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quinta-feira, abril 08, 2004

Science Fiction, leituras para um próximo futuro... 

Estou a terminar a leitura de "O Cérebro de Broca", de Carl Sagan. É um livro exemplar, escrito por um espírito lúcido, tolerante e céptico. Da substância da obra falarei noutro post. Sobre o cepticismo e o valor da dúvida (costumo dizer aos meus alunos que a dúvida foi uma das maiores invenções do homem) deixo um link para um artigo didáctico deste divulgador apaixonado do espírito científico. Onde? Aqui mesmo.



Vim aqui por outro motivo. Num dos capítulos finais do livro ("Para Marte , via Cerejeira", p. 201), Carl Sagan empreende uma entusiástica defesa da ficção científica e da importância desse género literário para o despertar da curiosidade científica. Numa passagem desse capítulo escreve: "He Who Shrank, de Harry Hasse, apresenta uma especulação cosmológica arrebatadora que hoje tem vindo a ser seriamente revivida, a ideia de uma infinita regressão de universos - na qual cada uma das nossas partículas elementares é um universo a um nível inferior e nós somos uma partícula elementar do próximo universo superior."(p. 191) Pareceu-me curiosa esta nota quase marginal, e lembrei-me de que também eu e alguns amigos de escola, chegámos a teorizar sobre esta possibilidade. Imaginámos um universo (eu cheguei a registar a teoria em papel, escrevendo um pequeno relatório solene com um desenho tosco) em que o infinitamente pequeno inclui ainda universos infinitamente complexos, e essa complexidade infinitesimal constitui a base elementar de outros universos que nos transcendem e de que somos apenas uma parte ínfima. Existiriamos entre dois infinitos, entre abismos, num equilíbrio sobre a lâmina.
Foi por essa altura que li um dos primeiros livros de ficção científica a sério, "O Planeta dos Macacos". Era um livrinho de capa azul, do Círculo de Leitores e veio parar às minhas mãos de leitor inexperiente que o leu sem qualquer ideia preconcebida sobre o género. Rapidamente percebi que aquele prazer da leitura, quando é muito intenso e incomunicado - nem sempre podemos confidenciar com outros leitores - parece pecado. Mas a volúpia sobrepassa facilmente o sentimento de culpa, para mais num leitor sem escrúpulos de consciência como eu, desde cedo. Tal como as personagens do início do livro de Pleu Boulle, um casal de símios que viaja em núpcias numa nave espacial privada e que encontra um manuscrito, onde se conta então a história inverosímil que já sabemos, eu, leitor debutante, senti que navegava num espaço sem limite, aberto a todos os mundos, onde seriam possíveis todos os prazeres imagináveis. Mais do que uma navegação, era uma deriva, ainda sem referências, em todo o caso uma viagem.
Um dos episódios mais perturbadores (era da idade): quando os humanos são mantidos em cativeiro e a personagem principal é reunido com Nova. Os símios, tão curiosos e inventivos como os humanos, queriam observar com olho antropológico - a palavra é mesmo esta, caramba - o acasalamento de dois seres humanos. Descobri nessa leitura que o pudor é um escrúpulo que declina em determinadas condições bem controladas, como era o caso.



Depois encontrei outro clássico, "A Guerra dos Mundos" de H. G. Wells. Li-o e depois reli inúmeras vezes o capítulo XVI, "O êxodo de Londres". Descobri mais tarde que aquelas páginas que descrevem o tumulto da fuga da população da cidade de Londres me proporcionaram uma e outra vez, repetidas vezes, a minha primeira experiência literária. Percebi que aquilo era "literatura" (não me perguntem agora o que é isso) e que aquelas páginas transcendiam a literalidade do que estava escrito, empurrando o leitor para uma verdadeira experiência de medo e de caos. Foi essa experiência de arrebatamento que procurei das inúmeras vezes que voltei àquele capítulo que antecede o domínio dos marcianos. O livrinho de cor azul escura (também do Círculo), com uma gravura estilizada na capa onde surgem, por entre a vegetação que lhe serve de alimento, um grupo de figuras sem rosto (a la Margrite), tem-me acompanhado sempre. Agora tenho-o sobre a secretária.



E depois (ou antes) devo incluir o Júlio Verne e os seus livros de uma fantasia calculista, sempre tão previdentes, meticulosos, geométricos. "Vinte Mil Léguas Submarinas" , "Da Terra à Lua", "À volta da Lua", "Viagem ao Centro da Terra", entre outros. E um misterioso livro que li mais tarde, "A Nebulosa de Andrómeda" de Ivan Efremov, um escritor russo que inventa um planeta unificado sob uma organização política socialista, capaz de empreender as mais ousadas viagens pelo espaço. Nunca me esqueci de uma das suas personagens do livro, um cidadão desse mundo ameno e sem conflitos, Mven Mas.



Regresso a Carl Sagan, a um dos parágrafos daquele capítulo sobre a função pedagógica da ficção científica: "O grande interesse dos mais novos pela ficção científica está reflectido nos filmes, nos programas de televisão, nos livros de BD e na exigência de cursos sobre ficção científica nos liceus e nas universidades. A minha experiência é de que esses cursos podem ser excelentes experiências ou desastres, dependendo da forma como são ministrados. Cursos em que as leituras são selecionadas pelos estudantes não lhes fornecem qualquer oportunidade de ler o que ainda não leram. (...) Mas os cursos de ficção científica devidamente preparados, nos quais a ciência ou a política são parte integrante, parecer-me-iam ter uma longa e útil vida nos currículos escolares. É como experiências sobre o futuro, como exploradores de destinos alternativos e tentativas de minimizar o choque do futuro que a ficção científica pode alcançar o maior significado humano. (...) É minha opinião firme que nenhuma sociedade da terra está hoje bem adaptada ao que será a terra daqui a uma ou duas centenas de anos. Precisamos desesperadamente de uma exploração de futuros alternativos, experimental e conceptual. Os romances e os contos de Eric Frank Russell correspondiam exactamente a isto. Neles podemos ver sistemas económicos alternativos concebíveis ou a grande eficácia de uma resistência passiva unificada a um poder instalado. Na ficção científica moderna podem também encontrar-se sugestões úteis para fazer uma revolução numa sociedade tecnológica computadorizada, como em The Moon Is a Harsh Mistress, de Heinlein." (p. 196 - 197)
A escrita e o pensamento do autor do "Cérebro de Broca" são, definitivamente, uma grande inspiração que nos ajuda a pensar. O optimismo de um homem que afirma a grandeza do cepticismo, sem o qual não haveria de todo um saber científico, é um humanismo marcado pela instrumentalidade tecnológica, pela cultura e pelo respeito por todas as diferenças. Nas suas mais claras formulações este humanismo abre um espaço para o homem no imenso cosmos, onde a aventura do conhecimento constitui a grande odisseia da humanidade.
A terminar, uma última citação de Sagan: "A acomodação à mudança, a procura ponderada de futuros alternativos, são as chaves para a sobrevivência da civilização e talvez da espécie humana. A nossa é a primeira geração que cresceu com as ideias da ficção científica." (p. 197)


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