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sexta-feira, maio 14, 2004

Leituras Imprevistas V, hoje na JB 

Há um ano atrás descubri que 2004 seria o ano do futebol. Por isso sugeri na BME que o tema das leituras fosse esse mesmo. Passei uma parte das férias de verão a ler o pouco que apanhava sobre o tema. Descubri que é difícil encontrar bons livros sobre o "desporto-rei".
Comecei pelo livro melancólico de Francisco José Viegas, Morte no Estádio, publicado pela ASA. Uma história de mistério e de traição que envolve o assassinato de um jogador do Futebol Clube do Porto – o caso acaba por ser desvendado por um polícia e por um detective que descobrem, por detrás do crime, um mundo de interesses de que não suspeitavam.
Depois, na Feira do Livro encontrei o enigmático livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes antes do momento do Penalty, da Relógio D´Água e li-o em parte nas brevíssimas férias do Algarve, nos Olhos de Água. Guardo dessa leitura de esplanada duas impressões: a estranheza da escrita de Handke, que fere pela objectividade e pela secura das descrições sem alma, por um lado; por outro o profundo mal estar que sentia então, o cansaço sem motivo, a prostração e o sono irregular. Quanto ao livro, de um amarelo rutilante na capa fina, é a história de um guarda-redes internacional da selecção alemã e da sua vida medíocre e sem sentido, depois de abandonar o mundo do futebol.
Depois li dois livrinhos a que me referi há meses neste blogue, com a melhor da minha boa vontade e o meu espírito ecuménico-literário. Golpe de Estádio – o Romance da corrupção no futebol português, de Marinho Neves, da Terramar. Uma história escrita por um jornalista, cheia de detalhes sobre a corrupção no futebol português, envolvendo jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes corruptos. E os Contos Desportivos, de Henrique da Mota, com edição da Câmara Municipal de Almada. Escritos de um autodidacta, é o mais brutal que se pode escrever acerca da obra que traspira boas intenções por todas as páginas. Contos e histórias um pouco ingénuas sobre os feitos desportivos, escritos por um ex-dirigente desportivo e atleta. A amizade, a lealdade e os valores da entreajuda são os grandes protagonistas.
Também li um delicioso livro de crónicas de Javier Marías, Selvagens e Sentimentais. Talvez o melhor de todos os que li até ao momento sobre o tema. Crónicas destilando um humor notável e um ódio irónico pelo Barcelona. Marías fala do futebol como a "recuperação semanal da infância".
Finalmente dei com o Maracanã, Adeus – Onze Histórias de Futebol, do escritor brasileiro Edilberto Coutinho, após uma árdua busca. Sabia que tinha sido editado, em tempos, pela Caminho, faz agora 20 anos, e que esgotara até ao último exemplar. Encontrei-o na Biblioteca do Seixal. São onze histórias sobre o futebol, tal como são onze os jogadores em campo por cada equipa. Composições sobre o mundo alucinante do futebol brasileiro escritas com imensa sensibilidade e afecto.
Depois disto preparei-me para preparar um dos "hemisférios" das Leituras Imprevistas, dirigido aos alunos do secundário. Para o básico a minha colega Lucília Achando encarregou-se de preparar a leitura de uma livros de histórias escrito por uma jovencíssima autora do Porto, Inês Botelho. Uma estudante de 17 ou 18 anos, na altura, que arriscou a publicação do seu primeiro livro: O Ceptro de Aerzis - a Filha dos Mundos da editora Gailivro. Sobre a pequena obra que não li diz a editora: Ailura teve uma infância repleta de contos de fadas, elfos e duendes, de todo um mundo mágico e maravilhoso. Mas como todas as crianças ela cresceu e, lentamente, esqueceu esse mundo encantado, até que deixou de acreditar que a barreira que separa o nosso mundo dos sonhos e do maravilhoso não é mais espessa que o próprio ar.
A preparação das Leituras, no que me competia, à distância e por via de esporádicos contactos telefónicos e por mail, começou por entusiasmar-me e depois por se transformar numa obrigação penosa. Teve lugar hoje e começou com uma sessão onde pontificou o nosso convidado de honra, Fernando Correia, jornalista da TSF, relatador desportivo, professor de sociologia da comunicação e sobretudo uma pessoa que pensa o futebol. Os meus colegas ficaram empolgados. Eu fiquei em casa, porque não me senti em condições de me confrontar com tanto tempo de ausência.

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