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segunda-feira, abril 05, 2004

Sou um "ouvir-dizer", voyeur dos livros, se é que existe 

Gosto de ver, porque há um prazer na representação que não se consuma no acto concreto de fazer. É um prazer mais abstracto, sem o obstáculo da contingência. Ver é não correr o risco de falhar. Vendo bem, é um pouco triste. Mas no caso da leitura, no "ouvir-dizer", falamos de outra coisa. Ouvir ler liberta-nos do esforço da operação mental que associa signos e lhes dá um revestimento sonoro, mas vincula-nos ao exercício severo da atenção. Quando ouvimos ler não podemos deter a leitura, devemos deixar que nos arrastem na vertigem da história que uma voz estranha nos conta. A história da leitura está cheia de "ouvir-dizeres", de leitores indolentes ou lascivos que apreciam essa vertigem. Uma história decantada pela voz de um outro leitor é uma leitura nova que se empreende, mesmo se o texto já é conhecido. Uma leitura de segundo grau, porque também lemos a leitura do leitor, à qual não podemos ficar indiferentes.
Numa Feira do Livro recente - creio que na última -, em Lisboa, assisti a uma leitura. Ouvi O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allen Poe, lido por um elemento dos Artistas Unidos.



Um texto que eu não conhecia, dito com contenção e rigor. Quase três quartos de hora a 'ouvir dizer' e no final o forte impacto da chegada do general Lassalle a Toledo. Gostei de ouvir ler e estava disposto a submeter-me de novo a essa experiência.
Fiquei a saber que a Festa do Livro de Almada também nos reserva leituras ao fim de tarde, pelos Artistas Unidos. Sempre na Sala Polivalente do Forum Romeu Correia, às 18,30, com entrada livre, porque ninguém pagaria para ouvir ler. É assim: a 13 de Abril Isabel Muñoz de Carvalho lê História de Rosa Brava de José Régio; a 27 Miguel Borges lê Primeiro Amor de Samuel Beckett; a 11 de Maio Lia Gama lerá A Senhora do cãozinho de Anton Tchekov; a 25 será Américo Silva a ler José Matias de Eça de Queirós; a 8 de Junho Carla Galvão lerá Super Flamina Babylonis de Jorge de Sena e finalmente a 22 desse mês Jorge Silva Melo lê O Nariz de Gogol.

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