira de Maurras, e com assinalável oportunismo político, para lutar contra a democracia. Ninguém lhe pedirá contas por isso, ninguém o incomodará. O máximo a que pode aspirar é que alguém como eu lhe escreva um comentário indignado mas respeitoso.

5. Mas não peça à democracia, que é uma construção muito humana, talvez demasiado humana, para admitir no seu quadro de valores tudo e o seu contrário. Pedir à Democracia que admita e caucione métodos antidemocráticos de construção da legitimidade para governar é pedir demais. E é isso que implicitamente, mas com a cobertura frívola da ironia, me pede no seu comentário ao meu comentário.

6. Desde que visito o campo nacionalista ou nacional, para usar uma expressão que me repugna, dei-me conta de que são aqueles que mais reservas colocam aos valores democráticos e à defesa das liberdades individuais, que mais reclamam ambos na hora de manifestarem, aqui sim contraditoriamente, os seus valores tendencialmente antidemocráticos. Por isso o valor da liberdade de expressão, da manifestação da diferença, são tão citados e reclamados justamente por aqueles que uma vez no poder (estou certo disso) seriam os primeiros a encontrar pretextos para limitá-los drasticamente.

7. A este propósito não posso deixar de assinalar o discurso hipócrita do PNR que mascara um projecto visivelmente autoritário com fórmulas politicamente correctas que só iludem aqueles que estão mais desatentos.

Agora algumas perguntas que lhe queria dirigir. Leio os seus textos com regularidade apesar de não me identificar com as suas ideias, que por vezes me parecem inaceitáveis e outras vezes (a maior parte das vezes) não compreendo. O seu ecumenismo pró-fascista, fascista, identitário, nacionalista, tradicionalista, anarco solidário, sindicalista, solidarista, falangista... etc, é uma virtude, porque só prova a sua tolerância ideológica, a sua abrangência, eu diria (se quisesse fazer humor), democrática. Mas sob outra perspectiva deixa qualquer leitor bem intencionado que se aproxime dos seus textos na maior confusão. Não vou ser deselegante e portanto não direi que sob esse ecumenismo ideológico se encobre uma ambiguidade de raiz. Prefiro acreditar que essa ambiguidade é propositada e que ela corresponde a uma estratégia de militância, mais do que a um defeito. Deixo-lhe então algumas das questões que prometi acima:

1. Em que modelo concreto de governação se revê, em qual acredita, quando se afirma fascista?
2. Em que consiste o campo nacionalista ou nacional a que se refere frequentemente?
3. E a República Nacionalista – expressão que já li mais de uma vez – corresponde efectivamente a quê? É democrática? Aristocrática? Carismática? Admite o pluripartidarismo? É um regime parlamentar multipartidário?
4. Admite a liberdade de Imprensa sem censura prévia, num quadro de regime nacionalista?
5. Em que quadro devem decorrer as relações entre nações no seio da Europa? Aceita a União Europeia ou repudia-a?

E ficaria por aqui, para já. Acredito que é possível dialogar quando os interlocutores se respeitam e são claros no que dizem. Ao contrário de outros blogues do campo nacionalista (que destilam ódio e uma aversão às pessoas, ao cidadão comum que somos quase todos nós) encontro nos seus textos motivos para acreditar que é possível conversar com um fascista."

Outro post sobre futebol, o grito da vitória 

Tenho outra história para contar a pretexto do futebol. Refere-se ao Europeu de 2000, na Bélgica e Holanda. Lembramo-nos todos do jogo com a Polónia que terá decorrido, se a memória não me falha, a 10 de Junho, feriado nacional. A história envolve um rapaz que foi meu aluno (na verdade não foi mas eu digo assim para facilitar e evitar uma explicação especiosa) e que designarei pelo nome fictício de Tiago. O rapaz quase não tinha família, vivia praticamente num estado de abandono. Sem pai, com mãe ausente muitas horas por dia, durante a noite, por motivos profissionais, tinha já passado por instituições de acolhimento. Na escola criava frequentemente conflitos com professores e com colegas, mas no trato pessoal, fora da aula, parecia de uma doçura desarmante. Bastante calmo e afectuoso no trato, melancólico e tímido, procurando sempre um sentido de justiça e sobretudo buscando no nicho da escola onde encontrava alguma paz, o apreço e o reconhecimento que não tinha lá fora. No dia do jogo com a Polónia estava sózinho em casa, como frequentemente acontecia, e foi na maior solidão que Tiago viu o jogo e viu a selecção portuguesa marcar quatro gloriosos golos. Disse-me, dias depois, sem deixar o rigor da melancolia, que tinha ficado tão contente após cada golo que vinha à janela de casa, de um prédio de muitos andares, gritar para a rua: "Golo!". Era-lhe impossível conter a alegria, mas não tinha ninguém com quem partilhá-la. Nunca ouvi nada tão triste. Escrevo-o enquanto ainda soam os últimos ecos da vitória sobre a Inglaterra.


quinta-feira, junho 24, 2004

Los portugueses de Torrelavega - 5º post de 5 



Esta é uma história comovente que uma amiga me contou há algum tempo. Cuidarei dos pormnenores depois do jogo que começa daqui a pouco mais de uma hora.
Torrelavega é uma cidade incaracterística da comunidade cantábrica, entre as Astúrias e o País Basco. É a sua segunda cidade e encontra-se a poucas dezenas de quilómetros de Santander, a capital. O brazão, a bandeira, talvez o escudo (verei depois) dessa cidade humilhada desde sempre pela rivaliddae da capital apresenta as cores vermelha e verde. Os da capital referem-se aos seus habitantes como "los portugueses" e não o fazem como elogio. É o superlativo da humilhação, ser português em colectivo ali mesmo, a centenas de quilómetros do território de um país difuso, lá do outro lado. Parece que os de Torrelavega aceitam o insulto e que o levam na conta de uma distinção. Aceitam a excentricidade, sentem-se diferentes por isso.
Logo após o desaire do Mundial da Coreia - Japão, com a nossa eliminação precoce, carimbada no jogo ainda da primeira fase contra os Estados Unidos, a quem bastava marcar um golo para empatar e passar, algumas dezenas de habitantes de Torrelavega "exilados" em Madrid realizaram o seu jantar anual. Trabalhadores, estudantes, gente que ama a sua terra mais a norte e não a esquece. Naquele jantar de 2002 o presidente da organização, talvez o director da Casa de Torrelavega em Madrid, deixou uma palavra de solidariedade para com os amigos portugueses, para com a selecção nacional portuguesa, tão precocemente excluída da competição máxima do futebol mundial. E pediu que todos os presentes cumprissem um minuto de silêncio em homenagem à nossa selecção.
Espero que o jantar de 2004 desta gente admirável, no humor e na humanidade, não repita o episódio comovente do minuto de silêncio. Espero que desta vez não seja preciso.

Abajo los portugueses - 4º post de 5 

Lembro-me de um dia ter ficado verdadeiramente chocado com um artigo de última página do El País. A grande notícia eram os festejos dos adeptos do principal clube de futebol de Mérida, que tinha acabado de subir à primeira liga espanhola. Uma multidão de adeptos, quase todos jovens, em delírio na Praça de Espanha, bem no centro da capital Estremenha. Uma floresta de bandeiras, camisolas e estandartes enchiam a foto na última página. E entre as mãos de uma adepta um cachecol estendido que dizia "Abajo los Portugueses". Passei da empatia à depressão. Não percebia como era possível interromper a imensa alegria de uma subida de divisão com uma nota tão amarga, um comentário tão sarcástico dirigido a quem não participava, nem de perto nem de longe, naquela festa. Era uma alegria cheia de amargura, e a mim também me amargurava. Creio que só percebi muito tempo depois, ou alguns minutos mais tarde, o que dá no mesmo quando se trata de sincera amargura. Disseram-me, para meu grande alívio, que os portugueses referidos no cachecol não eramos nós mas os adeptos do Badajoz. A rivalidade centrífuga do futebol empurrava os habitantes de Badajoz, na periferia do território espanhol, para o país do lado. Para o nosso lado. Não imaginam o alívio que foi esta revelação. Por mim não me importava que Badajoz estivesse verdadeiramente do nosso lado, que a adepta espanhola tivessa alguma razão no seu sarcasmo.

O meu golo - 3º post de 5 

Em toda a minha vida de jogador de futebol só me lembro de ter marcado um golo. Claro que nunca jogava senão quando me deixavam ou não havia mais ninguém à vista. Era um dos últimos a ser escolhido, deixavam-me ficar na defesa para estorvar o jogo adversário - com pouco sucesso - e nunca participava na definição da estratégia da equipa. O mercado é adverso para quem não tem talento. Mas uma vez marquei um golo. Lembro-me da imensa alegria que senti, com uma jogada súbita que deu certo. Não me recordo de ter acontecido outra vez, antes ou depois. Pensando melhor aquilo que recordo é a alegria intensa do momento, não o golo propriamente. Foi nos anos de 1973/ 74. Disso lembro-me.

Jogo rápido em movimento lento - 2º post de 5 

A beleza do futebol quando o vemos em movimento lento é irresistível. Infelizmente só podemos contemplá-lo assim quando se repetem jogadas duvidosas ou arrebatadoras jogadas de golo. Parece-me mesmo que o futebol dever ser jogado em força e em rapidez (nada pior do que ver um jogador avançar a passo no relvado, virando o pescoço para um lado e para o outro, como se passeasse o caniche pelo jardim) mas deveria ser visto em movimento lento. Ou na impossibilidade prática deveria surgir uma nova perspectiva retórica que nos proporcionasse bons resumos de jogo mas em movimento lento. Eu veria com gosto, mais do que vejo agora. E não se trata de impaciência. É uma questão estética. Quem observar cirurgicamente as fotos que os bons jornais publicam depois dos jogos descobrirá imensos pormenores que escapam na imagem em movimento rápido. Nessas imagens de corpos crispados, de máscaras de dor ou de esforço, nas expressões subtis do rosto dos grandes protagonistas do jogo, passa muito da grandeza e da humanidade do futebol. Talvez o futebol seja mais rápido do que a vida, tal como nós a suportamos na maior parte do tempo. "Faster than life..." (se estiver bem escrito).

Futebol Global - 1º Post de 5 

Alguém disse ou escreveu em tempos (não há muito) que o futebol é o único fenómeno global que ainda não é americano. Americano aqui vai no sentido de Estados Unidos da América. Talvez tivesse acrescentado também as Olimpíadas, mas no caso dos Jogos o domínio americano na luta pelas medalhas é tão grande que dilui bastante a pertinência do juízo. A América resultou, não há dúvida, por muito que nos custe quando estamos mal com o mundo ou de mau humor. Mas no futebol a América é apenas um país emergente, um candidato a grande potência mas demasiado frívolo para alcançar resultados consistentes e duradouros. Para além de que o jogo é demasiado rígido e conservador nas suas regras para interessar o público americano. Depois apesar das suas origens humildes o futebol é dirigido hoje por uma aristocracia que se auto-reproduz, sedeada na velha Europa. Não sei se a América se dá bem com esta herança. No futebol a América joga sempre como visitante. Não parece que goste particularmente dessa situação incómoda. O futebol exige muito tempo, uma atenção paciente ao esforço que se desenrola no campo e frequentemente tudo tem de ser reiniciado de novo. Uma e outra vez. Tentativa e fracasso, uma longa espera muitas vezes mal sucedida, eis o que o futebol nos oferece tantas vezes. E subitamente, sem aviso, um, dois ou três momentos de clímax, os golos. No miolo deste estranho desporto há estratégias que o leitor atento sabe interpretar, mas o leitor comum só vibra com o escândalo e com o golo na baliza alheia. Nada deste paciente exercício de inteligência entre dois homens sentados num banco, a poucos metros de distância, se dá como espetáculo garantido. Por vezes o jogo é de uma monotonia aterradora, tal como a mesmíssima vida banal em que o futebol serve de excepção gloriosa.

terça-feira, junho 22, 2004

Mau humor 

Ontem deixei a televisão ligada. Vi, até onde consegui suportar, um programa de humor em português. As minhas expectativas, quando se trata de humor nacional, são baixíssimas. Aliás a expressão "humor nacional" soa-me a qualquer coisa sinistra que não consigo denominar, uma ideia confusa que se debate para sair à luz e não chega. A verdade é que o humor nacional não tem graça nenhuma. O programa "Levanta-te e ri!", que terá sido, admito, uma janela de frescura no ambiente sufocante do humor português, acabou por ser contaminado pelo mesmo vírus que atacou de morte a paródia nacional. Parece que o humor em Portugal ainda não conseguiu emancipar-se da matriz da revista à portuguesa que terá tido o seu tempo. Humor boçal, palavroso e explícito, muito referencial onde tudo o que pode ser pensado é dito e oferecido ao espectador, tal como na Revista. Um humor populista, gritado para ter mais efeito. Não suportei mais de dois ou três comediantes, demagogos e previsíveis no tal programa.
O Humor em Portugal sofre de duas graves malformações congénitas: a genitalização e a demagogia. Por um lado faz-se humor apenas acumulando referências explícitas aos orgãos genitais, genitalizando o discurso e rompendo interditos atrás de interditos - o humor nasce do escândalo e rimo-nos com gosto porque aceitamos participar nele, como uma libertação. A repetição desta estratégia é o mais decepcionante lugar comum do humor, com o seu representante mor, e o riso vem já por inércia e pelo prestígio do comediante. Claro que é um humor a prazo, porque o humor que se faz apenas no campo dessa espécie de baixinha subversão ética, mas moralista como mais não poderia ser, acabará um dia esgotado por si mesmo.
Por outro lado, a demagogia e o humor populista. Um bom exemplo disso é o programa a que me referi de início. O comediante faz um humor pela certa, repete fórmulas já consagradas, diz o que o público espera ouvir. O humor vai ao encontro das expectativas do público e nem mais um milímetro. Não surpreende já, apenas corresponde àquilo que todos esperam ouvir. A demagogia reside nesta rotina de um humor que não inventa, não surpreende, não desiquilibra. É o humor a que se tem direito. O comediante é a própria anedota.

O Nariz de Jorge Silva Melo 

Pelas 17.30 escrevi: "Dentro de minutos estarei na sala do Forum, mergulhado no absurdo da leitura de Gogol. Jorge Silva Melo começa a ler o conto do autor russo dentro de três quartos de hora. Não li o conto ainda, não vou lê-lo, vou ouvi-lo. Queiram aguardar."

O Forum foi grande demais para esta leitura, a sala Polivalente foi imensa e ainda ficou muito espaço. A mesa de 7 lugares chegou e sobrou para nos sentarmos com o "nosso" leitor por uma hora. Na verdade quando cheguei ao Forum Romeu Correia segui os meus instintos e aproximei-me de uma pequena "multidão" de quatro pessoas que pareciam esperar qualquer coisa inevitável. Uma delas era o Jorge Silva Melo, o mesmo que uma vez numa crítica de teatro ou de cinema inventou a espantosa imagem paradoxal de se "bater palmas com uma só mão"... A hora chegou e deslocámo-nos para as imediações da sala de Leitura da Biblioteca. O leitor, depois de entrar por instantes, regressou à porta e disse: "Se fizerem favor..." e entrámos. Sentámo-nos ao redor da mesa, deixando um lugar de distância de cada lado. O leitor puxou de uma edição de O Nariz da Assírio & Alvim, creio, e após muito breves palavras começou a leitura.
Eu posso dizer, não com absoluta sinceridade, que nunca li "O Nariz" de Gogol, como, aliás, nunca li "O Poço e o Pêndulo" de Poe. Mas ouvi esses dois magníficos contos, tão distintos, lidos admiravelmente por dois grandes leitores, ambos dos Artistas Unidos.
Jorge Silva Melo, evitando as preâmbulos, começou a ler. Sem preparar a voz, sem ritual, sem ajeitar ao lado, à frente do lado esquerdo, uma garrafinha de água. Leu. Com um ímpeto vigoroso, por vezes veloz, com entoação quase truculenta, corrigindo-se sem mesmo se deter. Escolheu-me como seu interlocutor visual, a quem mirava regularmente para pontuar a leitura, regressando logo às páginas do livro. O absurdo da narrativa de Gogol transcurria pela voz de Jorge Silva Melo com absoluta naturalidade. E nunca falhou a entoação certa. O texto saía em borbotões, enquanto nós, em completo silêncio, ouviamos daquele manancial milagroso. Recordo-me, com vergonha, de ter cedido à sonolência por um par de vezes, mas nunca à indiferença. Nessas alturas parecia-me ouvir uma advertência inquietante, desde o interior do próprio absurdo, desde as páginas do conto ... "mas o acontecimento fica a partir de aqui totalmente mergulhado na bruma e não se sabe absolutamente nada do que aconteceu depois". Menos de uma hora após me ter sentado à mesa para ouvir Jorge Silva Melo já regressava a casa, a pé, descendo a escadaria por detrás do Fórum de Almada.
Quem quiser ler "O Nariz" numa versão espanhola que descubri através do Google, podia ter clicado sobre o título do conto de Gogol em qualquer uma das suas referências anteriores, mas pode fazê-lo finalmente aqui para evitar regressar lá atrás.

O Clímax de uma espera bem sucedida 



É uma ideia feita, já se sabe, e o efeito é fácil. Mas não resisto à evidência (borgesiana) de que na palavra "rosa" não se encontra o fulgor da rosa, nem o seu aroma se desprende dessas quatro letras reunidas arbitrariamente. E na palavra "golo", o que resta ainda da euforia súbita que acomete as multidões na espera? É inútil escrever a palavra com muitos "o", para reter, na demora da fala, a emoção que ela desencadeia. A palavra "golo" dita como "goooooooooooooooooooolooo" é pura expressão emocional do locutor, e por isso desvia-se da objectividade do que acontece. Quando gritamos "golo" acolhemos em nós a grande surpresa, justificamos uma grande espera que não foi em vão. Na verdade o golo é o clímax de uma espera que não foi em vão. Tal como o riso é o climax convulsivo de uma história que criou no ouvinte atento expectativas infundadas. E o orgasmo é o clímax da compulsão em direcção ao outro, ao mais íntimo do outro, e que acaba finalmente em derrame. Pensado desde a perspectiva masculina, que me perdoem os que são mais politicamente correctos. Por isso quando nos damos conta daquilo a que pudicamente chamamos "golo", esse clímax da espera bem sucedida não andará muito longe do riso e do orgasmo, remisturados numa química mais básica e mais explosiva.

segunda-feira, junho 21, 2004

A Gestão Democrática, a caricatura ou lá o que seja 

De passagem pelo blogue Da escola, que visito diariamente, dei com um post que me desatou a língua. Deixei um longo comentário que reproduzo aqui, extirpado da entrada e da saída. Só o miolo do texto, o resto é sobre futebol. Mas vale a pena ir ler aqui (ou ali) o comentário subtil sobre a organização de jogo que me estimulou a escrever estas palavras. Eu aviso, no comentário que as minhas afirmações são exclusivamente induzidas do conhecimento da João de Barros, das cinco outras escolas em que prestei serviço, também de algumas outras que conheço de as ter visitado e, já agora do que tenho lido e conhecido pela net. Portanto nada que possa generalizar-se sem risco de erro grosseiro, não obstante a veemência de algumas das minhas observações levarem a pensar no contrário.

1. A criação de um novo orgão de gestão com o novo modelo, - a Assembleia de Escola (AE) - implicou, potencialmente, um aprofundamento da democraticidade da gestão escolar. Infelizmente quer a AE, quer o Conselho Executivo (CE), não assumiram, na generalidade dos casos que conheço, as despesas desse desafio.

2. A AE foi concebida como um orgão de reflexão estratégica, de legitimação das políticas educativas da escola e como sede de aprovação dos grandes documentos de gestão e balanço: o Plano Anual de Actividades (PAA), o Projecto Educativo (PE), as Linhas do Orçamento escolar, relatórios finais, etc.

3. Frequentemente essa reflexão estratégica, facilitada por uma menor exposição da AE ao escrutínio público e às pressões da gestão diária ou não foi correspondida pelo CE ou não foi encarada como uma prioridade de acção pela Assembleia.

4. A gestão diária de uma escola, a cargo do Executivo, raramente ultrapassa a contabilidade do curto prazo, do deve e haver; poucos de nós terão a sorte de poder ter contado alguma vez com um executivo com imaginação e com visão estratégica. A regra é, a mais das vezes: o executivo decide e executa e os outros que tenham ideias, se quiserem.

5. A informação qualificada circula pouco e circula mal, quer entre orgãos de gestão, quer entre estes e a comunidade escolar. Na verdade ou não há canais para libertar, prontamente e com economia de meios, a informação produzida nos actos de gestão ou falta pura e simplesmente uma cultura de informação e de comunicação.

6. A gestão escolar tem dificuldade em gerir os conflitos e por isso evita-os a todo o transe ou ignora-os. Evita-os pelo unanimismo, ignora-os pela autocracia, ou por uma gestão sem partilha de informação.

7. Não há uma saudável cultura do contraditório, e em consequência disso não há espaços formais ou informais de opinião numa escola. A escrita num blogue, como este e outros que debatem temas escolares, a participação num forum, abrem finalmente esse espaço de opinião, e da forma mais inesperada.

8. A comunidade escolar é um pequeno mundo, uma réplica à escala das relações de aprendizagem, da sociedade em que se inscreve - ninguém pergunta porque não há opinião fundamentada e informada nesse pequeno microcosmos.

9. Os orgãos de gestão são legitimados pelo voto e depois deixados à sua sorte - sem nenhuma instância crítica interna, sem prestar contas no final de cada ano perante a escola, sem qualquer balanço em final de mandato. Pode acontecer, acontece seguramente em muitas escolas.

10. Por isso não poderei concordar mais com o que diz, caro colega, quando escreve que falta aos que gerem as escolas "capacidade de análise organizacional, compreensão da relação entre o indivíduo e o grupo, os objectivos e os interesses individuais e os interesses e os objectivos da escola, entre estratégia imediata e o sentido de missão".

11. Uma consequência extremada das considerações que aqui deixo poderá levar-nos a considerar que o balanço da gestão democrática da escolas é, no mínimo, muito embaraçoso. Muitas vezes não terá sido efectivamente democrática, outras nem foi gestão, porque para gerir é preciso ter ideias. Ou ter o "sentido de missão". Eu diria primeiro que é preciso ter uma "visão". E sobre a gestão virão concerteza novidades, em breve. Que legitimidade teremos para a contestar ou credibilidade para a apoiar, quando deixámos todos que a gestão das escolas muito frequentemente fosse uma tarefa exercida à margem de toda a crítica e de toda a avaliação? Uma caricarura da gestão realmenre democrática...

Uma atenção ao leitor, "Reader, my reader..." 

O meu blogue só interessa a mim próprio, que o escrevo e o leio em primeira mão, e ao menino Jesus, mas isto é apenas uma forma de dizer. Nos últimos dias tenho verificado que asminhasleituras têm sido visitadas por alguns leitores (se calhar ao engano). Em primeiro lugar tenho encetado alguns contactos com outros blogues, deixado os meus comentários. Mas ainda não estabeleci, de forma sistemática, os meus links para os blogues da minha preferência. É deste trabalho de relações públicas na blogosfera, levado a cabo com a dedicação que ainda não tive ocasião ou a paciência de dispor, que resultam os leitores interessados, os comentários, o diálogo e o tráfego intenso de leituras e opiniões instantâneas que fazem o encanto de todo este ruge ruge.
Recentemente deixei um comentário no Praça da República, blogue de um camarada de Beja, que me citou numa passagem de um post anterior. Devo agradecer a referência. Tenho lido com regularidade os posts do colega Da escola, professor na secundária de Montemor-o-Novo, onde já comentei alguma coisa. Visito diariamente outros posts da área da educação, enquanto amadureço o meu projecto para criar um blogue colectivo sobre a matéria.
O contador recente, mas registado há muito no blogue asminhasaulas aqui está para assinalar as visitas; não tenho qualquer ilusão de popularidade. Até porque, como todos sabem, o contador regista também as minhas entradas, que são imensas. Boa parte delas não são para "me" ler mas simplesmente para editar. Seguramente que um terço a um quarto do total de visitas são da minha autoria.
Estou interessado em ler e ser lido, mas moderadamente. Não invoco, não mendigo, não espero. Escrevo e é tudo.

sexta-feira, junho 18, 2004

Post 100. ABSOLUT BLOG 

Este é o centésimo post e um dos muitos que editei no último mês. O título do blogue não deve ser tomado à letra, mas num âmbito mais vasto. Ler e interpretar são operações intelectuais que nos modelam, que nos marcam a todo o instante. as_minhas_leituras têm traduzido até ao momento a minha disponibilidade (de tempo) para fazer o elenco dos signos, dos sinais e dos índices de uma realidade que precisa de ser interpretada para se dar 'de algum modo'. Tendo começado como registo preferencial de leituras, derivou entretanto para um blogue onde me interessa desenhar, post a post, todo o quadro das referências com que eu interpreto a realidade. Depois vieram as imagens, que uso como elemento complementar da escrita em que continuo a depositar o máximo cuidado.
O centésimo blogue é apenas mais um, mas também é a promessa de que muitos outros se seguirão nos próximos meses. Vai um brinde?


Aos Amigos... 

"Amo devagar os amigos que estão tristes com cinco dedos de cada lado"... desculpem estava distraído e o HH não é chamado para esta história.
Aos amigos: ao Manuel Pacífico (amigo com quem partilhei a experiência inverosímil e falhada de trazer um burro, no início do ano, a visitar a JB); à Maria do Patrocínio Gaspar (amiga a quem devo um manual extraviado na confusão dos meus livros e a infinita paciência); à Teresinha (amiga que não consigo deixar de tratar pelo diminutivo, apesar de ser muito grande); à Amália (amiga que quase não conheço); ao Paulo Braz (amigo a quem devo o favor de me deixar visitar uma prisão e cujo nome temo ainda não saber escrever); ao Mário Afonso (amigo com quem alinhavei uma pretensa campanha publicitária de promoção do livro e da leitura e em que se misturavam livros e telemóveis): a todos, alguns dos quais coadjuvantes, um abraço alegre do amigo ausente.
Não queria deixar de estar virtualmente presente, no momento em que procedem à escolha dos manuais para o próximo ano lectivo. Aqui estou, diferido no tempo e no espaço, porque escrevo estas linhas nos primeiros minutos do dia 18 e porque não estou de facto aí... mas aqui. Ou vice-versa.
Até breve, porque a doença que nos ameaça e que é preciso combater é a ausência.

quinta-feira, junho 17, 2004

Engomadoria radical (fixem este nome) 

Se os seus praticantes forem suficientemente pertinazes e as autoridades verdeiramente excêntricas um dia a engomadoria radical (na minha tradução) será desporto olímpico. E as vitórias que se adivinham coroarão de glória os seus heróis precários.
Eu explico desde o princípio. Uma 'mão amiga' trouxe-me a edição de hoje do El País. Desde há alguns anos o diário espanhol publica um caderno em parceria com o prestigiado The New York Times. Nunca me tinha cruzado antes com este suplemento que seleciona o melhor da ediçaõ do jornal nova-iorquino. O número que vem na edição de hoje dá destaque à busca das emoções extremas na sociedade contemporânea - Búsqueda sin fin de emociones perfectas - e desenvolve o tema referindo-se a diversos desportos ou práticas entre a fantasia e a radicalidade. A começar pelos caçadores de tornados, muito activos nos estados americanos onde esse fenómeno é muito frequente. O artigo fala também dos adultos que se divertem em guerras fictícias com armas inofensivas, mas onde se simulam condições de fogo real. Os parques de Atracções, com as suas montanhas russas e demais parafernália que promete emoções extremas com o maior grau de segurança do mundo moderno (boa metáfora esta, porque é mesmo uma metáfora).



E finalmente aquilo que na edição em espanhol se designa como "planchado extremo" - Extreme Ironing no original - e que eu designo como engomadoria radical. Trata-se de um desporto (chamemos assim para simplificar) que consiste em passajar peças de roupa, numa tábua doméstica, suspenso de uma altura elevado ou numa posição bastante instável e arriscada. É tão inverosímil que tem todas as condições para ser verdadeiro. E é. É?
Como começou este desporto tão inusitado? A matéria do El País, assinada pela jornalista Pam Belluck conta que tudo começou quando, há sete anos, um jovem chamado Phil Shaw, em Leicester, Inglaterra, chegava a casa onde encontrou um monte de roupa para passar. Inconformado, acabaria, dias depois, por convencer um amigo a partir em viagem e acabaram por passar a ferro enquanto escalavam, fazendo esqui e no alto das copas das árvores da floresta negra. Estava inventada a engomadoria radical. Depois disso já houve em 2000 um campeonato do mundo, na Alemanha, já chegou aos países mais distantes e entra agora ns estados unidos. Existirão cerca de 1.500 praticantes deste desporto extremo a nível mundial em que os 'atletas' utilizam nicknames: Steam (Vapor), Cool Silk (Seda Fria), Iron Mike (Mike Tábua-de-engomar)... A qualidade da engomadela não é irrelevante, sendo inclusivé um dos critérios de classificação nos concursos. Na verdade deve ser emocionante, para além de um acto de coragem e de virtuosismo inverosímil, passar a ferro uma camisa sem deixar rugas enquanto se anda de bicicleta, se mergulha no oceano ou durante uma viagem por uma avenida de Boston, pendurado num veículo anfíbio da II Guerra Mundial.
A engomadoria radical ajuda-nos a compreender, no limite do inverosímil, que a realidade é infinitamente complexa e que cada detalhe do real humano encobre outros detalhes antes ocultos, e isso, isso mesmo é que é essencial na realidade.

Roteiro, a bola conceptual do EURO 2004 

Eu diria que é uma obra conceptual, concebida para realizar plenamente um conceito, para explicar uma ideia: a ideia de um mundo representado por uma esfera em cuja curvatura perfeita e sem pregas se escrevem as marcas que permitem interpretá-lo. Uma obra de arte industrial ou de pop art. Warhol ou Roy Lichenstein... o que é que eu estou aqui a escrever?
Seja como for, gosto dos detalhes que conformam esta bola do Euro como um ícone cultural. Cada bola apresenta os nomes das equipas que se vão defrontar e o nome da cidade onde o jogo vai ter lugar. Na Roteiro não falta, naturalmente, as coordenadas da mesma cidade. Quando as imagens de cada jogo nos são servidas em camara lenta - que é como deveriam transmitir todos os jogos - nunca é possível ignorar a bola fulgurante que parece pairar acima das incidências do embate. Ela é um personagem e gira meticulosamente em torno de muitos eixos, enquanto os jogadores se obstinam em alcançá-la. Nada mais inútil. A bola nunca lhes pertence verdadeiramente.

Da escola, em final de ano... procurando uma esplanada 

Visitava os blogues do costume, fazia a ronda matinal, olhava pela janela à volta. No blogue Da escola li então um post que me sugeriu este breve texto de resposta. O autor escrevia sobre o fim das aulas. Uma vez terminadas fica sem saber que fazer, com um sentimento de vazio. Este blogue, "sobre a escola e sobre os professores, sobre histórias de um quotidiano", como o próprio autor esclarece, é mantido pelo Manuel Diniz P. Cabeça, professor PQND do 10º A, de História. Manuel Pinto deu aulas na secundária de Montemor o Novo, pelo menos até este ano. Os textos deste blogue, que teve o seu início em Dezembro de 2003, relatam experiências da escola, do ensino em geral, manifestam impressões, apresentam ideias e perplexidades. Aqui vai o texto de comentário que deixei:

"Compreendo isso, tal como o descreve. Também sinto o vazio do final das aulas, sempre súbito ainda que previsto no calendário desde há muito. Nos anos mais 'graves' cheguei a somatizar esse fim das actividades lectivas, com problemas de saúde que me ocupavam o tempo nas semanas de vazio. Julgo já ter ultrapasado isso, apesar de me encontrar 'retirado' de momento, por motivos laterais ao stress de fim de ano. Mas não concordo consigo quando diz que já acabou e não há nada para fazer.. Pelo contrário (e isto não é propriamente um conselho) penso que terminadas as tarefas lectivas a escola abre-se como um espaço para balanços, para discussões que não tivémos tempo de fazer durante o ano lectivo, para ensaiar novas experiências e desenvolver projectos. O que mais me custa, na minha ingenuidade gregária e no meu voluntarismo, é que terminadas as actividades lectivas os professores tendam a debandar (literalmente, nuns casos) para outras actividades obrigatórias de natureza burocrática e não encontrem espaço para encontros de trabalho em torno do que mais nos interessa e mobiliza: a discussão de ideias, relatos de experiências, inclusivé no interior da própria escola, a concepção de projectos inovadores para novas aprendizagens. Já reparou que as escolas não se visitam, mesmo quando são geograficamente muito próximas? Na minha já tentei fazer passar a ideia (com pouca veemência, é certo) de que, terminadas as obrigações mais urgentes, seria muito estimulante e enriquecedor, preparar visitas de pequenos grupos de professores (e funcionários) a escolas do mesmo nível, com o objectivo de confrontar experiências e conhecer práticas educativas. Sem excessivo formalismo, tal como o digo: visitar escolas, contactar com colegas e falar daquilo que mais nos preocupa e mobiliza. Só isto, sem protocolo. Mas seguramente com muito proveito para quem visita e quem é visitado. É só uma ideia. Provavelmente reagi ao seu post com mais entusiasmo porque de momento não me encontro no activo..."

quarta-feira, junho 16, 2004

Antes. E depois 

Antes do jogo decisivo, dizem eles, os do futebol. O jogo vai mesmo começar dentro de 15 minutos. Nos momentos mais intensos, em ocasiões marcadas pelo dramatismo, somos levados em braços até ao centro do que vai acontecer. E depois


ReJoyce... vai um pratinho de rins de carneiro grelhados para a mesa do fundo! 

Passam hoje, 16 de Junho, 100 anos sobre um dia inventado. O Bloomsday, que designa aquela peregrinação em labirinto, realizada entre as 8.00 horas da manhã de 16 de Junho e as 3.00 da madrugada do dia seguinte, em 1904, por Leopold Bloom, nas ruas de Dublin. Dezenas de países comemoram hoje por todo o mundo, com as mais variadas actividades joyceanas, essa data de ficção que marca o romance de James Joyce.
A minha edição do Ulisses é a de António Houaiss, brasileira, publicada pela Difel em Agosto de 1983. Lembro-me do dia em que chegou às livrarias e também me lembro de ter saído do Beato, onde trabalhava na altura, e de correr à Bertrand, no próprio dia para adquirir a obra. Paguei 980$00 (4,90 €) pelo livro, o que na altura era muito. Entretanto saiu a edição portuguesa-em-português-europeu de João Palma-Ferreira. Fiz várias tentativas para ler a obra mas desisti sempre ao fim da primeira página. Empenhei a minha palavra e depois não cumpri a promessa de leitura, estive para participar numa leitura colectiva do BCP mas nem comecei. Há qualquer coisa...

Em Setembro passado fiz um documento com os grandes acontecimentos que previa para este ano, na perspectiva de uma exploração pedagógica. Um deles era o Bloomsday e considerei então a possibilidade de preparar para hoje um pequeno almoço bloomiano, a servir na escola. Não seria provavelmente um sucesso mas também não é todos os dias que podemos comer "rins de carneiro grelhados" com um "belo sabor de urina levemente perfumada".
Não imaginava na altura que o Bloomsday, a 16 de Junho, cairia logo no dia inquieto que vivemos hoje. Não percebo porque é que a Casa Fernando Pessoa arranca às 21.00 horas com uma evocação de Joyce e com a leitura de excertos de Ulisses. Talvez porque a Irlanda não está no Euro 2004...
Para mais informações sobre o Bloomsday, que está quase a chegar ao seu termo, clicar precisamente aqui.

No interior deste livro não lido encontrei, para além da factura da livraria, um ensaio para o meu convite de casamento com a Manuela (a Maria Manuela e o José Gustavo tem o prazer de ___________ o seu casamento, que se realizará..., etc) e dois bilhetes de futebol. A história é simples: em 1991 Portugal realizou o campeonato do Mundo de Júniors, depois de ter ganho antes o Mundial de Riade. Na altura resolvi ir à Luz ver a carreira fulgurante da selecção onde pontuavam as jovens promessas, Luís Figo, Emílio Peixe, Rui Costa, Fernando Couto, Paulo Sousa, entre outros. Fui às Meias-Finais ver a nossa equipa com uma selecção que não me recordo, nunca me recordo. Tenho aqui o bilhete que esteve durante anos entre as páginas do Ulisses. Foi a 26 de Junho e corresponde a um lugar na Superior. 400$00, 2 €. 4 dias depois Portugal jogaria com o Brasil, também finalista. Outro bilhete para a Superior, a 500$00. Portugal ganhou ao Brasil nos penalties, se a memória não me falha. Estádio da Luz cheio e no final os adeptos brasileiros a aplaudirem a vitória portuguesa. E hoje contra a Rússia, na nova Luz, como é que vai ser?

terça-feira, junho 15, 2004

Chegaram os manuais (viva a História da Perplexidade!) 

Costumo dizer, provavelmente com exagero, que os manuais escolares são os livros que menos me atraem. São muitos e parecidos no essencial, apesar de se distinguiram no acessório. São difíceis de arrumar. Nas bibliotecas escolares proliferam de forma quase 'cancerígena'... eu sei do que falo. Quando integrei a equipa da BME (Biblioteca Multimédia Escolar) a nossa primeira medida foi escolher de entre centenas de manuais aqueles que deveriam permanecer expostos. Ficaram alguns. São grandes e pesados, afastando-se do modelo padrão do livro de bolso ou do livro-livro. Por vezes são ilegíveis. Os textos dos autores caiem facilmente na verborreia paternalista e demagógica. Recordo-me de um manual recente com uma capa em tons desmaiados onde se podiam distiguir, em pose colectiva, a fina flor das top model da actualidade (actualidade de então). Nunca percebi porquê. Seja como for, vou ter de escolher 'o' manual e ajudar à decisão dos meus colegas. Por mim escolheria um manual que não parecesse um manual. Um livro por dentro e por fora. Não excessivamente pesado, atraente e resistente. Que contasse uma História da imensa curiosidade humana, que desenvolvesse o programa como uma aventura por saber mais. Uma História da perplexidade, contada com alegria.



Quando abri e folheei o último que me chegou às mãos, da Areal editores, lembrei-me de interpretar a esforçada iconografia dos manuais. Tantas imagens, para seduzir o leitor, escolhidas por quem? E de que modo as imagens reforçam a mensagem do texto? São frequentes as imagens de choque da actualidade, os comics, as fotos de estrelas dos adolescentes, mas também as pinturas perturbadoras de Margritte, os quadros alucinados de Dali, as composições paradoxais de Escher. São dezenas de imagens, entre o desvio para o relativismo bem humorado e o choque ético das causas da moda. Um lerei estes livros através do fio das suas imagens.

segunda-feira, junho 14, 2004

Almanaques 

Há muito que sou um fiel comprador do almanaque. O Borda D'Água (apesar de ter parado no tempo e de apresentar soluções gráficas completamente ultrapassadas a tocar o medíocre) sempre é uma referência. Descobri, há anos, creio que numa loja de Vila Nova de Cerveira ou de Caminha, o Serigandor, uma publicação satírica com características semelhantes. Mas o humor pífio das sátiras, o moralismo geralmente nacionalista ou patrioteiro, a espiritualidade bacoca destas publicações mancham uma imagem de ingenuidade que parece genuína. O mais criterioso e mais recente é o Ribeirinho do Cristiano Gandra. Há mais de 4 anos encontrei-o em Almada, numa das suas apresentações públicas para escolas. Contou-me que estava a trabalhar num almanaque para uso das populações da faixa litoral e para os amantes do mar em geral. Tinha um nome: Ribeirinho. Pediu-me ajuda, eu disse que sim, mas depois acabei por não querer corresponder e desliguei do projecto em que não cheguei a entrar. Ao fim de pouco tempo encontrei à venda o 1º número do almanaque do Gandra. Na semana passada comprei o número deste ano, publicado com atraso em março. Já vai no nº 3 e apresenta um grafismo bem consolidado e uma arrumação de matérias e de informações que pode parecer algo confusa. Mas uma coisa é certa, é um bom almanaque ao estilo tradicional, muito cuidado e com muito que ler. Na capa, sobre uma fotografia do Cristiano Gandra, tirada na baía de S. Lourenço em Santa Maria, Açores, pode lêr-se como explicação: "usos, costumes e linguagem do nosso povo no calendário dos meses, das semanas e dos dias, dedicado ao conhecimento ribeirinho e ao saber tradicional sobre espécies marinhas e de água doce..."
Eu, por mim, continuo com o projecto do Caramélio. Um almanaque escolar com calendário 'dos meses, das semanas e dos dias, adaptado ao ciclo escolar, com toda a informação útil que se pode disponibilizar para proveito de quem o utilizar'.
Mas a tarefa é pesada, muito pesada. Fica em agenda.


Catálogos 

Os catálogos das editoras são, em regra, menos úteis do que piedosamente imaginamos quando os levamos para casa entre os livros comprados. Há quem pense que não servem para nada. Eu penso que servem para pouco mas uma editora que se preze não pode deixar de publicar o seu e de o propor ao leitor hesitante ou de o oferecer ao comprador resoluto, como prémio da sua determinação. Raramente trago catálogos da Feira, mas não resisto a ficar com alguns, para os apreciar com mais calma antes de o mandar para reciclagem. Alguns catálogos são belíssimos caprichos editoriais e enriquecem o património da editora. Este ano retive apenas a imagem simples e eficaz do catálogo da Cotovia, se não me engano. Gostei do da Assírio & Alvim, como sempre, mas vim para casa com o da editora Livros do Brasil, que não tem nada de emplolgante, e logo em duplicado. Também recebi catálogos da edições 70, discreto, eficaz mas sem ponta de criatividade, uma brochura espessa da Publicações Europa-América, bom trabalho mas sem gosto. Ficará para o ano (se este blogue sobreviver a mais 4 estações) uma leitura crítica dos catálogos das editoras da Feira do Livro. Vale a pena ler o modo como cada editora se mostra aos seus clientes. Vale a pena.

domingo, junho 13, 2004

Vive la France (et Portugal...) 

Gritei de alegria pelos dois golos inesperados (e desesperados) da selecção francesa, no segundo jogo do Grupo B, contra a Inglaterra. Espero francamente o melhor da França, também por razões exteriores ao futebol. Gosto de ver ganhar uma selecção que é um mosaico étnico harmonioso e bem sucedido. Na verdade não vi o jogo, mas vi os golos, enquanto caiam, na noite eleitoral, os resultados da votação para o Parlamento Europeu. A história de ontem é outra. No jogo de abertura no Dragão (eu comecei a ver apenas 2 ou 3 minutos depois) a selecção portuguesa jogou mal e não soube contrariar a maior objectividade dos gregos. Houve pouco ou nenhum brilho, poucos remates à baliza, algum azar e quanto à magia que todos esperamos desde há muito, nada de nada. O El Pais escreveu que Luís Figo jogou 'como um leão ferido'. A imagem é lindíssima, pela carga melancólica e literária que deposita no comentário ao jogo. Mas talvez seja afinal injusta para com o jogar que procurou arrastar a equipa para a frente, lá onde sempre encontravamos uma barreira que não foi posível ultrapassar. Até o golo de cabeça de Cristiana Ronaldo, tão perto do apito final, não poude ser comemorado devidamente. O jogo acabou logo a seguir sem honra nem glória. Agora é ver na quarta-feira.

sexta-feira, junho 11, 2004

Os Livros no Parque 

Afinal ainda fui à Feira do Livro, mas fui em baixa. Era o último dia, depois do prolongamento, "dia da minha raça". Havia pouca gente e pela primeira vez não vi ninguém conhecido. Eu vou à Feira ver a cara dos livros e das pessoas. E gosto de encontrar amigos que não vejo há muito. Desta vez não foi o caso.
Não comprei muito e sobretudo comprei barato. Mas tenho a certeza de que comprei o que importava trazer para casa, sem ir atrás do saldo. Ora bem, a lista completa:
Ensaios sobre o Individualismo - Uma Perspectiva Antropológica sobre a Ideologia Moderna, Louis Dumont, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1992 (apenas 6 €); O Agente Secreto, Joseph Conrad, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1997; O Mundo Marciano, Ray Bradbury, Edições Livros do Brasil, Lisboa, 1998; Conduzindo às Cegas, Ray Bradbury, Livros do Brasil, Lisboa, 1997; Teoria das Concepções do Mundo, Wilhelm Dilthey, Edições 70, Lisboa, 1992 (só 4 €, não sei porquê); Presença do Brasil, João de Barros, Edições Dois Mundos, Lisboa, 1946; Anteu - Sísifo, João de Barros, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1960 (estes dois últimos a 4 €€ cada); Um Crime Capital, Francisco José Viegas, Edições ASA, Porto, 2001.
Este último é oferta para a Manuela, já que li na contracapa que conta o estranho caso de um duplo assassinato nos jardins da Fundação de Serralves. O Ensaio sobre o Individualismo toca um tema das filosofias que não me deixa indiferente, longe disso. Que fazer do meu personalismo ateu? Das minhas convicções democráticas? Etc. Dilthey é preciso lê-lo, relê-lo, depois do curso (ainda me lembro da sala onde falei desta obra, numa aula do João Paisana, falecido há tempos em Sines enquanto levantava dinheiro numa caixa Multibanco). Conrad... é um dos meus autores, sou fiel, desde Lord Jim, que li na Berlenga, tal como A Linha de Sombra e O Negro do Narciso, se não me engano. O Coração das Trevas li-o durante a descida do Douro, numa casca de noz, à força de pagaia. Desde há tempo procurava um romance de Conrad, algo atípico, de que apenas tinha ouvido falar. Um atentado bombista em Londres, dirigido ao mais simbólico do mundo moderno, ao Observatório de Greenwich, à Matemática como máxima expressão do mundo contemporâneo... ou estarei a sonhar? Pareceu-me, depois de algumas peripécias que fazem a espessura dramática do nosso tempo, que era preciso ler. Ray Bradbury é o autor do Faranheit... o livro das Leituras do ano passado. Fiquei impressionado com a desenvoltura lírica do autor. Andei a perseguir as suas Crónicas Marcianas, que nesta edição aparecem com o vulgar título de O Mundo Marciano. A ver depois. E o João de Barros, cujas obras de edição muito antiga lá aparecem no refugo dos Livros do Brasil. Desta vez apanhei um livro de artigos sobre o Brasil e dois poemas dramáticos.
Saí da Feira pelo alto do Parque com uma convicção melancólica. A de que se edita muita porcaria em Portugal. Tanta...

quinta-feira, junho 10, 2004

As lágrimas de Arrabal 


À quarta-feira já sei que vale a pena ligar a televisão e ver o canal Andalucia, por volta das dez da noite. Jesus Quintero - um homem da rádio, da televisão e da restauração (café Placentines, no casco velho de Sevilla, na calle Placentines, os sofás de veludo vermelho... e o restaurante perto dos jardines de Murillo)- chega num enlatado que reúne momentos de vários dos seus programas. Ratones coloraos... etc... etc... e excertos lidos do célebre El Loco de la Colina, programa de rádio que eu ouvia na cadena Ser ou na Rádio Nacional de España, pela madrugada dentro, "hace años ya", tirando horas ao sono.
Tenho visto coisas magníficas, que só acontecem em televisão quando um grande comunicador que sabe fazer perguntas se encontra com alguem disponível para dar respostas e entrar no jogo. Hoje dei com Arrabal, Fernando Arrabal, conversando com Jesus Quintero. Um homem fragilizado pelos 72 anos de idade e pelos seus 100 prémios artísticos, mas mantendo a imagem de personagem irredutível. Um momento admirável: quando Quintero lhe perguntou >"- Cual fue la cosa mas grande que has hecho?" Arrabal demorou longamente a resposta, hesitou, bebericou um cálice de vinho, uma e outra vez, e disse muito emocionado enquanto a câmera nos dava o seu rosto barbado: "El haber aprendido a leer, a escribir y a amar!" E de seguida Quintero, de novo: "- Y la cosa mas infame?" Arrabal, sem se recompor, e como quem pede irremediavelmente desculpa, porque não há perdão para a infâmia, falou de uma ocupação selvagem e violenta que protagonizou nos tumultos do maio de 68, em España.
Quintero também falou com Aurora Vargas e com Pansequito, seu marido, cantor de Cádiz, de La Línea de la Concepción. E no final o Risitas, num diálogo que sempre nos deixa demasiado perto da candura e do patético.
Mas para mim ficaram as lágrimas tremendas de Arrabal. Foi só sobre isso que quis escrever aqui.

quarta-feira, junho 09, 2004

A morte do candidato, o carnaval de Matosinhos 



Sousa Franco morreu vítima da estupidez dos dirigentes locais de Matosinhos e da baixa política em geral. Admitindo ou não o nexo causal (sempre tão difícil de estabelecer é certo) entre os incidentes do mercado e a paragem cardíaca de que resultou a sua morte, nada do que vier a seguir apagará a ideia de que o cabeça de lista do PS foi vítima de uma forma perfeitamente terceiromundista de fazer campanha. Mergulhar o candidato de braço dado com o cacique local, abraçando, beijando e acariciando peixeiras e vendedoras de hortaliça (eleitoras, para todos os efeitos, mas ali verdadeiros ícones histéricos do PS profundo), num ambiente de euforia passageira, com toda a moldura demagógica que isso envolve, não passa de política tal como ela é concebida desde o século passado. Quem viu já as imagens do mercado percebe que aquilo é a política a descer ao faz de conta, ao grau zero das ideias, - porque nem sequer se ouvem ali uns aos outros, - a política rastejando atrás da imagem que enche o ecrán e vale por todo um dia de campanha. Mas nem sequer isso conseguiram os caciques de Matosinhos, mais interessados em levar para o palco da campanha os mesquinhos conflitos locais. Quem viu mesmo aquelas imagens verá um homem que não é daquele filme, arrastado para a efémera consagração do abraço e do beijinho, amassado e comprimido por uma multidão ruidosa, com um estranho sorriso embaraçado no rosto, e ainda assim alegre e confiante. Parece que morreu a rir-se de toda aquela situação em que o envolveram, a rir-se do carnaval.

Vi Sousa Franco por duas vezes, que me lembre. A primeira foi num comício de derrota, no largo do Tribunal de Almada, da FRS (Frente Republicana e Socialista), quando era dirigente das ASDI. Discursou ao lado de Mário Soares e de Lopes Cardoso. A FRS seria um mau negócio para o PS (disse depois o líder do PS) em face dos resultados desastrosos. Vi-o depois com a mulher, sobrinha de António Sérgio, com quem se tinha casado pouco tempo antes. Foi num concerto da Orquestra Gulbenkian, na Fundação, enquanto subia as escadas, vindo do bengaleiro.

terça-feira, junho 08, 2004

O 3º contacto, princípio do fim do trânsito 

Quando o bordo direito de Vénus, depois de passar pela fente do sol, toca finalmente o bordo direito da estrela, inicia-se o 3º contacto. Vénus iniciou a saída do disco solar, que demorará cerca de 20 minutos. O recurso à visão directa, sem auxílio de nenhum instrumento, como foi o meu caso, não permite distinguir com rigor o momento preciso em que o contacto se inicia. Muito menos daria para ver a aparição da gota negra, que confunde os astrónomos e observadores. Dentro de minutos Vénus sairá completamente do disco solar e nesse momento terá lugar o 4º e último contacto - o bordo esquerdo do planeta tocando, à despedida, o bordo exterior do sol. E aí, nessa zona saturada de luz, Vénus ficará invisível até ao anoitecer.
Para mim o trânsito acabou. Realizei a última observação pelas 12.10m, quando já ptraticamente não distinguia o planeta do bordo solar.


Ponto da situação às 11h07m 

O Observatório Astronómico de Lisboa está a seguir o trânsito e deixa algumas fotos regularmente no seu sítio. Observei por breves momentos o sol à entrada do Garcia de Orta, pelas 9.20, à saída, cerca de uma hora depois e ao chegar a casa, pelas 10.45. Eu e o Miguel observámos mais demoradamente o trânsito, entre as 8.40 e as 9.00. Sentámo-nos num muro, entre a igreja e a escola, e ficámos aí por alguns minutos. Temos fotos. Não propriamente do trânsito, mas da observação.
No sítio do OAL retirei esta nota há minutos e esta foto (creio que já bastante desactualizada):

Vénus em Trânsito no Disco Solar
8 de Junho de 2004

-Situação às: 11h07m


O passeio de Vénus sobre o disco solar 

O perfil de Vénus mal se vê projectado no disco solar. Observado da varanda da minha cozinha é um ponto escuro, imóvel sobre o sol, que é preciso perseguir com os olhos, numa concentração que cansa após vários segundos. Mas ele lá está, como se tivesse marcado um encontro connosco e não pudesse faltar, na vertigem da sua corrida pelo espaço. Não consigo entrar na conferência anunciada do Observatório Astronómico de Lisboa. Não estou on line.

Começou o trânsito 



Começou o trânsito de Vénus, já há mais de uma hora. O sol só agora estará a aparecer no topo da minha varanda da frente. Os edifícios da rua não me permitem uma observação directa e desimpedida desde o início. Quando começou, pelas 06.20 - hora legal - o centro do sol encontrava-se muito junto ao horizonte matemático, a cerca de 1º, o que praticamente impedia a observação. Agora, decorridos mais de 60 minutos já será possível realizar a observação copm os óculos. Sem mais, apenas em visão directa. Vou ver.

segunda-feira, junho 07, 2004

Teoria Geral da Estupidez Humana: os 5 axiomas de Carlo Cipolla (a minha adenda) 

Não vou qualificar agora a imprudente indiferença com que tratamos geralmente a estupidez humana, a dos outros, porque naturalmente resistimos a aplicar a nós próprios as considerações que tão generosamente prodigalizamos a terceiros. Sobrevoava há dias a blogosfera portuguesa quando dei com um blogue chamado Portugal dos Pequeninos, com um poema do Alexandre O'Neil em epígrafe. Gostei do que li. Num post recente o seu autor, que subscreve os textos com joao_ms_goncalves, refere-se ao livro de Carlo Cipolla, Addagio ma non troppo, da Celta Editora. Cito a partir dali as 5 leis gerais da estupidez humana, declinadas pelo autor. Primeira: "cada um de nós subestima sempre e inevitavelmente o número de indivíduos estúpidos em circulação". Segunda: "a probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa mesma pessoa". Terceira: a pessoa estúpida é aquela "que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para si, ou podendo, até, vir a sofrer um prejuízo". Quarta: "as pessoas não estúpidas subestimarem sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas", ou de outro modo, "os não estúpidos esquecem-se constantemente que em qualquer momento, lugar e situação, tratar e/ou associar-se com indivíduos estúpidos revela-se, infalivelmente, um erro que se paga muito caro". Finalmente, em quinto lugar, o autor afirma que 'a pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que existe'. Em conclusão das leis apresentadas, "as pessoas estúpidas causam perdas a outras pessoas sem que obtenham vantagens para si próprias (...) elas apenas conseguem empobrecer toda a sociedade".
Quando há alguns anos li uma recensão sobre o livro retive a segunda lei que afirma a independência da estupidez humana face a qualquer outra característica. De facto o que é novo no tratamento da estupidez é o modo como ela é levada a sério. Não há nada de contraditório (em termos) em conceber um bispo estúpido, um merceeiro estúpido, um professor ou um pedinte estúpidos. E por aqui adiante. Estabelecido este princípio a estupidez ganha novos contornos, torna-se verdadeiramente uma ameaça - na verdade já o era antes. O estúpido não é necessariamente um ingénuo nem um tolo inofensivo, o estúpido é um indivíduo perigoso quando publicita os seus actos. E mais ainda se resolvermos admitir - como eu prefiro admitir - que a estupidez é uma predisposição e um quadro de referências individuais, mas não necessariamente uma idiossincrasia. É como a santidade mas ao contrário: quantos homens santos não foram em tempos (óoo) grandes pecadores? Quantos estúpidos não poderão um dia... etc.
Como se identifica um estúpido, como distinguimos entre outros os actos verdeiramente estúpidos? Não li o livro, onde poderia encontrar seguramente bons conselhos sobre a matéria. Mas tenho uma ou duas ideias que me acompanham desde há anos. Em primeiro lugar, tal como acabei de referir: a estupidez não é idiossincrática, no sentido em que assimilamos idiossincrasia a carácter; ela constitui-se pela frequência, permanece uma predisposição meramente estatística, estabelece uma probabilidade. O que faz pairar, sobre qualquer um de nós, a pecha da estupidez, sem que tenhamos de admitir (quem o admitiria seriamente?) que somos realmente estúpidos, do mesmo modo que uma porta é irremediavelmente uma porta, agora e para sempre.
Em segundo lugar, a estupidez caracteriza-se por acelerar drasticamente a entropia, estabelecendo uma pura perda. Quer de soluções e de recursos, como no campo das relações entre as pessoas. A estupidez caracteriza-se (em abstracto) por reduzir obstinadamente o universal ao particular, sem que o estúpido perceba a diferença. Estúpido é aquele que recusa a abertura das possibilidades, escolhendo e arrastando outros na escolha perversa do seu contrário. Consiste sobretudo em afunilar as possibilidades deliberadamente, regozijando-se na perda. Uma ontologia da estupidez estabeleceria uma regra muito simples: estúpido é tudo quanto contribui para reduzir o ser, para coarctar a realidade, para restringir o humano do homem. Por isso a estupidez é, frequentemente, uma forma de crueldade.
Em terceiro lugar: nenhum trocadilho ou jogo de palavras evocando o conceito de estupidez, o substantivo estúpido, ilustra ou esclarece necessariamente o problema da estupidez humana; dizer, por exemplo, que 'qualquer discurso sobre a estupidez corre sérios riscos de se tornar, ele mesmo, estúpido' ou que 'aquele que ignora os riscos de um comportamento estúpido é... provavelmente um estúpido' são jogos de linguagem que não levam a nada. Só por isso me inibo de, com toda a propriedade, os considerar em si mesmos, um devaneio alegre de um carácter obstinadamente estúpido.

Consultar este artigo sobre as Leis de Carlo Cipolla.

O trânsito de Vénus, June 8, 2004 

O trânsito de Vénus - a passagem do planeta em frente da coroa solar - é já amanhã. Quando há alguns meses telefonei para o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) em busca de informações sobre Almanaques, falei com a astrónoma Alfredina do Campo, responsável pelos cálculos de posição dos astros e pela imensa quantidade de informação astronómica disponibilizada por aquela entidade. Na altura a astrónoma falou-me da iminência do trânsito, da raridade do fenómeno e do seu interesse pedagógico. Depois esqueci o assunto. Não imaginava então que este acontecimento invulgar acabaria por se tornar numa grande aula, que os jornais, as televisões fariam eco dessa rara conjunção que durará pouco mais de 6 horas. Saiu um livro, venderam-se os óculos da observação (um milhão e meio foram deixados nas farmácias para venda) e mostram-se gráficos animados e fotografias no fim dos telejornais. Aqui em casa já montei um pequeno planetário, suspendendo do tecto uma bola insuflável, que representa o sol, um berlinde que representa Mercúrio, e depois Vénus, mais longe, a Terra e junto desta a Lua. Assim poderemos simular o trânsito, observando os quatro contactos de Vénus cm o sol.



A meu pedido a Manuela trouxe da Feira do Livro de Lisboa (ainda não fui e acaba na quinta-feira) o livro do Nuno Crato. Recuando um pouco... No início do mês, fim de Maio, ouvi o Pessoal e Transmissível, um excelente programa de Carlos Vaz Marques, na TSF. O convidado foi o astrónomo Nuno Crato que falou entusiasticamente do livro que tinha recentemente publicado com outros colegas da área. Assim cheguei à obra: Trânsitos de Vénus - à procura da escala exacta do sistema solar, Nuno Crato, Fernando Reis, Luís Tirapicos, Gradiva, Lisboa, 2004.



Li o livro enquanto Vénus se aproximava velozmente do seu destino solar. É um objecto atraente, com o sol a resplandecer na capa. Conta as histórias dos trânsitos com a parte de aventura que coube aos seus principais protagonistas viver. Cada capítulo corresponde a um trânsito e a um grande protagonista, pelo menos. Numa prosa solta, adequada aos leitores modernos que encontram nos enredos da descoberta científica a inspiração do romance, os autores contam-nos a história da 'procura da escala exacta do sistema solar'. Kepler, Gassendi, Horrocks, Halley, Delisle, o famoso capitão Cook e o padre Teodoro de Almeida são alguns dos personagens que entram nesta história. Medições e previsões matemáticas, cálculos, planos e expedições a lugares remotos, fracassos rotundos e sucessos na observação e registo do fenómeno são a matéria de que se faz este livro. Os autores escrevem de forma acessível e perseguem obviamente um objectivo pedagógico que faz prevalecer a obra para lá da data do trânsito. É quase um manual de astronomia popular...
Fica claro no relato destes episódios como os países e potências emergentes na altura procuram marcar o seu terreno e ocupar o seu lugar no jogo da exploração científica. É o novo mapa do mundo que se vai desenhando. Nesse mapa a ciência e a investigação são uma das armas mais importantes para o desenvolvimento.

quinta-feira, junho 03, 2004

O Celeiro, nova entrega do jornal escolar da Moinho de Maré 



Não é o momento para falar do Correio de JB mas do Celeiro, jornal regular, pontual como as estações do ano, o jornal escolar da Escola Secundária Moinho de Maré. O exemplar que recebi ontem - o Francisco Gonçalves veio cá de visita e ofereceu-me o último número - é o 30 (já vai no ano 12) e faz manchete com o Baile de Finalistas da escola. "Vamos ao baile", o Celeiro foi. Este número, impresso na Regigráfica (como o nosso Correio de JB), em papel de uma gramagem maior, de branco imaculado, saiu com 20 páginas, o que é muito considerável. A página 3 é dedicada a um artigo de fundo de um professor que escreve sobre "Aristóteles e a cidadania", enquanto a anterior é preenchida com notícias soltas: a sexualidade em Tertúlia (boa ideia, esta), um encontro sobre o 25 A, a apresentação de uma Associação Juvenil Move-a-Mente. Relatos de visitas de estudo (à Pedreira do Galinha, à Escócia, a Madrid, a Guimarães e Braga, Sintra), a participação de 7 professores num encontro Galaico-Português sobre Educação pela Paz, que teve lugar em A Guarda, notícias sobre actividades escolares das mais variadas, páginas inteiramente consagradas à fotografia, à poesia e à BD, preenchem um jornal com uma imagem muito consistente que mantém uma linha editorial sólida desde que o conheço. Mas ainda sobra espaço para falar de gastronomia, a Literatura no Português B, o Hip Hop, o Dia da Ciência, o Passa a Palavra, a capoeira (que é aquilo que nós sabemos com muito jogo de pernas e de ancas), o Rock in Rio, jogos de computadores, Teatro e o mais. E claro as fotografias das turmas que terminam, os alunos "grandes" do 12º ano, no seu Baile que faz manchete.



Conheço o Celeiro há muito ano. Foi este jornal escolar que eu visitei quando preparava a saída do Correio de JB. Apareci numa aula de comunicação e assisti ao trabalho de Redacção (por duas vezes), troquei umas ideias, levei algumas respostas. O Celeiro não corresponderá, em todos os aspectos, ao meu modelo de jornal escolar - nomeadamente a organização das matérias e o grafismo que me parece muito cuidado mas pouco flexível. Tenho críticas à composição da 1ª página, onde o título da publicação e informação complementar ocupam um terço de todo o espaço. Também me parece que a última página é demasiado flutuante, não estabilizando uma fórmula nem uma imagem. Mas reconheço que este jornal realiza bem, com sensibilidade e coerência, algumas boas ideias do jornalismo escolar. É uma publicação elegante, promove um jornalismo de escola, o que não acontece com toda a imprensa escolar e enriquece, com cada número que sai, o património da Moinho de Maré. Pratica um jornalismo ético, pelos valores que promove, e estético, pela atenção única à fotografia e às artes. É um jornal escolar dirigido pelo bom Xico Braga, no qual o Francisco colabora regularmente. É, inevitavelmente, uma das referências do concelho neste âmbito. E é regular, já o disse, mas gostaria de repetir. E num jornal escolar essa qualidade é uma conquista que se consegue com muito trabalho, com muita persistência.
Para uma visita virtual à escola, que parece um celeiro (é o que dizem) - circunstância que terá facilitado a escolha do nome do jornal - basta apontar o cursor e, sem medo e com espírito fraterno, clicar aqui. O sítio da escola, que eu não conhecia é bastante interessante. Tem substâcia informativa, quer dizer, serve para dar informações de que os seus utilizadores potencias necessitam. Pais, alunos, professores, funcionários... visitantes. Não vou sugerir que comparem este serviço com o nosso sítio, que permanece em estado de ruína desde há dois anos sem que a gestão da JB se preocupe minimamente com isso. Mas comparem.

Um homem da Rádio confessa-se (e o fado, senhores?) 

O título do livro, com a chancela da editora Sete Caminhos - A rádio não acontece... faz-se - repete o nome de um programa realizado em tempos pelo Fernando Correia. A obra começa como uma reflexão acerca da comunicação e da informação da rádio, com citações e tudo, termina com evocações de uma memória longa de quase 50 anos de trabalho e constitui ainda um balanço de uma vida inteira dedicada ao jornalismo radiofónico. Por vezes o autor não resiste à tentação de ajustar contas com o seu tenpo e com algumas pessoas que com ele se cruzaram. Mas o tom ameno e ecuménico nunca dá lugar verdadeiramente ao ressentimento puro e duro. Pelo contrário, o Fernando Correia, reconhecido e admirado pela sua humanidade e sentido de tolerãncia, refere uma longa legião de amigos e de pessoas que modelaram a sua forma de fazer rádio. Por vezes o relato perde-se na anedota e o livro, cheio de experiências que marcaram uma vida intensa de trabalho e de amizades criativas, não chega a constituir o índice de uma história da nossa rádio, como parece pretender.
Algumas ideias interessantes. A rádio é um meio de comunicação e um canal de informação que mantém com o directo uma relação priveligiada. Nenhum outro media está tão disponível para o curso ininterrupto de informação, num modelo de canal aberto que faz da rádio um meio que toca, como nenhum outro, o seu receptor. A rádio do futuro será a rádio especializada, num quadro em que a rádio generalista terá apenas uma função de serviço público. Rádio Notícias, como é o caso da TSF, mas também rádio desporto (que parece ser o grande projecto sonhado pelo autor), rádio cultura, rádio teatro...
A internet é, para Fernando Correia, já um meio a que a rádio não pode virar costas. Por isso imagina uma rádio on line, tema que afinal acaba por não explorar.
Uma nota à margem: descobri, lendo este livro, que o famoso João Sebastião Bar, situado "ali" em S. Pedro de Alcântara, foi criado pelo Fernando Correia em 1974. Durante 14 anos o bar foi um dos lugares da intelectualidade de esquerda. Dali, de um estúdio improvisado, conta o autor, tiveram lugar muitos directos e foram realizados muitos programas de rádio.

P.S.: de manhã no café Figuras, no recato de uma sala ampla. Li com interesse o cap. 2 do ensaio de Rui Vieira Nery - Para uma História do Fado. Afinal a canção nacional, que expressa as mais recônditas subtilezas da nossa alma nostálgica... foi urdida na sensualidade do cruzamento afro-brasileiro. O fado veio embalado das colónias, do Brasil, de África, miscigenou o nosso carácter abstracto com a inquietação erótica dos brasileiros e a cadência irresistível dos africanos. Eis o fado.

terça-feira, junho 01, 2004

Folhas de Erva/ Leaves of Grass, do velho (hermoso) Walt Whitman 



PARA TI Ó DEMOCRACIA

Vem, construirei o indissolúvel continente,
Criarei a mais esplêndida raça sobre a qual o sol já brilhou,
Criarei terras magnéticas e divinas,
Com o amor dos companheiros,
Com o amor eterno dos companheiros.

Plantarei um companheirismo tão denso como as árvores ao longo de todos os rios da
América e ao longo das margens dos grandes lagos, e por todas as pradarias,
Criarei cidades inseparáveis com os braçois em redor dos pescoços umas das outras,
Por amor aos companheiros,
Pelo amor amor viril dos companheiros.

Para ti tudo isto da minha parte, ó Democracia, para te servir ma femme!
Para ti, para ti eu entoo estas canções.


Conheço a intensa alegria da poesia de Whitman, o fulgor das suas palavras, o seu entusiasmo juvenil, viril, apenas a partir de duas ou três referências. Lorca, Pessoa, que me lembre. De Fernando Pessoa sempre me fascinou a grande magnificência, digamos, cósmica, da sua Saudação a Walt Whitman. O poema, do engenheiro naval Álvaro de Campos (de olhos azuis, como já ouvi dizer), tal como o conheço na antiga edição da Ática é um hino à Liberdade, ao Universo, à vida sem limites nem impedimentos morais. Começa assim:

Portugal-Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a rua do Ouro,
E conforme te sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.


Mais tarde dei com Poeta en Nueva York de Lorca, escrito sob o influxo da cidade que "geme pelas imensas escadarias". A viagem de Federico Garcia Lorca, de que passam 75 anos no próximo 25 de Julho, alargou o fôlego da sua poesia, tornou-a moderna noutros sentidos antes insuspeitados. Na sua Oda a Walt Whitman, Lorca fala do grande poeta americano com o mesmo sentido de fraternidade de Álvaro de Campos. O poeta que "soñaba ser un río y dormir como un río" é o "anciano hermoso", com a barba cheia de borboletas. O poema, que é cantado por Patxi Andion num disco de homenagem a Lorca, passa por estes versos:

Ni un solo momento, viejo hermoso Walt Whitman,
he dejado de ver tu barba llena de mariposas,
ni tus hombros de pana gastados por la luna,
ni tus muslos de Apolo virginal,
ni tu voz como una columna de ceniza;
anciano hermoso como la niebla,
que gemías igual que un pájaro
con el sexo atravesado por una aguja,
enemigo del sátiro,
enemigo de la vid,
y amante de los cuerpos bajo la burla tela.


Mas o primeiro vislumbre que tive do autor americano foi com um livrinho, mais biografia que Antologia (apesar de reunir alguns poemas) que comprei em 17 de dezembro de 1983, há quase 21 anos. Resgatei o exemplar degradado de uma das bancas da praça do Comércio, onde então comprava muita coisa, antes de me recolher um pouco ao Martinho da Arcada para confirmar a minha oração literária. Paguei 50$00, assim mesmo com cifrão e tudo. Nem a representação ingénua da bandeira americana numa capa esfolada e desagradável ao tacto, me dissuadiu da compra. Tem repousado na prateleira da literatura americana, ao lado de Henry Miller, de Melville, de Kerouc, de Gore Vidal.
Há dias a Manuela chegou da Feira do Livro com dois tomos envolvidos por uma fina película de plástico. Trouxe-me "Leaves of Grass", em tradução de Maria de Lourdes Guimarães, edição bilingue da Relógio D'Água. Afinal não conhecço ainda a poesia luminosa do poeta daquela América que vale a pena amar.

Deixo aqui, um dos inúmeros e incontáveis sítios onde podemos ler sobre Whitman. Para mais o Google sabe como chegar lá.

Os livros que citei ao longo deste post, por ordem de descoberta:
Poesias de Álvaro de Campos, Edições Ática, Colecção Poesia, Obras Completas de Fernando Pessoa, Lisboa, 1980.
Walt Whitman, Vida e Pensamento, Luís Eugénio Ferreira, Galeria Panorama, série biografias, s.l., s/d.
Poeta en Nueva York, Federico García Lorca, Catedra, Letras Hispánicas, Edición de María Clementa Millán, Madrid, 1992.
Folhas de Erva/ Leaves of Grass (vol. I e II), Walt Whitman, relógio D'Água, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, s.l., dezembro de 2002.

Salvatore, o percursor da interlingua 

Depois das minhas descobertas no que concerne ao desenvolvimento de uma língua supranacional, lembrei-me de Salvador, a mosntruosa criatura do Nome da Rosa de Eco. A figura do homem deformado emerge da sombra da abadia e despeja uma torrente de palavras de língua nenhuma e afinal de todas as línguas. Salvador foi um dos percursores involuntários da interlíngua. "O homem sorriu (ou pelo menos assim julguei)", - começa o narrador, o envelhecido Adso de Melk - "e, levantando o dedo como para admoestar, disse:
- Penitenciagite! Vide quando draco venturus est para roê-la a tua alma! A mortz est super nos! Reza que vem o papa santo para livrar nos a malo de todas as peccata! Ah, ah, gostais d'ista necromancia de Domini Nostri Iesu Christi! Et mesmo jois m'es dols e plazer m'es dolors... cave el diablo! Semper m'espreita em qualquer canto para me ferrar os calcanhares. Mas salvador non est insipiens! Bonum monasterium, e aqui se manja e se roga dominum nostrum. Et el resto valer um figo seco. Et amen. No?"

Hora sexta do primeiro dia.



Guilherme e Adso acabavam de chegar à abadia. O jovem acompanhante do franciscano detem-se a admirar o portal da igreja, apesar da sua relativa vulgaridade. No templo têm um estranho encontro, antes de darem com o velho Ubertino de Casale, deitado no chão e de braços abertos, em sinal de extrema humildade, orando febrilmente. "O ser que estava atrás de nós parecia um monge, embora a túnica suja e rasgada o fizesse assemelhar antes a um vagabundo, e o seu rosto não era diferente do dos monstros que tinha acabado de ver nos capitéis", explica Adso. Aquele homem que surge da sombra, curvado, timorato e quase ininteligível, começa a falar. Expressa-se num idioma cosido de retalhos: "(...) nunca compreendi então, que género de língua ele falava. Não era latim, língua em que nos exprimiamos entre homens de letras na abadia, não era a língua vulgar daquelas terras, nem outra vulgar que jamais tivesse ouvido. (...) Quando mais tarde soube da sua vida aventurosa e dos vários lugares onde tinha vivido, sem encontrar raízes em nenhum, dei-me conta que Salvador falava todas as línguas e nenhuma. Ou melhor, tinha inventado uma língua própria usando os pedaços das línguas com que tinha entrado em contacto - e uma vez pensei que a sua era não a língua adâmica que a humanidade feliz tinha falado, todos unidos por um só falar, desde as origens do mundo até à Torre de Babel, e nem sequer uma das línguas surgidas depois do funesto evento da sua divisão, mas precisamente a língua babélica do primeiro dia depois do castigo divino, a língua da confusão primeva. (...) E todavia, bem ou mal, eu compreendia o que Salvador queria dizer, e os outros também."
As citações deste post foram colhidas de O Nome da Rosa de Umberto Eco, da Difel, 11ª edição sem data.


Interlingua, communication e comprension inter le homines de nationes diverse 

Basta ir ao Google, escrever qualquer coisa como "línguas artificiais" e cai-nos em cima uma enorme quantidade de sítios sobre o tema: desde o inevitável Esperanto ao seu concorrente mais próximo, o Volapuk, aos idiomas inventados para sagas do cinema, kits para inventar línguas artificiais, cursos em 10 lições, mundos ideais e de fantasia com códigos culturais e geografia própria (ver o caso de Tolkien e da sua obra)... e a Interlingua. Uma língua veicular, puramente instrumental criada a partir da intercessão de um conjunto de outras línguas modernas. Os seus apologistas afirmam que se pode aprender perfeitamente em três meses. E depois há os congressos, os encontros internacionais, as publicações... e o inacreditável Hotel Volapuk. Copiei para aqui um texto de propaganda da Interlingua. Ler estas coisas é um exercício fascinante de descoberta do mundo de Babel.



Le possibilitate de communication e comprension inter le homines de nationes diverse es desirabile. Es desirabile le introduction de un lingua auxiliar international.

Latino e linguas national es troppo difficile pro servir satisfactorimente como medios de communication inter le "homines in le strata". Recommendar le uso de iste idiomas o de un tal idioma non serea un solution democratic. Le elevation a un position monopolisate de un lingua national in preferentia a omne alteres significarea un privilegio enorme (con consequentias cultural e economic) pro le nation cuje idioma es eligite. Isto non serea acceptate per le grande statos. Si on elige p.ex. anglese, le franceses, russos, germanos, hispanofonos, arabes etc. non tardarea presentar lor protestos.

Conclusion: es besoniate un lingua neutral.

Latino classic es neutral, sed non solmente troppo difficile: in su vocabulario manca expressiones pro fenomenos moderne.

Pro solver le problema, idealistas, sovente sin qualificationes linguistic, ha publicate circa septe centos projectos de linguas artificial. Le plus cognite es Esperanto (1887) con 50.000 personas organisate. In su vocabulario, in principio romanic, se trova un mixtura de parolas german, anglese e russo, e le parolas le plus frequente es artificial e Esperanto non es legibile mesmo a polyglottos sin studio. Inter 100.000 e 200.000 solmente comprende un texto in Esperanto.

Finalmente linguistas professional se ha interessate in le problema e in 1951, post un quarto de un seculo de recerca linguistic, ha publicate Interlingua, que es un registration del vocabulario international de facto existente como un hereditage commun non solmente del milliones de romanophonos, sed de tote le mundo cultivate.

Publicationes medical e scientific ha comenciate utilisar Interlingua quasi immediatemente. Le lectores comprende le textos sin studio previe.

Para uma primeira abordagem da Interlingua começar por aqui. Bona chance... ou será Bona suerte? Ni idea.
Já agora deixo aqui um blogue muito recente - o primeiro post está datado de 19 de maio - escrito integralmente na interlingua. O seu autor afirma: "Isto es mi nove blog, un jornal in rete totalmente scribite in interlingua. In iste blog, io intende de scriber super linguas, de traducer novas super linguas in interlingua, o de contar altere cosas varie que me sembla interessante."