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sábado, maio 15, 2004

O 4º centenário do senhor Quesada 

No próximo ano de 2005 contam-se quatro séculos sobre a publicação da novela de Cervantes. Vai ser o ano de Cervantes. Também vai ser o ano de muitas outras coisas, naturalmente. Tenho tentado imaginar uma forma de transferir o clima propício de celebração do D. Quixote para o interior da realidade escolar, nomeadamente da JB. Agora que as Leituras Imprevistas V já tiveram lugar - com menos brilho que noutros anos - posso imaginar e planear a próxima edição. Deparei-me então com dois problemas: (1) o de justificar pedagogicamente - e até curricularmente - a escolha de uma obra estrangeira da importãncia desta para uma actividade de grande envolvimento; (2)o de enquadrar a actividade na economia e no espírito das Leituras, onde se supõe a leitura integral de uma obra - o que aqui não poderia acontecer, dada a dimensão e a estrutura tão complexa da novela.
Entretanto ocorreu-me que a opção pela grande narrativa de Cervantes seria mais facilmente legitimada se, para além do texto ela também servisse de pretexto para uma deriva por alguns dos tópicos e núcleos do nosso tempo, do mundo actual. Explico melhor: em virtude da impossibilidade de fazer uma leitura integral do texto e da irrelevância de ficar por uma leitura pura e simples, sem enquadramento, sem contextualização, e sem qualquer referência às experiências e expectativas intelectuais dos alunos e professores, o ideal seria escolher alguns núcleos centrais da obra, em torno dos episódios mais significativos.


Por exemplo, deixo algumas pistas de trabalho (a mim próprio), inventariando meia dúzia de episódios: o da queima dos livros de cavalaria, protagonizado pelo padre e pelo barbeiro, que assim julgavam cortar o mal de D. Quixote, leitor inveterado, pela raiz das suas leituras (I parte - cap. VI); o episódio em que o cavaleiro, confundindo tudo como era costume, liberta uns condenados às galés (I parte - cap. XIX); o discurso das armas e das letras, em que D. Quixote toma o partido das armas (I parte - cap. XXVIII); a aventura da descida à gruta de Montesinos, onde perde a noção do tempo e julga ter permanecido muitos dias (II parte - cap. XXII); o episódio divertidíssimo do teatro de fantoches de Maese Pedro (II parte - cap. XXV a XXVII); o episódio antológico em que o amo aconselha o seu escudeiro, preparando-o para o governo da ilha da Barataria (II parte - cap. XLII e XLIII); o episódio cortesão da cabeça encantada, em que D. Quixote é iludido no sentido de acreditar que o estranho mecanismo pode responder a perguntas que lhe fossem feitas (II parte - cap. LX).
A minha ideia consiste então no seguinte: uma vez identificados e escolhidos alguns episódios mais significativos, promover a sua leitura integral, enquadrando-os devidamente no todo da narrativa. Depois criar, a partir de cada um deles, um acontecimento que permita explorar as pistas da narrativa cervantina numa perspectiva pedagógica e cultural.
Sem pensar muito e espontaneamente, poderia imaginar uma sessão de Conversas Com Livros a partir do episódio descrito no capítulo VI, da primeira parte. Sobre os livros proibidos, sobre os livros que não lemos, sobre os malefícios da leitura... etc. A libertação dos condenados às galés pode ser um bom pretexto, paródico é certo, para falar de justiça. O discurso das armas e das letras seria um bom pretexto para uma reflexão animada sobre a literatura e a guerra. A descida à gruta de Montesinos permitiria uma inesperada actividade em torno da espeleologia e da investigação da terra. O episódio dos fantoches seria uma deixa para as artes do teatro, para a realização de um teatro de fantoches, precisamente. Os dois capítulos admiráveis em que D. Quixote aconselha Sancho, preparando-o para o governo da ilha, são um belíssimo ponto de partida para falar de política e de sociedade. Finalmente o episódio bizarro da cabeça encantada seria a pedra de toque de uma visita de estudo, de um debate, de um colóquio sobre inteligência artificial. A produção de materiais, com enquadramentos vários, com incidência nos capítulos efectivamente lidos, alguma exposição biográfica, sobre o autor ou bibliográfica, sobre a sua obra, filmes e um BME temático, são outras actividades complementares. Claro que incluo neste ano cervantino a sempre adiada conversa com o José Bento. Mantenho a ideia de uma sessão das Conversas Com Livros dedicada à tradução e à re-leitura, a decorrer num ambiente de tertúlia espanhola. A tradução do Quixote de José Bento estará para sair, pela Relógio D'Água por estas alturas de 2005.


Este post é um esboço do projecto, que desenvolverei na altura certa. Para mais informação basta entrar na página oficial do mundo de Cervantes, a que pode aceder a partir daqui mesmo. Um link para as iniciativas do IV Centenário está disponível logo à entrada.

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