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quarta-feira, abril 21, 2004

"... é parecido com a verdade." 

Os escritores, sobretudo aqueles que não estabeleceram qualquer protocolo prévio com a verdade antes de iniciarem o vulnerável exercício da escrita, dizem coisas extraordinárias. Os leitores que lêm obsequiosamente à letra também lêm coisas extraordinárias. Lembrei-me de uma nota que devo ao blogue, sobre o livro e Inês Pedrosa. Não interessa verdadeiramente qual ("Fazes-me falta"), nem sequer o seu contexto. A pretexto dos recentes acontecimentos deploráveis em torno do futebol nacional fui buscar uma frase do livro que tanto resisti a ler. Na volta de um dos múltiplos monólogos desse livro que nos mata devagar, à medida que a leitura progride, diz o personagem masculino: "Gostavas de futebol porque era parecido com a verdade."
Podemos sempre imaginar um mundo alternativo onde o jogo deixa de ser simples representação simbólica e invade já todos os espaços de produção. O jogo deixa de ser uma modalidade lúdica e irrepetível de ficção casual, passa a ocupar o espaço central da condição humana. Deixamos de inscrever o jogo na nossa vida porque o jogo já é a nossa vida toda. Para descansar da contínua vertigem, poderemos então reservar para certos momentos especiais, um confronto pontual e decisivo com os factos na sua positividade refrescante. As coisas e os objectos, definidos numa linha clara, obedecendo a leis em que podemos confiar.


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