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segunda-feira, maio 31, 2004

Um homem que está cansado 

Li esta tarde três contos de El Libro de Arena de Jorge Luís Borges. Roger Chartier cita-o por diversas vezes na sua conferência. E cita-o no original. Li ou reli El Congreso, que me despertou a curiosidade sobre o Volapuk, Utopía de un hombre que esta cansado e o conto que dá o título ao livro. Todos eles são peças de relojoaria literária. No relato bizarro que é o conto Utopía de un hombre... encontrei uma passagem suprema, em que transparece o habitual pessimismo político e antropológico de Borges. Não deixa de ser uma brilhante provocação aquilo que ele escreve. Num futuro algo distante, a que Eudoro Acevedo teve miraculosamente acesso, encontra num lugar remoto um estranho ser humano que apenas fala latim. É um homem futuro e habita uma casa modesta de madeira no meio de quase nada. O mundo regressou ao latim e a sociedade não existe. Existem homens e mulheres e cada um é tudo para si mesmo. Acevedo, perplexo, pergunta-lhe: "-Todavía hay museos y bibliotecas?". O homem responde-lhe: "-No. Queremos olvidar el ayer, salvo para la composición de elegías. No hay conmemoraciones ni centenarios ni efigies de hombres muertos. Cada cual debe producir por su cuenta las ciencias y las artes que necesita." Acevedo completa: "-En tal caso, cada cual debe ser su propio Bernard Shaw, su proprio Jesucristo y su proprio Arquimedes." Depois, movido pela curiosidade de um homem do final do século XX (Acevedo nasceu em 1897, em Buenos Aires, e tinha já 70 anos) pergunta-lhe: "-Que sucedió con los gobiernos?" O homem responde-lhe: "-Según la tradicion fueron cayendo gradualmente en desuso. Llamaban a elecciones, declaraban guerras, imponíam tarifas, confiscaban fortunas, ordenaban arrestos y pretendían imponer la censura y nadie en el planeta los acataba. La prensa dejó de publicar sus colaboraciones y sus efigies. Los políticos tuvieron que buscar oficios honestos; algunos fueron buenos cómicos o buenos curanderos. La realidad sin duda habrá sido más compleja que esto resumen." A realidade é sempre mais complexa do que prevê o optimista, e menos risível do que deseja o pessimista.



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