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domingo, maio 30, 2004

O Livro de Areia ou o terror do livro infinito 

Borges veio a Lisboa e entrou acompanhado de Maria Kodama no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras. A sala estava cheia, como da vez em que o convidado ilustre foi Umberto Eco. Borges e a mulher desceram pelo corredor central, no sobressalto dos pequenos degraus, até ao palco, perante centenas de pessoas. Não me recordo em que ano ocorreu a sua visita, nem quem recebeu o escritor argentino ou a que propósito cá veio. Para mim foi, provavelmente, um dos melhores momentos que passei naquela sala. Estranhei que Borges não falasse de início, nem se dispusesse a uma pequena palestra, para usar uma palavra profundamente inadequada à postura e aos hábitos socráticos do escritor. Olhou o público de frente, sem o ver, com as pupilas sempre em movimento, como se procurasse algo entre a multidão, e deixou-se ficar à espera da primeira pergunta. Não me esqueço de quando pediu desculpa. Um dos presentes perguntou se ele era um cínico... Borges ouviu delicadamente a pergunta e disse que não era, mas pediu desculpa: "Os pido disculpa por no ser un cinico." O auditório, que não sabia que dizer perante tanta sinceridade e tanta malícia, riu-se.
Voltei ao Borges que ainda não li na totalidade. Em relação a alguns dos meus autores preferidos - Borges, Kafka, Pessoa - reservo uma espécie de pudor que me inibe de lê-los na totalidade. Não quero ler tudo, como se a obra fosse esgotável. Um disparate, que com o tempo tenciono corrigir.



Li ou reli três contos breves de El Libro de Arena, da alianza emecê. El Congreso é um relato sobre um desígnio impossível. Um punhado de homens e de mulheres, poucos e heterogéneos, reune-se para preparar aquele que seria o grande Congresso do Mundo, "que representaria todos os homens e todas as nações". A tarefa é imensa e a desproporção entre o esforço que seria necessário desenvolver e as energias disponíveis, não poderia ser maior. Dois congressistas são enviados para fora do país a fim de investigar sobre o idioma a adoptar para semelhante tarefa. Em que lingua se deveriam os congressistas dirigir uns aos outros? Em Latim, em Esperanto ou Volapuk, em Francês. Borges escreve: "Me hospedé en una módica pensión a espaldas del Museo Británico, a cuya biblioteca concurria de mañana y de tarde, en busca de un idioma que fuera digno del Congreso del Mundo. No descuidé las lenguas universales; me asomé al esperanto - que el Lunario sentimental califica de 'equitativo, simple y económico' - y al Volapuk, que quiere explorar todas las posibilidades linguísticas, declinando los verbos y conjugando los sustantivos. Considerá los argumentos en pro y en contra de resucitar el latín, cuya nostalgia no ha cesado de perdurar al cabo de los siglos. Me demoré asimismo en el examen del idioma analítico de John Wilkins, donde la definición de cada palabra está en las letras que la forman." Mas os homens são criaturas volúveis, e uma tarefa tão grandiosa estava destinada ao fracasso. "Fue bajo la alta cúpula de la sala que conocí a Beatriz." O amor de Beatriz também se perdeu e ao fim de pouco tempo a sociedade dissolvia-se e com ela a pretensão de um Congresso do Mundo.
Utopia de un hombre que está cansado é um relato curto sobre o futuro remoto. Um homem visita outro homem do futuro que só nascerá daí a milhares de anos. A sociedade não existe. Cada homem tem de ser a sociedade inteira para si próprio. "No conviene fomentar el género humano", diz em latim 'o homem que está cansado'. "La tierra ha regresado al latín. Hay quienes temen que vuelva a degenerar en francés, en lemosín o en papiamento" A grande diversidade das línguas favorecia a imensa diversidade dos povos e promovia a guerra. Um mundo sem imprensa, que multiplicou vertiginosamente livros e textos desnecessários, que combatia a memória das trivialidades. Ao fim de séculos de uma vida sem marcos e sem datas o homem foi conduzido a uma sala crematória onde desapareceu, com todos os seus parcos haveres. Não sem antes se despedir com elegância.
O último conto do livro é, precisamente, "El Libro de Arena". Um relato enigmático sobre o infinito e a infinitude onde partilhamos um segredo com um morador da calle Belgrano. Um dia ele recebe a visita de um homem que vende Bíblias mas que também lhe fala de um outro 'livro sagrado'. Um livro de areia, que não pode ser folheado do princípio ao fim porque possui um número infinito de páginas. Quem não tem uma primeira página nem ma última. Comprou-o mas rapidamente se deu conta de que 'o livro era monstruoso': "Senti que era un objeto de pesadilla, una cosa obscena que infamava y corrompia la realidad." Pensou queimá-lo, mas desistiu por temer que a combustão de um livro infinito sufocasse o mundo inteiro. Acabou por deixá-lo esquecido num recanto da Biblioteca Nacional.

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