<$BlogRSDURL$>

segunda-feira, maio 31, 2004

Um homem que está cansado 

Li esta tarde três contos de El Libro de Arena de Jorge Luís Borges. Roger Chartier cita-o por diversas vezes na sua conferência. E cita-o no original. Li ou reli El Congreso, que me despertou a curiosidade sobre o Volapuk, Utopía de un hombre que esta cansado e o conto que dá o título ao livro. Todos eles são peças de relojoaria literária. No relato bizarro que é o conto Utopía de un hombre... encontrei uma passagem suprema, em que transparece o habitual pessimismo político e antropológico de Borges. Não deixa de ser uma brilhante provocação aquilo que ele escreve. Num futuro algo distante, a que Eudoro Acevedo teve miraculosamente acesso, encontra num lugar remoto um estranho ser humano que apenas fala latim. É um homem futuro e habita uma casa modesta de madeira no meio de quase nada. O mundo regressou ao latim e a sociedade não existe. Existem homens e mulheres e cada um é tudo para si mesmo. Acevedo, perplexo, pergunta-lhe: "-Todavía hay museos y bibliotecas?". O homem responde-lhe: "-No. Queremos olvidar el ayer, salvo para la composición de elegías. No hay conmemoraciones ni centenarios ni efigies de hombres muertos. Cada cual debe producir por su cuenta las ciencias y las artes que necesita." Acevedo completa: "-En tal caso, cada cual debe ser su propio Bernard Shaw, su proprio Jesucristo y su proprio Arquimedes." Depois, movido pela curiosidade de um homem do final do século XX (Acevedo nasceu em 1897, em Buenos Aires, e tinha já 70 anos) pergunta-lhe: "-Que sucedió con los gobiernos?" O homem responde-lhe: "-Según la tradicion fueron cayendo gradualmente en desuso. Llamaban a elecciones, declaraban guerras, imponíam tarifas, confiscaban fortunas, ordenaban arrestos y pretendían imponer la censura y nadie en el planeta los acataba. La prensa dejó de publicar sus colaboraciones y sus efigies. Los políticos tuvieron que buscar oficios honestos; algunos fueron buenos cómicos o buenos curanderos. La realidad sin duda habrá sido más compleja que esto resumen." A realidade é sempre mais complexa do que prevê o optimista, e menos risível do que deseja o pessimista.



domingo, maio 30, 2004

O Livro de Areia ou o terror do livro infinito 

Borges veio a Lisboa e entrou acompanhado de Maria Kodama no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras. A sala estava cheia, como da vez em que o convidado ilustre foi Umberto Eco. Borges e a mulher desceram pelo corredor central, no sobressalto dos pequenos degraus, até ao palco, perante centenas de pessoas. Não me recordo em que ano ocorreu a sua visita, nem quem recebeu o escritor argentino ou a que propósito cá veio. Para mim foi, provavelmente, um dos melhores momentos que passei naquela sala. Estranhei que Borges não falasse de início, nem se dispusesse a uma pequena palestra, para usar uma palavra profundamente inadequada à postura e aos hábitos socráticos do escritor. Olhou o público de frente, sem o ver, com as pupilas sempre em movimento, como se procurasse algo entre a multidão, e deixou-se ficar à espera da primeira pergunta. Não me esqueço de quando pediu desculpa. Um dos presentes perguntou se ele era um cínico... Borges ouviu delicadamente a pergunta e disse que não era, mas pediu desculpa: "Os pido disculpa por no ser un cinico." O auditório, que não sabia que dizer perante tanta sinceridade e tanta malícia, riu-se.
Voltei ao Borges que ainda não li na totalidade. Em relação a alguns dos meus autores preferidos - Borges, Kafka, Pessoa - reservo uma espécie de pudor que me inibe de lê-los na totalidade. Não quero ler tudo, como se a obra fosse esgotável. Um disparate, que com o tempo tenciono corrigir.



Li ou reli três contos breves de El Libro de Arena, da alianza emecê. El Congreso é um relato sobre um desígnio impossível. Um punhado de homens e de mulheres, poucos e heterogéneos, reune-se para preparar aquele que seria o grande Congresso do Mundo, "que representaria todos os homens e todas as nações". A tarefa é imensa e a desproporção entre o esforço que seria necessário desenvolver e as energias disponíveis, não poderia ser maior. Dois congressistas são enviados para fora do país a fim de investigar sobre o idioma a adoptar para semelhante tarefa. Em que lingua se deveriam os congressistas dirigir uns aos outros? Em Latim, em Esperanto ou Volapuk, em Francês. Borges escreve: "Me hospedé en una módica pensión a espaldas del Museo Británico, a cuya biblioteca concurria de mañana y de tarde, en busca de un idioma que fuera digno del Congreso del Mundo. No descuidé las lenguas universales; me asomé al esperanto - que el Lunario sentimental califica de 'equitativo, simple y económico' - y al Volapuk, que quiere explorar todas las posibilidades linguísticas, declinando los verbos y conjugando los sustantivos. Considerá los argumentos en pro y en contra de resucitar el latín, cuya nostalgia no ha cesado de perdurar al cabo de los siglos. Me demoré asimismo en el examen del idioma analítico de John Wilkins, donde la definición de cada palabra está en las letras que la forman." Mas os homens são criaturas volúveis, e uma tarefa tão grandiosa estava destinada ao fracasso. "Fue bajo la alta cúpula de la sala que conocí a Beatriz." O amor de Beatriz também se perdeu e ao fim de pouco tempo a sociedade dissolvia-se e com ela a pretensão de um Congresso do Mundo.
Utopia de un hombre que está cansado é um relato curto sobre o futuro remoto. Um homem visita outro homem do futuro que só nascerá daí a milhares de anos. A sociedade não existe. Cada homem tem de ser a sociedade inteira para si próprio. "No conviene fomentar el género humano", diz em latim 'o homem que está cansado'. "La tierra ha regresado al latín. Hay quienes temen que vuelva a degenerar en francés, en lemosín o en papiamento" A grande diversidade das línguas favorecia a imensa diversidade dos povos e promovia a guerra. Um mundo sem imprensa, que multiplicou vertiginosamente livros e textos desnecessários, que combatia a memória das trivialidades. Ao fim de séculos de uma vida sem marcos e sem datas o homem foi conduzido a uma sala crematória onde desapareceu, com todos os seus parcos haveres. Não sem antes se despedir com elegância.
O último conto do livro é, precisamente, "El Libro de Arena". Um relato enigmático sobre o infinito e a infinitude onde partilhamos um segredo com um morador da calle Belgrano. Um dia ele recebe a visita de um homem que vende Bíblias mas que também lhe fala de um outro 'livro sagrado'. Um livro de areia, que não pode ser folheado do princípio ao fim porque possui um número infinito de páginas. Quem não tem uma primeira página nem ma última. Comprou-o mas rapidamente se deu conta de que 'o livro era monstruoso': "Senti que era un objeto de pesadilla, una cosa obscena que infamava y corrompia la realidad." Pensou queimá-lo, mas desistiu por temer que a combustão de um livro infinito sufocasse o mundo inteiro. Acabou por deixá-lo esquecido num recanto da Biblioteca Nacional.

sexta-feira, maio 28, 2004

O futuro do livro, o livro do futuro 

Meti-me ao caminho. Apanhei aqui à porta de casa o bus para a Praça de Espanha, perto das 10.00 horas. Cheguei a tempo de fazer uma visita ao Centro de Arte Moderna, onde não ia há algum tempo já. Fiquei uns minutos no bar a ler o jornal, antes de percorrer o jardim cada vez mais labiríntico e vegetal. Cheguei ao edifício central da Fundação Gulbenkian sobre a hora. A conferência de Roger Chartier, da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris - "Langues, Lectures et Bibliothèques. Une perspective historienne" - iria decorrer na sala 1, a mesma onde há um ano estive num encontro sobre Inteligência Artificial organizado pelo Fernando Almeida e Costa.
O convidado foi apresentado primeiro pelo reitor da UL, o José Barata Moura e depois pelo vice, António Nóvoa. A sala estava cheia. A conferência, problematizando o lugar e a configuração do livro no tempo da edição electrónica, e por consequência, reflectindo sobre as novas leituras e os novos leitores, levantou imensas questões sobre as quais pretendo escrever aqui. Aliás a dificuldade de conservar a unidade da obra - garantida no códice e no livro impresso - é um dos problemas centrais do texto digital. E o leitor digital, como se orienta num texto fragmentário que não para de remeter para outros textos, também estes fragmentos de uma coisa que nunca chegamos a contemplar como uma unidade dada? Onde está, nesse universo dos textos que deslizam pela superfície do ecrán ou se afundam na sua profundidade, onde está a obra, onde fica o autor?
Espero poder deixar aqui no blogue um registo completo da conferência, escrito a partir das notas frenéticas que tomei durante as duas horas.



Deixo aqui algumas ligações para páginas onde encontrei conferências e entrevistas do autor, justamente em torno das questões que levantou no colóquio de hoje.

Muerte o transfiguración del lector, um artigo em francês, apesar do título vir indicado em castelhano;
Entretien avec Roger Chartier, uma longa entrevista com o autor, acerca das linhas mestras do seu pensamento;
Lecteurs et lectures à l'âge de la textualité électronique, outra entrevista com o autor, num formato bastante atraente;
ENTREVISTA A ROGER CHARTIER, publicada na Revista de Divulgación Científica y Tecnológica de la Asociación Ciencia Hoy

A Rádio não acontece... faz-se, diz o Fernando Correia 

O meu amigo Pacífico deixou-me há dois dias o livro do Fernando Correia, com autógrafo e tudo. Fez hoje duas semanas que o homem da rádio foi à JB, falar da sua vida de jornalista desportivo e falar de futebol. Nesse mesmo dia estava a fazer a promoção do seu livro de memórias, escrito a cumular cerca de 50 anos de carreira. Basta ler as badanas do livro para perceber que este homem percorre toda segunda metade do século XX a fazer rádio, passando por onde interessava passar no momento certo. O livro é um registo memorialístico, propositadamente informal, por vezes sem recusar mesmo o anedótico. O prefácio é de Manuel Sérgio, colega do Instituto Piaget.
Ao longo de 180 páginas desta obra editada pela Sete Caminhos, Fernando Correia escreve sobre as suas muitas experiências em viagem, acompanhando as equipas portuguesas de futebol, mas também nos fala dos seus anos de aprendizagem e dos projectos pessoais que o marcaram. Fiquei a saber que o João Sebastião Bar foi ele quem o criou, instalando ali um estúdio de rádio de onde chegou a fazer inúmeros directos. Mas também há lugar no livro para as homenagens e para a reflexão sobre o futuro da rádio. No gabinete do Piaget, onde todos os dias vê passar aquele combóio que vai para longe, o Fernando Correia inventou este livro para nos falar do que sabe bem. "Para mais", termina ele, "o amanhã é já ali."
Eu nunca fiz rádio mas lembro-me de ter conhecido nos estúdios da Sampaio e Pina ou do Quelhas (não me recordo... ou serão os mesmos?) o João Aguiar, com os Temas em Análise. O programa começava com uma música de que ainda recordo os acordes, e sobre a música ouvia-se a voz pausada do agora escritor de romances históricos: "um programa em se fala de tudo aquilo que está escondido, perdido ou esquecido no lado esquerdo do cérebro". E depois lá entrava o tema da semana, rebuscado de entre os temas da moda. O insólito, como nós dizíamos então, o misterioso, o fantástico, etc. Também de lembro de duas ou três madrugadas no programa da manhã, o Ora Hora, ou vice versa, do inimitável Luís Pereira de Sousa, que chegava sempre sobre a hora ou até depois, enquanto a música do programa o esperava já no ar. Isto pelos anos 79/ 80. Há séculos.



Fado em mim... 

Tem a ver com a Mariza, a fadista, mas tem também a ver com muitos outros. Estou a falar (digo melhor: estou a escrever) acerca de mais uma colecção do jornal Público, vendida com a edição de 6ª feira. A colecção chama-se "O fado do Público - 100 anos de Fado" e é um primor, do princípio ao fim. Celebra um século de registo discográfico e logo com um belíssimo texto de Rui Vieira Nery. Cada entrega, das 17 que terão lugar até ao termo da colecção, consiste num pequeno livrinho com formato de CD, com o disco cravado no verso da capa dura. O grafismo é moderno e cheio do mais fino humor. O primeiro, oferecido com a edição passada, começa com um texto do presidente da república, seguido por um pequeno depoimento de Mariza (esse ícone feminino do Fado - isto será marialvismo?), ao qual se acrescenta ainda uma bela e muito pessoal evocação da história do género muito bem escrita por Carlos do Carmo. E depois o primeiro capítulo daquilo que será uma completa história do Fado. Chama-se precisamente: "Para uma História do Fado". Vieira Nery, um especialista em musicologia, reflecte sobre o silêncio das fontes acerca do género musical a que se deu finalmente o nome que hoje conhecemos e evoca as origens do fado numa dança sensual, vagamente acompanhada de música de guitarra, que era dançada persistentemente no Brasil, nos inícios do século XIX. O texto promete e deixa prever um excelente ensaio, escrito com rigor, subtileza e erudição. Por mim, que o li na sala do Hospital de Dia, tentando vencer o ambiente de limbo que ali se vive enquanto se espera, infinitamente se espera, fiquei rendido ao pequeno objecto que amanhã terá a sua segunda entrega.



E depois o próprio CD: José Porfírio, Maria do Carmo Torres, Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, o filho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Mísia, Mafalda Arnauth, lindíssima e com uma voz que chega a tocar os acordes da doçura sem ser despropositadamente melíflua, Kátia Guerreiro, Ana Moura e Mariza. Esta última o milagre que já conhecemos, que consegue interpretar o hino nacional de forma pessoal como se viu recentemente no hemiciclo. C'est tout. Silêncio, que vamos ouvir e ler o fado.

terça-feira, maio 25, 2004

Le Monde diplomatique, edição portuguesa 



A edição portuguesa do Monde diplomatique faz cinco anos. Já vai no nº 61 e com regularidade mensal dá-nos uma mão cheia de artigos de especialistas e de jornalistas da casa. O director da edição portuguesa é António Borges Coelho e a editora a Campo das Letras. Acontece que o Paulo Lobo me ofereceu, há semanas, o número de Abril. Desde então tenho transportado esse jornal impresso em papel branco com primeira página em cores para o café, onde fui lendo paulatinamente artigo a artigo. Não falhei um e nunca dei por desperdiçado o tempo que roubei à ficção.
Uma parte deste número é dedicado aos 30 anos do 25 de Abril. Manuel Villaverde Cabral escreveu um longo artigo sobre a revolução e a normalização democrática no contexto do convívio europeu. Mia Couto fala do 25 de Abril na perspectiva do africano das colónias, envolvido na luta de libertação da potência colonial - "Rir em Abril, Dançar em Junho; A queda da ditadura portuguesa vista de Moçambique". Duas páginas são dedicadas à herança governativa de Aznar e à luta contra o terrorismo. Um professor da Universidade de Nova Iorque escreve sobre a "nova ordem mediática americana". Um artigo muito crítico sobre o perigo da concentração dos media e muita matéria sobre a política norte americana no Médio Oriente. Um interessante artigo sobre o estatuto da mulher no Islão, da autoria de um jornalista de Londres, uma reflexão sobre a aliança conjuntural entre a França e a Alemanha e alguns textos sobre o ensino profissional e a precariedade entre a classe jornalística, este último assinado sob pseudónimo. Artigos sobre a tragédia política e humanitária do Haiti e sobre as convulsões sociais na Venezuela de Hugo Chávez e uma reflexão sobre o conceito de "genocídio". A terminar, um artigo sobre o Islão, tal como ele é espelhado pelos media franceses.
Apenas dois reparos, que não diminuem a grande qualidade dos textos e dos colaboradores: a falta de contribuições de jornalistas e especialistas portugueses, já que se trata da versão portuguesa; a falta de pluralismo que transparece nas posições dos autores dos textos, tendencialmente anti-americanos, sem nuances, a ponto de ser demasiado notória a ausência de opiniões contraditórias que fizessem a polémica. E essa ausência do contraditório não é um pequeno defeito. Está lido.
Aqui fica um link para o jornal, "o" Monde Diplomatique.

domingo, maio 23, 2004

Já chegou a Feira do Livro 

Já chegou a Feira do Livro. Digo assim - "já chegou" - porque o mês de Maio chega sempre num atropelo, à saída do ano novo, do Carnaval e da Páscoa, antes da vertigem do final do ano lectivo, no começo da Primavera. Tudo tão precipitado que quando dou conta já estamos à entrada da Feira. Desta vez acaba mais cedo, a 6 de Junho, em vez de 10 ou mesmo 12, porque o Euro começa nesta data e os pavilhões terão de estar desmontados e o terreno limpo de livros e leitores sonâmbulos. A Manuela já lá esteve na 6ª feira, dia em que abriu as portas esta Feira que não tem portas nem janelas. Trouxe bastantes livros mas o melhor ainda está para vir. Outros livros.
Para mais informações, nomeadamente sobre o programa de actividades e localização dos pavilhões é só clicar aqui ou aqui. É igual.


SILÊNCIO... Vou ler em voz alta! 

Existe uma longa história da leitura. Alberto Manguel traçou alguns aspectos capitais dessa história num livro admirável a que já me referi aqui. A leitura em voz alta é uma das dimensões do resgate de sentido de que a letra se encontra imbuída. Um dos marcos dessa história é a descoberta solene que Santo Agostinho faz ao surpreender Ambrósio lendo silenciosamente, sem mexer os lábios. A figura imóvel do santo, fechada no círculo perfeito do seu silêncio meditativo, impressionou vivamente o autor da Cidade de Deus. A passagem das Confissões onde o episódio é descrito, é puro alimento para o espírito. Agostinho sabe ser sincero, profundo e sagaz, sem perder a claridade de uma escrita que serve para desvendar os mistérios de uma espiritualidade atormentada e cheia de sombras. O excerto encontra-se no Livro VI das Confissões, denominado "Entre Amigos" (que li na edição académica da Livraria Apostolado da Imprensa, datada de 1984), parágrafo 3.
Agostinho debate-se ainda com as suas dúvidas e perplexidades, enquanto elogia a figura de Santo Ambrósio. Mas era difícil falar-lhe a sós. Quando não recebia verdadeiras multidões que o procuravam para auxílio, recolhia-se à leitura: "As multidões dos homens de negócios, a quem ele acudia nas dificuldades, impediam-me de o ouvir e de lhe falar. No pouquíssimo tempo em que não estava com eles, refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura". Depois Agostinho assinala o enigma: "Mas quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam. Nas muitas vezes que me achei presente, - poque a ninguém era proibida a entrada, nem havia o costume de lhe anunciarem quem vinha - sempre o via ler em silêncio e nunca de outro modo." Agostinho teoriza respeitosamente sobre os motivos de tal comportamento. Leria em silêncio para evitar interrupções de algum discípulo que lhe pedisse esclarecimentos. O que seria uma perda de tempo, roubado à leitura e à possibilidade de ler mais e com recato. Mais provavelmente, continua Agostinho, Ambrósio leria em silêncio para poupar a voz de que necessitava para as palestras. "Mas fosse qual fosse a intenção com que o fazia, só podia ser boa, como feita por tal homem."
Depois desta descoberta de santo Agostinho a história da leitura segue a sua via silenciosa, num aprofundamento da interioridade do leitor solitário, enquanto a leitura em voz alta se reserva sobretudo para fins mais utilitários. Mas esta conquista da leitura silenciosa, com o que supõe de aprofundamento da mundividência do leitor, não deverá fazer-nos perder de vista as circunstâncias que envolvem a leitura em voz alta. Leitura pública, familiar ou privada, a leitura ouvida cumpre um programa implícito ou manifesto de socialização do saber e de urbanidade, de promoção de gosto, de partilha da informação numa economia da oralidade. Mas também pode obedecer a critérios de duvidoso proselitismo político ou religioso. Actualmente a leitura em voz alta é uma estratégia quer de promoção comercial da obra e do seu autor, como um recurso para a promoção da leitura numa sociedade que multiplica os modos de leitura sem melhorar visivelmente os níveis médios de literacia.



Para mim a leitura em voz alta deve ser um recurso para fazer novos leitores e para levar a pensar, para partilhar saberes e para reforçar laços de convivialidade entre leitores, entre professores e alunos, entre pares, numa procura conjunta do conhecimento, que inevitavelmente dará lugar, a seu tempo, à investigação pessoal e solitária, ao prazer de ler um bom livro.
Nas actividades da BME tenho procurado criar episódios de leitura partilhada, dando visibilidade ao acto de ler. Ao contrário do que possa parecer a leitura individual, numa escola, pode ser um acontecimento muito pouco frequente. Criar momentos de leitura pública reforça a centralidade desse acto fundador do conhecimento, valoriza a disponibilidade e a atenção e revela um amplo território de possibilidades que pode ir do prazer à preplexidade, da surpresa ao sublime.

No sábado passei pela grande tenda da Festa da Educação, promovida pela CMA, que decorre até 26 de Maio na Praça de S. João Baptista. Trata-se de uma Mostra do Ensino Superior onde encontramos exposições, ateliers (nas escolas) e actividades promovidas por diversas instituições: o ISC-S, o ou a ESSEM, a FCT-UNL, a ESEJP, o ou a EN. No espaço do Instituto Piaget descobri um livro cujo título deu o pretexto para estas linhas: A Leitura em Voz Alta. Trata-se de uma obra de Georges Jean, onde se reconhece um renovado interesse pela leitura em voz alta. Poeta, linguista e universitário, passa em revista diversos aspectos da leitura e da oralidade associada, desde sempre, ao acto de ler. Para além de considerar a leitura em voz alta um recurso para fazer novos leitores e em si mesma uma didáctica geral, o autor partilha a tese de François Billetdoux, citado em epígrafe: "A dicção é metade do pensamento, tudo o resto é vocabulário." A "Voz Alta Leitora" Entre os Gregos, A "Voz Alta Leitora" da Idade Média, A "Viva Voz" Leitora e as suas Modalidades, Aprender a Ler em Voz Alta, A Pontuação, O Corpo Leitor e O Direito de Ler em Voz Alta, são capítulos do livro que termina, como se vê, em pleno acto de reivindicação.


sexta-feira, maio 21, 2004

"Langues, Lectures et Bibliothèques. Une perspective historienne", na FCG 

O Fernando Carmo da RBE (Rede de Bibliotecas Escolares) anuncia na Lista de correio electrónico a realização para breve de uma conferência intitulada "Langues, Lectures et Bibliothèques. Une perspective historienne". O orador será Roger Chartier, da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e o acontecimento terá lugar a 28 de Maio, na sala 1 da Fundação Calouste Gulbenkian pelas 11.00 horas. O Mestrado em Educação e Leitura (FPCE, Univ. Lisboa) e o Centro de História da Cultura (UNL) são os organizadores. A entrada é livre e há tradução simultânea para os menos francófonos. Para mais alguns pormenores basta clicar precisamente aqui.


quinta-feira, maio 20, 2004

O dia da espiga 

Hoje é o dia da espiga. Inesperadamente aparecem por todo o lado vendedores de espigas a 1 €. Um punhado de espigas misturadas com ramos de oliveira, flores e papoilas raquíticas. O ramalhete, que a partir de agora começará a secar, ainda cheira. E este odor é a verdadeira dádiva do dia. Com excepção da meteorologia e de algum vislumbre de verde, resta-nos o dia da espiga para nos recordar que a natureza não é uma mera possibilidade.

P.S.1: a Paula mandou-me uma mensagem com informação sobre as origens históricas do dia da espiga. Por mim "não há espiga", por isso aqui fica o link.

P.S.2: será que desta vez o link funciona mesmo? Vamos ver. Clique aqui, por favor. Muito obrigado.

P.S.3: bom, está visto que há aqui um segredo qualquer. Vou deixar o texto do link que pode ser lido na íntegra aqui mesmo.

DIA DA ESPIGA

A Quinta-feira da Ascensão é um feriado religioso católico.Celebra a ascensão de Jesus ao Céu, depois de ter sido crucificado e de ter ressuscitado (A Ressurreição é o que a Páscoa celebra).
Este dia (a Ascensão) ocorre cerca de quarenta dias depois da Páscoa, e é sempre a uma quinta-feira.
E, também, sempre nessa data, celebra-se o Dia da Espiga ou Quinta-feira da Espiga.
Tradicionalmente, de manhã cedo, rapazes e raparigas vão para o campo apanhar a espiga e outras flores campestres. Com elas, formam um ramo com: espigas de trigo, folhagem de oliveira, malmequeres e papoilas. O ramo pode também incluir centeio, cevada, aveia, margaridas, pampilhos, etc.

Cada elemento simboliza um desejo:
- A espiga = que haja pão (isto é, que nunca falte comida, que haja abundância em cada lar)
- O ramo de folhas de oliveira = que haja paz (lembra-te que a pomba da paz traz no bico um ramo de oliveira) e que nunca falte a luz (divina). (Dantes as pessoas alumiavam-se com lamparinas de azeite, e o azeite faz-se com as azeitonas, que são o fruto da oliveira.)
- Flores (malmequeres, papoilas, etc.) = que haja alegria (simbolizada pela cor das flores)

O ramo é guardado ao longo de um ano, até ao Dia de Espiga do ano seguinte, pendurado algures dentro de casa. Acredita-se que este costume, que surge mais no centro e sul de Portugal, nasceu de um antigo ritual cristão, que era uma bênção aos primeiros frutos.
No entanto, por ter tanta ligação com a Natureza, pensa-se que vem bem mais de trás no tempo, talvez de antigas tradições pagãs associadas às festas da deusa Flora que aconteciam por esta altura e às quais se mantém ligada à tradição dos Maios e das Maias.
Hoje em dia, nas grandes cidades, as pessoas já não vão colher o Ramo da Espiga (nem há onde...), mas há quem os venda, tendo-os elas colhido e fazendo negócio com a tradição... E ajudando a preservá-la.


terça-feira, maio 18, 2004

LIV (cont.) 

LIV quer dizer Leituras Imprevistas, Vª edição. Já assinalei o acontecimento mas ainda não deixei registo mais circunstanciado da actividade. Vai agora.
O tema dominante que apresentei há meses era o futebol, daí a minha busca de literatura afim. Apontei para a data de 12 de Maio, para marcar a proximidade do início do Euro 2004 (falta um mês para...) e sugeri a leitura integral de Maracanã Adeus, de Edilberto Coutinho. Com o passar dos dias e a falta de eco de algumas das entidades que contactámos para paraticipar nas Leituras fomos abandonando a ideia de promover uma leitura integral daquela obra. Fixámo-nos numa sessão de abertura das Leituras, na Biblioteca, com um convidado de relevo do mundo do futebol. Convidei então o Fernando Correia, animador da Bancada Central da TSF, e voz cativa nos relatos dos jogos de cada fim de semana. Afectuoso e disponível para o contacto humano, aceitou o meu convite à primeira e às 9.45 do dia 14 de Maio (acabámos por mudar a data) lá estava a chegar à JB. Depois de um café no bar, subiu à Biblioteca e com a companhia do Manuel Pacífico e da Lucília Achando, começou a sessão. O alinhamento estabelecido foi este:

Sessão de Animação de Leitura - ALINHAMENTO
Leituras Imprevistas V

10.00 Biblioteca da Escola João de Barros
Leitura Dramatizada do conto Mulher na Jogada – Grupo de Teatro Qtª da Água

Apresentação das Leituras (equipa da BME)
Sobre as outras edições das Leituras e sobre a edição de 2003/ 2004

Apresentação do convidado Fernando Correia
O livro sobre jornalismo radiofónico, no dia do seu lançamento
Tema de discussão: A importância do Futebol na formação dos jovens

Discussão em aberto: perguntas ao convidado e debate sobre o tema com os alunos

11.30 Encerramento da sessão:
Alguns livros sobre futebol, sugestões de leitura



De acordo com os relatos que recebi a sessão correu muito bem. Uma turma assistiu ao acontecimento, que não terá seguido escrupulosamente o alinhamento sugerido, e o convidado empolgou alunos e professores presentes. Com a humanidade que se lhe reconhece, com uma fluência invejável, Fernando Correia falou da sua carreira na Rádio, falou de futebol e do mundo tão particular que ele engendra. Apresentou o livro, cujo lançamento decorria nesse mesmo dia: "A Rádio não acontece... faz-se". A sessão contou também com a presença do seu editor e de outro convidado, houve leitura de poemas e por sua iniciativa, Fernando Correia leu um excerto do livro do autor brasileiro.
A intervenção inicial do Grupo de Teatro, para uma leitura dramatizada de um dos contos do livro, foi cancelada à última hora.
Depois desta sessão a leitura do Livro de Inês Botelho seguiu de acordo com o que foi previamente preparado. À tarde houve uma sessão de encerramento de que não tenho notícia ainda.

P.S.: O que correu mal
Estas Leituras foram uma sobrevivência residual de um plano inicial bem mais ambicioso. Para começar a minha contribuição, ainda que obrigatoriamente à distância, foi algo fracassada. Pelos vistos o tele-trabalho é mais difícil do que parece quando é elogiado nos media. Muitas dimensões do nosso plano inicial, por motivos diversos, ficaram por realizar. Gostaria, por razões de metodologia e pedagogia para o futuro, de deixar aqui o registo desses actos falhados, de cujo desconcerto pode afinal emergir a nossa edição deste ano das Leituras.
Em Março fizémos seguir para o Benfica um ofício a formalizar o convite a Eusébio para participar numa sessão da nossa actividade. Não recebemos qualquer resposta.
Os contactos com a Editora GaiaLivros, por ofício, mail e telefone, não deram grandes resultados. A editora resolveu ignorar os nossos pedidos de colaboração para dar a conhecer uma das suas autores.
O meu pedido de colaboração ao Colégio Bandeirantes para realizar uma sessão de leitura e diálogo entre os alunos e professores das duas escolas, através de webcam... remetido para o Departamento de Língua Portuguesa, caiu no esquecimento.
O contacto com o consulado do Brasil não teve o resultado que esperava e a casa do Brasil também não respondeu às nossas solicitações repetidas.
Na JB, ao que sei, as sugestões "personalizadas" feitas a vários agentes da escola também não tiveram eco.
O Grupo de Teatro aceitou o desafio de realizar uma leitura dramatizada mas a dois ou três dias do evento cancelou a sua participação.
A edição deste ano das Leituras foi o resultado destes encontros e desencontros.
Já estou a trabalhar na edição do próximo ano. Sem ressentimentos.



Escrever na relva 

Luís Felipe Scolari já anunciou o 23 para o Europeu. Há surpresas: Moreira foi convocado e Maniche (?) também. Boa Morte e Vitor Baía não. Que pena que o Augusto Abelaira não esteja vivo para voltar a escrever sobre o futebol na sua crónica de circunstância a que deu o nome de Escrever na relva... Depois de tanta conversa é preciso voltar à escrita e manter a calma para fazer uma boa leitura de jogo.

Blogues no País do Gerúndio 

Recebo, em segunda mão, o Diário do Alentejo que leio praticamente na íntegra. Já escrevi aqui sobre isso. Um dos cadernos, o Alentejoilustrado, da edição de 7 de maio, tem uma matéria relativamente detalhada sobre os blogues de Beja. Apresenta quatro blogues e dá a direcção de alguns outros. Já visitei alguns, mas reservo a minha opinião para depois. Não há dúvida de que os blogues propiciam a fusão da esfera pública com o domínio do privado. É possível escrever num blogue com a mesma informalidade com que se conversa no café, com o mesmo nível com que se diz mal do vizinho do lado ou pior. Há quem escreva no blogue como quem grita um segredo a plenos pulmões por detrás de um muro. Ouve quem for a passar mas não se vê quem o grita. Afinal esta permeabilidade faz parte da ética da blogosfera, com imensos matizes. Adiante.
Visitei a Praça da República, que consiste num lugar de discussão pública sobre a cidade, criado por João Espinho, um tradutor de 46 anos, em Junho de 2003. É visitado por quase uma centena de leitores por dia.
Sónia Ferreira, que trabalha na Divisão de Cultura da Câmara Municipalde Beja, criou o Ao Sul. É um blogue de notícias sobre as actividades culturais da cidade, temperadas com reflexões de índole pessoal, marcado por um óbvio bom gosto.
Um arquitecto de 28 anos criou o Caves do Comandante. É um típico blogue pessoal, onde se podem ler reflexões do seu autor, preocupações e comentários da esfera de interesse de quem publica.
Tem avondo é uma expressão tipica do linguajar alentejano. É também o nome do blogue de André Cláudio, onde podemos ler reflexões sobre a actualidade e notícias sobre a actividade cultural da cidade.
Claro que há mais. Basta entrar num destes e buscar nos links.

segunda-feira, maio 17, 2004

Edições Tema, mais 2 livrinhos do Departamº Literário da Guilherme Cossul 

Surpreendem-me sempre que chegam. Ou pelo correio, ou por mão amiga, provavelmente de alguma outra maneira ainda mais improvável. Desta vez foi a Manuela que me trouxe os dois livrinhos da Edições Tema, oferta do Alberto Augusto Miranda. São pequenas publicações, modestas mas cuidadas, mantendo bem a unidade de imagem da colecção. Saiem em pequenas tiragens (300, 500, 1000 exemplares) e são gratuitos. Dão a conhecer autores fora do circuito das editoras porque publicam poesia minoritária... passe a redundância. Escrevem em múltiplas línguas e têm em comum não abdicar de fazer ouvir a sua voz pessoal, sem estridências. São livros fora do mercado, esse Deus que tudo alimenta e devora. Quando me chegam às mãos abro-os ao acaso e cheiro-os, porque isso é o que faço com quase todos os livros quando suspeito que eles me reservam os segredos e as confidências de um destino pessoal.
Desta vez o Alberto Augusto Mirando mandou-me dois livrinhos. Villa Real, Motivos, de António Manuel Caldeira Azevedo. Um conjunto de relatos numa linguagem em deriva poética, sobre a cidade de Vila Real. Del Ajuar, La Locura/ Do Enxoval, A Loucura. Um livro de Carmen Nuevo, de Aviles, Asturias, poesia em formato bi-lingue. Por falar em formato, o livro também se distingue por isso. A forma de alguns dos poemas, que apresentam versos muito longos a desejar a soltura da prosa, induziu o formato do livro. Um livro de lombada baixa e largura de página que quase duplica a sua altura. Serão a minha leitura muito em breve.
Em 1995 o Fernando Guimarães (ou o Alberto Miranda... não sei ao certo)... um deles, pediu-me que escrevesse uma recensão para uma revista que nunca chegaria a ver a luz do dia. Emprestaram-me um livrinho de um jovem poeta Uruguaio, Hector Rosales, naturalizado espanhol, habitando em Barcelona. "Alrededor el Asedio", um livro breve com três poemas divididos por fragmentos enigmáticos que li com verdadeira dificuldade. Meses depois entreguei um pequeno texto (em todo o caso grande demais para a revista que não chegaria a sair). Chamei-lhe "Alrededor de Hector Rosales" e saiu nas Edições Tema, constituindo a segunda entrega de uma colecção de textos que depois progrediu para um projecto editorial de que agora recebo o eco com alguma regularidade. O autor agradeceu-me, escrevendo desde Barcelona uma carta bastante simpática onde afirmava que eu tinha "sabido resumir acertadamente diversos canais de acesso a esse livro". Mandou-me algumas publicações e folhetos poéticos, que retribui com um par de livrinhos de poesia de poetas portugueses. Infelizmente, provavelmente por culpa minha, não soube alimentar aquele contacto que o poeta uruguaio tão delicadamente me proporcionou. Lembrei-me disto a propósito da oferta do Alberto Augusto Miranda. Reli o meu texto de 1995 e gostei. Sou sincero.

sábado, maio 15, 2004

O 4º centenário do senhor Quesada 

No próximo ano de 2005 contam-se quatro séculos sobre a publicação da novela de Cervantes. Vai ser o ano de Cervantes. Também vai ser o ano de muitas outras coisas, naturalmente. Tenho tentado imaginar uma forma de transferir o clima propício de celebração do D. Quixote para o interior da realidade escolar, nomeadamente da JB. Agora que as Leituras Imprevistas V já tiveram lugar - com menos brilho que noutros anos - posso imaginar e planear a próxima edição. Deparei-me então com dois problemas: (1) o de justificar pedagogicamente - e até curricularmente - a escolha de uma obra estrangeira da importãncia desta para uma actividade de grande envolvimento; (2)o de enquadrar a actividade na economia e no espírito das Leituras, onde se supõe a leitura integral de uma obra - o que aqui não poderia acontecer, dada a dimensão e a estrutura tão complexa da novela.
Entretanto ocorreu-me que a opção pela grande narrativa de Cervantes seria mais facilmente legitimada se, para além do texto ela também servisse de pretexto para uma deriva por alguns dos tópicos e núcleos do nosso tempo, do mundo actual. Explico melhor: em virtude da impossibilidade de fazer uma leitura integral do texto e da irrelevância de ficar por uma leitura pura e simples, sem enquadramento, sem contextualização, e sem qualquer referência às experiências e expectativas intelectuais dos alunos e professores, o ideal seria escolher alguns núcleos centrais da obra, em torno dos episódios mais significativos.


Por exemplo, deixo algumas pistas de trabalho (a mim próprio), inventariando meia dúzia de episódios: o da queima dos livros de cavalaria, protagonizado pelo padre e pelo barbeiro, que assim julgavam cortar o mal de D. Quixote, leitor inveterado, pela raiz das suas leituras (I parte - cap. VI); o episódio em que o cavaleiro, confundindo tudo como era costume, liberta uns condenados às galés (I parte - cap. XIX); o discurso das armas e das letras, em que D. Quixote toma o partido das armas (I parte - cap. XXVIII); a aventura da descida à gruta de Montesinos, onde perde a noção do tempo e julga ter permanecido muitos dias (II parte - cap. XXII); o episódio divertidíssimo do teatro de fantoches de Maese Pedro (II parte - cap. XXV a XXVII); o episódio antológico em que o amo aconselha o seu escudeiro, preparando-o para o governo da ilha da Barataria (II parte - cap. XLII e XLIII); o episódio cortesão da cabeça encantada, em que D. Quixote é iludido no sentido de acreditar que o estranho mecanismo pode responder a perguntas que lhe fossem feitas (II parte - cap. LX).
A minha ideia consiste então no seguinte: uma vez identificados e escolhidos alguns episódios mais significativos, promover a sua leitura integral, enquadrando-os devidamente no todo da narrativa. Depois criar, a partir de cada um deles, um acontecimento que permita explorar as pistas da narrativa cervantina numa perspectiva pedagógica e cultural.
Sem pensar muito e espontaneamente, poderia imaginar uma sessão de Conversas Com Livros a partir do episódio descrito no capítulo VI, da primeira parte. Sobre os livros proibidos, sobre os livros que não lemos, sobre os malefícios da leitura... etc. A libertação dos condenados às galés pode ser um bom pretexto, paródico é certo, para falar de justiça. O discurso das armas e das letras seria um bom pretexto para uma reflexão animada sobre a literatura e a guerra. A descida à gruta de Montesinos permitiria uma inesperada actividade em torno da espeleologia e da investigação da terra. O episódio dos fantoches seria uma deixa para as artes do teatro, para a realização de um teatro de fantoches, precisamente. Os dois capítulos admiráveis em que D. Quixote aconselha Sancho, preparando-o para o governo da ilha, são um belíssimo ponto de partida para falar de política e de sociedade. Finalmente o episódio bizarro da cabeça encantada seria a pedra de toque de uma visita de estudo, de um debate, de um colóquio sobre inteligência artificial. A produção de materiais, com enquadramentos vários, com incidência nos capítulos efectivamente lidos, alguma exposição biográfica, sobre o autor ou bibliográfica, sobre a sua obra, filmes e um BME temático, são outras actividades complementares. Claro que incluo neste ano cervantino a sempre adiada conversa com o José Bento. Mantenho a ideia de uma sessão das Conversas Com Livros dedicada à tradução e à re-leitura, a decorrer num ambiente de tertúlia espanhola. A tradução do Quixote de José Bento estará para sair, pela Relógio D'Água por estas alturas de 2005.


Este post é um esboço do projecto, que desenvolverei na altura certa. Para mais informação basta entrar na página oficial do mundo de Cervantes, a que pode aceder a partir daqui mesmo. Um link para as iniciativas do IV Centenário está disponível logo à entrada.

sexta-feira, maio 14, 2004

Leituras Imprevistas V, hoje na JB 

Há um ano atrás descubri que 2004 seria o ano do futebol. Por isso sugeri na BME que o tema das leituras fosse esse mesmo. Passei uma parte das férias de verão a ler o pouco que apanhava sobre o tema. Descubri que é difícil encontrar bons livros sobre o "desporto-rei".
Comecei pelo livro melancólico de Francisco José Viegas, Morte no Estádio, publicado pela ASA. Uma história de mistério e de traição que envolve o assassinato de um jogador do Futebol Clube do Porto – o caso acaba por ser desvendado por um polícia e por um detective que descobrem, por detrás do crime, um mundo de interesses de que não suspeitavam.
Depois, na Feira do Livro encontrei o enigmático livro de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes antes do momento do Penalty, da Relógio D´Água e li-o em parte nas brevíssimas férias do Algarve, nos Olhos de Água. Guardo dessa leitura de esplanada duas impressões: a estranheza da escrita de Handke, que fere pela objectividade e pela secura das descrições sem alma, por um lado; por outro o profundo mal estar que sentia então, o cansaço sem motivo, a prostração e o sono irregular. Quanto ao livro, de um amarelo rutilante na capa fina, é a história de um guarda-redes internacional da selecção alemã e da sua vida medíocre e sem sentido, depois de abandonar o mundo do futebol.
Depois li dois livrinhos a que me referi há meses neste blogue, com a melhor da minha boa vontade e o meu espírito ecuménico-literário. Golpe de Estádio – o Romance da corrupção no futebol português, de Marinho Neves, da Terramar. Uma história escrita por um jornalista, cheia de detalhes sobre a corrupção no futebol português, envolvendo jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes corruptos. E os Contos Desportivos, de Henrique da Mota, com edição da Câmara Municipal de Almada. Escritos de um autodidacta, é o mais brutal que se pode escrever acerca da obra que traspira boas intenções por todas as páginas. Contos e histórias um pouco ingénuas sobre os feitos desportivos, escritos por um ex-dirigente desportivo e atleta. A amizade, a lealdade e os valores da entreajuda são os grandes protagonistas.
Também li um delicioso livro de crónicas de Javier Marías, Selvagens e Sentimentais. Talvez o melhor de todos os que li até ao momento sobre o tema. Crónicas destilando um humor notável e um ódio irónico pelo Barcelona. Marías fala do futebol como a "recuperação semanal da infância".
Finalmente dei com o Maracanã, Adeus – Onze Histórias de Futebol, do escritor brasileiro Edilberto Coutinho, após uma árdua busca. Sabia que tinha sido editado, em tempos, pela Caminho, faz agora 20 anos, e que esgotara até ao último exemplar. Encontrei-o na Biblioteca do Seixal. São onze histórias sobre o futebol, tal como são onze os jogadores em campo por cada equipa. Composições sobre o mundo alucinante do futebol brasileiro escritas com imensa sensibilidade e afecto.
Depois disto preparei-me para preparar um dos "hemisférios" das Leituras Imprevistas, dirigido aos alunos do secundário. Para o básico a minha colega Lucília Achando encarregou-se de preparar a leitura de uma livros de histórias escrito por uma jovencíssima autora do Porto, Inês Botelho. Uma estudante de 17 ou 18 anos, na altura, que arriscou a publicação do seu primeiro livro: O Ceptro de Aerzis - a Filha dos Mundos da editora Gailivro. Sobre a pequena obra que não li diz a editora: Ailura teve uma infância repleta de contos de fadas, elfos e duendes, de todo um mundo mágico e maravilhoso. Mas como todas as crianças ela cresceu e, lentamente, esqueceu esse mundo encantado, até que deixou de acreditar que a barreira que separa o nosso mundo dos sonhos e do maravilhoso não é mais espessa que o próprio ar.
A preparação das Leituras, no que me competia, à distância e por via de esporádicos contactos telefónicos e por mail, começou por entusiasmar-me e depois por se transformar numa obrigação penosa. Teve lugar hoje e começou com uma sessão onde pontificou o nosso convidado de honra, Fernando Correia, jornalista da TSF, relatador desportivo, professor de sociologia da comunicação e sobretudo uma pessoa que pensa o futebol. Os meus colegas ficaram empolgados. Eu fiquei em casa, porque não me senti em condições de me confrontar com tanto tempo de ausência.

terça-feira, maio 11, 2004

O que tenho lido, o que tenho visto 

Volto ao post com um débil e sereno sentido do dever. Escrever, escrever sempre, para devolver em escrita ocasional e pessoal aquilo que lemos de outros. Só isso.
O que tenho lido: nas últimas duas semanas estive um pouco refractário a leituras disciplinadas e consequentes com a minha agenda de leitor errático. A Montanha Mágica continua por desbravar; também não voltei aos Dragões do Éden, que é a minha leitura laica do momento; durante estes dias de "sanatório" terminei a leitura dos quatro primeiros livros do Novo Testamento, nomeadamente o livro de S. João. Continuo agora com os Atos (a tradução é brasileira). Será a minha leitura de rodapé, salvo o sacrilégio. Uma leitura paciente dos "fólios" em papel bíblia, que exige algum método e uma boa motricidade fina para ir passando páginas.
Também tenho estado absorvido na leitura da boa imprensa. Na véspera do alargamento trouxeram-me uma belíssima revista especial do jornal Público: UE a 25 Os Novos Europeus. Um trabalho de mais de 80 páginas sobre os novos países do alargamento, com reportagens dos enviados especiais e textos de enquadramento histórico, cultural e social. Uma leitura que me demorou bastantes horas e que não dei por perdida. Ontem, no café, li na Pública uma excelente entrevista de Maria João Seixas com o filósofo Fernando Gil. Um dos autores do polémico livro que dá pelo angustioso título de Impasses (que o Fernendo Pessoa me prometeu trazer e ainda não...). Hoje li alguns artigos da edição portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique, que aqui tem direcção do historiador António Borges Coelho. Este número de Abril, que destaca o 25 de Abril na capa, foi uma oferta do Paulo Lobo. Será também a minha leitura de café dos próximos dias, porque tem muito para ler.
O que tenho visto: ora bem, tem tudo a ver com o 25 de Abril. Nestes 30 anos escreveu-se muito, publicou-se opinião e os inevitáveis CD's e DVD's + o preço do Jornal. O Público fez sair em regime intensivo uma colecção de filmes e gravações alusivas ao 25 de Abril. O conjunto parece-me muito bom e fica bem numa biblioteca pessoal que se preze. As primeiras duas entregas são de canções da época. Mas o DVD nº 3 inclui já (para além de uma longa metragem) os noticiários sorumbáticos do dia da revolução. O DVD nº 5 contém uma obra imperdível: Bom Povo Português, de Rui Simões. Na entrega seguinte temos o mítico documentário Torre Bela do autor franco-alemão Thomas Harlan.
É sobre este filme admirável, que acima de tudo é já um documento de antropologia social, que gostaria de falar. Amanhã.