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domingo, maio 23, 2004

SILÊNCIO... Vou ler em voz alta! 

Existe uma longa história da leitura. Alberto Manguel traçou alguns aspectos capitais dessa história num livro admirável a que já me referi aqui. A leitura em voz alta é uma das dimensões do resgate de sentido de que a letra se encontra imbuída. Um dos marcos dessa história é a descoberta solene que Santo Agostinho faz ao surpreender Ambrósio lendo silenciosamente, sem mexer os lábios. A figura imóvel do santo, fechada no círculo perfeito do seu silêncio meditativo, impressionou vivamente o autor da Cidade de Deus. A passagem das Confissões onde o episódio é descrito, é puro alimento para o espírito. Agostinho sabe ser sincero, profundo e sagaz, sem perder a claridade de uma escrita que serve para desvendar os mistérios de uma espiritualidade atormentada e cheia de sombras. O excerto encontra-se no Livro VI das Confissões, denominado "Entre Amigos" (que li na edição académica da Livraria Apostolado da Imprensa, datada de 1984), parágrafo 3.
Agostinho debate-se ainda com as suas dúvidas e perplexidades, enquanto elogia a figura de Santo Ambrósio. Mas era difícil falar-lhe a sós. Quando não recebia verdadeiras multidões que o procuravam para auxílio, recolhia-se à leitura: "As multidões dos homens de negócios, a quem ele acudia nas dificuldades, impediam-me de o ouvir e de lhe falar. No pouquíssimo tempo em que não estava com eles, refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura". Depois Agostinho assinala o enigma: "Mas quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam. Nas muitas vezes que me achei presente, - poque a ninguém era proibida a entrada, nem havia o costume de lhe anunciarem quem vinha - sempre o via ler em silêncio e nunca de outro modo." Agostinho teoriza respeitosamente sobre os motivos de tal comportamento. Leria em silêncio para evitar interrupções de algum discípulo que lhe pedisse esclarecimentos. O que seria uma perda de tempo, roubado à leitura e à possibilidade de ler mais e com recato. Mais provavelmente, continua Agostinho, Ambrósio leria em silêncio para poupar a voz de que necessitava para as palestras. "Mas fosse qual fosse a intenção com que o fazia, só podia ser boa, como feita por tal homem."
Depois desta descoberta de santo Agostinho a história da leitura segue a sua via silenciosa, num aprofundamento da interioridade do leitor solitário, enquanto a leitura em voz alta se reserva sobretudo para fins mais utilitários. Mas esta conquista da leitura silenciosa, com o que supõe de aprofundamento da mundividência do leitor, não deverá fazer-nos perder de vista as circunstâncias que envolvem a leitura em voz alta. Leitura pública, familiar ou privada, a leitura ouvida cumpre um programa implícito ou manifesto de socialização do saber e de urbanidade, de promoção de gosto, de partilha da informação numa economia da oralidade. Mas também pode obedecer a critérios de duvidoso proselitismo político ou religioso. Actualmente a leitura em voz alta é uma estratégia quer de promoção comercial da obra e do seu autor, como um recurso para a promoção da leitura numa sociedade que multiplica os modos de leitura sem melhorar visivelmente os níveis médios de literacia.



Para mim a leitura em voz alta deve ser um recurso para fazer novos leitores e para levar a pensar, para partilhar saberes e para reforçar laços de convivialidade entre leitores, entre professores e alunos, entre pares, numa procura conjunta do conhecimento, que inevitavelmente dará lugar, a seu tempo, à investigação pessoal e solitária, ao prazer de ler um bom livro.
Nas actividades da BME tenho procurado criar episódios de leitura partilhada, dando visibilidade ao acto de ler. Ao contrário do que possa parecer a leitura individual, numa escola, pode ser um acontecimento muito pouco frequente. Criar momentos de leitura pública reforça a centralidade desse acto fundador do conhecimento, valoriza a disponibilidade e a atenção e revela um amplo território de possibilidades que pode ir do prazer à preplexidade, da surpresa ao sublime.

No sábado passei pela grande tenda da Festa da Educação, promovida pela CMA, que decorre até 26 de Maio na Praça de S. João Baptista. Trata-se de uma Mostra do Ensino Superior onde encontramos exposições, ateliers (nas escolas) e actividades promovidas por diversas instituições: o ISC-S, o ou a ESSEM, a FCT-UNL, a ESEJP, o ou a EN. No espaço do Instituto Piaget descobri um livro cujo título deu o pretexto para estas linhas: A Leitura em Voz Alta. Trata-se de uma obra de Georges Jean, onde se reconhece um renovado interesse pela leitura em voz alta. Poeta, linguista e universitário, passa em revista diversos aspectos da leitura e da oralidade associada, desde sempre, ao acto de ler. Para além de considerar a leitura em voz alta um recurso para fazer novos leitores e em si mesma uma didáctica geral, o autor partilha a tese de François Billetdoux, citado em epígrafe: "A dicção é metade do pensamento, tudo o resto é vocabulário." A "Voz Alta Leitora" Entre os Gregos, A "Voz Alta Leitora" da Idade Média, A "Viva Voz" Leitora e as suas Modalidades, Aprender a Ler em Voz Alta, A Pontuação, O Corpo Leitor e O Direito de Ler em Voz Alta, são capítulos do livro que termina, como se vê, em pleno acto de reivindicação.


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